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O desenho que fiz para Saramago ainda está exposto no museu de Lanzarote

O Prémio Nobel da Literatura foi entregue há 20 anos. Uma repórter da NiT conheceu o escritor pouco depois.

Em maio de 2013 recebi um email do meu pai: “Lembras-te daquele desenho que fizeste quando o José Saramago foi à escola? [Não lembrava] Está no museu dele, em Lanzarote.”

Em anexo vinha uma fotografia com um retrato que tinha feito com 12 anos quando, pouco tempo depois de ir a Estocolmo receber o Nobel da Literatura — cerimónia que aconteceu a 10 de dezembro de 1998, precisamente há 20 anos —, o escritor visitou Bruxelas, onde morávamos.

Nessa altura Portugal não estava na moda, a seleção nacional de futebol não era campeã da Europa, não havia um Salvador Sobral, Lisboa não fazia parte dos melhores destinos turísticos e o fado era coisa de velhos. Eu ouvia pessoas a descrever o meu País como “uma data de montanhas e mulheres com bigode”. Depois José Saramago venceu o prémio mais importante da literatura, um feito inédito para nós, e de repente toda a gente nos dava palmadinhas nas costas (literalmente) porque, coitadinhos dos portugueses, tinham finalmente conseguido ganhar alguma coisa.

A minha experiência de emigrante foi bastante aldrabada. Não frequentava uma escola belga, os meus amigos eram todos portugueses, as aulas praticamente todas em português e ninguém falava francês em casa. Vivíamos numa bolha e tínhamos a sorte de andar numa escola que nos punha em contacto com suecos, italianos, alemães e as suas respetivas culturas (não que nessa altura déssemos valor).

Foi por isso que, assim que o Nobel foi atribuído, rapidamente se organizou uma visita de Saramago à Escola Europeia. Não sei dizer se foi fácil, não sei precisar datas e as memórias de há 20 anos são pouco nítidas.

Nenhum de nós, naquela idade, tinha alguma vez ouvido falar dele ou lido alguma coisa. O “Memorial do Convento” era descrito como um livro “demasiado difícil”. Felizmente, a nossa professora de português, Maria Manuel Gandra, teve o discernimento de nos apresentar um livro que nos conseguisse cativar e não o “Memorial do Convento”, do qual toda a gente falava mas que poucos conseguiam acabar. “A Jangada de Pedra” continua a ser, até hoje, a minha obra favorita de José Saramago. A ideia era genial (o que aconteceria se a Península Ibérica se descolasse do resto da Europa?), a escrita fluída e simples.

Foi essa professora — que me incentivou nesta ideia por vezes demasiado romântica de escrever para os outros — que organizou uma leitura com alunos de várias línguas. Escolheu um grupo, entre portugueses e outras nacionalidades, e juntou-nos horas, dias, semanas para ensaiarmos um texto de José Saramago (“As Palavras”, publicado inicialmente no jornal “A Capital” e depois em livro) que lhe apresentaríamos.