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A história do primeiro negro de Nova Iorque — que era português

Chamava-se Jan Rodrigues. É uma das muitas curiosidades que pode descobrir em “Encontros e Encontrões de Portugal no Mundo”.
Jan Rodrigues foi o primeiro não índio a viver nesta zona.

Se visitar o mural de heróis afro-americanos no Harlem River Park, em Nova Iorque, nos EUA, vai encontrar uma figura de um homem pintado, com cabelo e barba negros, de tronco nu — mas com um manto azul e uma pequena sacola amarela pendurada ao pescoço.

É uma homenagem àquele que terá sido o primeiro negro de Nova Iorque, Jan Rodrigues — apesar de no mural ter o apelido Rodriguez. É uma das versões possíveis do nome, como explica o jornalista Leonídio Paulo Ferreira no livro “Encontros e Encontrões de Portugal no Mundo”.

Este trabalho reúne uma série de histórias curiosas sobre portugueses que tiveram algum tipo de papel noutros países, ao longo dos séculos — dos episódios mais improváveis aos mais conhecidos. É uma edição da Desassossego que está à venda por 14,94€.

Portanto, foi em 1613 que Jan Rodrigues se tornou o primeiro habitante não índio da zona que viria a ser Nova Amesterdão e, mais tarde, Nova Iorque.

“Os negros reclamam-no como o primeiro afro-americano da cidade, mas também há quem o identifique como o pioneiro dos hispânicos. Todos têm razão, afinal Jan Rodrigues nasceu em Santo Domingo, na atual República Dominicana [que era uma colónia espanhola], e tinha mãe africana.

O que é meio esquecido é que o pai era português e que criou o filho na comunidade portuguesa (dez por cento da população da colónia) até este, poliglota e marinheiro, ter começado a trabalhar para os holandeses, que lhe chamavam Jan. Assim, há um João Rodrigues mulato, que também é chamado Juan Rodriguez, outras vezes Jan Rodriguez, mas que para a história ficou conhecido como Jan Rodrigues”, podemos ler no livro do jornalista português.

É assim o mural no Harlem.

No fundo, este homem foi a primeira pessoa tanto de origem africana como europeia a instalar-se na zona que viria a ser Nova Iorque. Leonídio Paulo Ferreira explica que está provado que Jan Rodrigues viveu como homem livre.

Foi intérprete da marinha holandesa e depois foi comerciante de peles numa ilha que os índios chamavam de Mannahatta — hoje é provável que a conheça como Manhattan. Além disso, é quase certo que Jan Rodrigues falasse uma versão antiga de português, mesmo que fosse bastante distante da língua atual.

Há vários livros e investigações sobre estudos afro-americanos que falam de Jan Rodrigues. Existe até uma rua Juan Rodriguez Way, na parte noroeste de Manhattan, onde vive uma grande comunidade dominicana.

“Encontros e Encontrões de Portugal no Mundo” conta outras histórias curiosas sobre portugueses no estrangeiro. Uma delas é bem mais recente e é sobre Armando Sequeira, o cozinheiro português de Saddam Hussein, o ex-líder do Iraque.

Leonídio Paulo Ferreira conta que era “muito admirado porque mesmo durante a guerra com o Irão nunca se foi embora”. 

Armando Sequeira, chef discreto (até porque teve de assinar um contrato de confidencialidade), nunca falou muito sobre o assunto. No entanto, disse uma vez numa reportagem da TVI sobre Saddam Hussein. “Muitas vezes ele não comia nada, pois quem luta para não morrer está sempre a mudar de sítio.”

Armando Sequeira foi cozinheiro de Saddam Hussein.

E acrescentou: “Saddam gostava de sopas de galinha, de fígado e carne de carneiro e de cozido dos Açores”. Ora, Armando Sequeira sabe fazer bem este prato português porque é natural da ilha de São Jorge.

O líder iraquiano que foi executado em 2006, três anos depois da invasão americana do país, teve vários cozinheiros pessoais ao longo dos tempos, como o jornalista português conta no seu livro.

“Também se conta que os americanos descobriram o refúgio de Saddam por causa da sua fixação em masgouf, um peixe do rio Tigre, que era produzido num tanque em Tikrit apenas para servir o presidente derrubado e que acabou por ser descoberto pelos espiões. Sobre o peixe, o chef açoriano nada disse nas reportagens que pude ver, mas há um momento em que comenta que Saddam ‘comia tudo o que se lhe punha à frente’.”

“A filha do PIDE apaixonada pela revolução cubana”, “A amante do príncipe muçulmano da Índia” ou “A portuguesa que imaginou o Museu do Prado” são outros dos capítulos e histórias que são contadas em “Encontros e Encontrões de Portugal no Mundo”. No total, o livro tem 206 páginas.

O livro já está à venda.