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A história do primeiro médico a dizer que lavar as mãos era bom para a saúde

“História Curiosa da Medicina” é o novo livro escrito por Pedro Gargantilha que relata vários factos engraçados.
Ignaz Semmelweis morreu internado num manicómio.

A evolução da ciência permitiu avanços incríveis em todos os setores da sociedade. À medida que os anos vão passando, mitos antigos — ou crenças que se julgavam certas — vão desaparecendo porque se descobrem novos factos sobre os temas.

O mesmo acontece no caso específico da medicina, que tem evoluído imenso e, por isso mesmo, chega até a ser engraçado perceber o que os humanos pensavam sobre determinado assunto há centenas ou milhares de anos.

Um novo livro, “História Curiosa da Medicina”, que foi publicado esta terça-feira, 15 de outubro, vem explicar como nasceram alguns métodos e medicamentos — ou como se fazia em séculos passados. Foi escrito pelo médico espanhol Pedro Gargantilha e é uma edição da Esfera dos Livros com 280 páginas. Está à venda por 17,10€.

O livro está dividido em grandes capítulos e, dentro de cada um, em subtemas. Uma passagem explica que os Beatles — sim, a banda de “Let It Be” ou “All You Need Is Love” — estiveram na origem das TAC, as tomografias axiais computadorizadas. Mas tudo também está relacionado com um matemático do século XIX.

“Nos finais do século XIX, nasceu o matemático austríaco Johann Radon, que nos primeiros anos do século seguinte desenvolveu as fórmulas matemáticas que permitiam reconstruir uma imagem em três dimensões a partir de imagens bidimensionais. Para aplicar esta descoberta, era necessário um grande investimento financeiro, e foi isso que fez a editora musical EMI, que ganhava imenso dinheiro com a venda de milhões de discos dos Beatles”, escreveu Pedro Gargantilha.

“Parte desse dinheiro foi investido num laboratório de investigação dirigido pelo engenheiro britânico G.N. Hounsfield, que foi capaz de desenvolver a primeira TAC da história (1967). Atualmente, em sua honra, utiliza-se as unidades Hounsfield para definir as diferentes densidades dos tecidos estudados com uma TAC.”

Outra curiosidade tem a ver com a lavagem das mãos, que Gargantilha não tem dúvidas que foi “a invenção que mais vidas salvou ao longo da história da medicina”. Apesar de já haver indícios que alguns especialistas adotavam a prática desde muito cedo, foi preciso esperar até ao século XIX para se tornar mais comum.

O autor do livro conta a história do ginecologista húngaro Ignaz Philipp Semmelweis, que trabalhava no hospital central de Viena, na Áustria, quando a cidade era a capital do império. Em meados do século XIX, havia uma febre puerperal — uma infeção que afetava as mulheres grávidas em trabalho de parto — que tinha uma taxa de mortalidade que podia variar entre os 11 e os 30 por cento.

“O hospital onde Semmelweis trabalhava contava com duas secções de maternidade; uma era composta por médicos e estudantes, e a outra por parteiras religiosas. Pois bem: a taxa de mortalidade materna na primeira (20 por cento) era dez vezes superior à da segunda (dois por cento). Este dado era conhecido pela população, e as mulheres até rezavam para não acabarem nas mãos dos médicos.”

“Semmelweis estudou com imenso detalhe todos os parâmetros que diferenciavam as duas secções e, no final, descobriu que a principal diferença era que os médicos e os estudantes realizavam os partos após terem terminado as autópsias, uma atividade clínica que as monjas não praticavam. Dado que naquela época ainda não se conheciam os microrganismos, era habitual realizar os partos sem antes tomar alguma medida de desinfeção das mãos.”

O doutor Semmelweis presumiu que se a higiene dos médicos melhorasse após as autópsias, a taxa de mortalidade iria baixar no hospital. Os colegas não acreditaram que a sujidade das mãos pudesse estar relacionada com as mortes daquelas mães, acharam a ideia absurda — e fizeram até um boicote à medida decidida pelo colega.

Furiosa com as suas ideias revolucionárias, a direção do hospital central de Viena decidiu não renovar o contrato de trabalho com Semmelweis, que abandonou a carreira e ficou completamente esquecido.

“Em 1856, encurralado e esquecido, publicou uma carta aberta a todos os professores de Ginecologia da época. O título era um substantivo absolutamente desagradável: ‘Assassinos!’”

Depois disso, foi internado num hospital psiquiátrico, onde ficou ferido na mão num dos seus múltiplos ataques de raiva. A ferida infetou e Semmelweis morreu pouco tempo depois. Só mais tarde é que a comunidade médica aceitou que este ginecologista húngaro tinha, obviamente, toda a razão.

Por falar em hospitais psiquiátricos, Pedro Gargantilha conta no seu livro que os primeiros a existir no mundo foram construídos pelos árabes. O primeiro manicómio foi inaugurado em Damasco, na atual Síria, no ano de 707.

Em 765, foi aberto um em Badgade, no Iraque. Só no século XV é que estes estabelecimentos chegaram à Europa, quando foram inaugurados os hospitais em Valência (1409), Saragoça (1425) e Valladolid (1436).

Uma das doenças que são abordadas em “História Curiosa da Medicina” é a sífilis, uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns em todo o mundo — e que o autor descreve como “a SIDA do Renascimento”.

Sempre houve uma grande discussão sobre qual seria a origem da doença, que sempre esteve bastante associada à América, mas está provado que já existia antes na Europa, mesmo que não se consiga precisar o país em que tudo começou, ou qual foi o primeiro foco.

De qualquer forma, Pedro Gargantilha conta um episódio bastante curioso, que aconteceu em 1494, quando as tropas francesas atacaram o reino independente de Nápoles, na atual Itália. 

“Os defensores enviaram prostitutas infetadas para que ‘confraternizassem’ com o inimigo. O resultado foi que quando as tropas de Carlos VIII regressaram a França deixaram rasto de enfermos — é daí que provém o nome ‘doença dos franceses’. Os gauleses preferiam o nome ‘mal de Nápoles’. O que acabou por predominar nos textos latinos foi ‘morbus gallicus’.”