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Christina Dalcher: “Gostava que o livro ‘Vox’ fizesse as pessoas mudarem o mundo”

A autora americana falou com a NiT sobre o seu novo livro, que acabou de chegar a Portugal.
Dalcher vai publicar outro livro em 2020.

“E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?”. Esta é a premissa do primeiro livro publicado por Christina Dalcher, intitulado “Vox”, e que mereceu um “teste” realizado pela NiT, cuja missão seria cumprir esse número de palavras em 24 horas. Não correu bem.

A autora americana esteve em Portugal esta semana para apresentar a obra que foi editada em Portugal pela TopSeller e chegou às livrarias no dia 4 de fevereiro. Está à venda por 17,69€.

Em entrevista à NiT, a doutorada em Linguística Teórica não esconde que a mensagem de “Vox” é versátil: tem reflexões políticas, de género e, sobretudo, sobre o poder da linguagem. Uma “distopia” em forma de “thriller” que, segundo a autora, tem sido bem recebida pelos críticos. 

De opiniões firmes, Christina Dalcher não se inibe de falar sobre o movimento #MeToo — fundamental, a seu ver — ou sobre as políticas de Donald Trump – que esclarece não terem servido de “inspiração” para o seu trabalho.

Apesar de esta ser a sua primeira obra publicada, uma sequela de “Vox” ou a intenção de o tornar num filme são projetos que estão em cima da mesa. Em 2020, vai publicar outro livro, desta vez sobre testes de inteligência. 

Como surgiu a ideia para este livro?
Criei um mundo normal com um detalhe bastante importante: um movimento fundamentalista religioso consegue chegar ao poder dos Estados Unidos da América. De repente, conseguem comprar a presidência dando votos ao suposto presidente mais fraco — um demagogo. E o que decidem eles? Que a sociedade seria melhor se voltássemos aos antepassados — com uma cultura doméstica, onde mulheres e homens estão separados, com base em tradições bíblicas.

E conseguiram. 
Conseguiram mas tiveram de fazer uma mudança. Todas as mulheres, inclusive as crianças, tinham que usar umas pulseiras que captam as suas palavras diariamente. E todas as mulheres podiam apenas dizer 100 palavras por dia. Se ultrapassassem este montante a pulseira dar-lhes-ia um choque elétrico.

Tem sido um livro elogiado pela crítica? 
Há um ditado que diz “podes agradar a algumas pessoas todas as vezes ou podes agradar a todas as pessoas algumas vezes, o que não podes é agradar a todas as pessoas sempre”. No geral, as reações têm sido boas. E surpreendentes. 

Surpreendentes como?
Acho que este livro é uma combinação entre um thriller e uma história de ficção. E existem vários elementos políticos e feministas, o que o torna bastante atual. Espero que seja uma obra que as pessoas possam ler daqui a 20 anos, porque a mensagem geral é intemporal. E o que mais me surpreendeu é que há muitos alunos do secundário a ler este livro. 

Voltando ao tema de “Vox”: se tivesse apenas 100 palavras para dizer hoje — e fosse ouvida pelo mundo inteiro —, o que diria?
Votem (e agora tenho 99 para gastar ainda).

Essa é a principal mensagem do livro?
Há muitas. O meu livro não é apenas sobre votar. É sobre prestar atenção ao que se está a passar, é sobre perceber que mesmo que pensemos que o mundo à nossa volta vá continuar da mesma maneira e que vamos acordar no próximo dia e tudo será exatamente da mesma forma, a história ensina-nos que não é bem assim. Olhem para a revolução comunista. Olhem para a revolução comunista na Hungria. Olhem para Roménia ou para o que está a acontecer no Irão. Ou como começa a Primeira Guerra. As torres gémeas, em Nova Iorque. Gostaria que uma das mensagens, que chegasse ao público, é para sermos mais cuidadosos e ficarmos atentos, para conseguirmos manter o mundo em que vivemos e sermos felizes.

Autora americana quer escrever uma segunda parte de “Vox”.