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De Bryan Adams a Hugh Grant, as melhores histórias do mítico Elefante Branco

O livro "O Porteiro do Elefante Branco" junta os episódios épicos do clube lisboeta contados por Manuel Ribeiro.
O espaço original fechou em 2016.

Durante muitos anos, o Elefante Branco foi um dos maiores ícones da noite lisboeta — portuguesa, aliás. O bar e restaurante da Rua Luciano Cordeiro era visitado por altas figuras de várias áreas da sociedade e estava nos guias turísticos da capital como um ponto obrigatório de passagem.

Isto se os turistas conseguissem entrar, claro. Quem decidia se abria a porta ou não era Manuel Ribeiro, simplesmente conhecido como Ribeiro, porteiro que começou a trabalhar no Elefante Branco em 1986, com a segunda gerência do espaço — e por lá ficou durante mais de 20 anos.

Era um espaço elitista, exclusivo, glamouroso e fascinante para políticos, desportistas, artistas ou empresários. A discrição era fulcral, por isso é que atraía tantas figuras públicas, que simplesmente queriam beber um copo em paz ou fechar algum negócio.

A casa sempre esteve associada à prostituição — não porque tinha strip-tease ou salas privadas para clientes, isso são mitos — mas porque era frequentado por várias prostitutas que conseguiam os seus clientes no interior, apesar de não praticarem qualquer ato sexual dentro do espaço nem serem contratadas pelo Trombinhas.

Hoje, o Elefante Branco já não é o que era. Depois de vários anos em decadência, fechou em 2016. Em fevereiro deste ano, uma nova gerência recuperou a marca e abriu outro Elefante Branco, noutro local, que tenta manter o ambiente (e, claro, o famoso bife que é servido até às quatro da manhã). Leia a reportagem da NiT na reabertura do espaço.

Manuel Ribeiro dedicou a sua vida ao Elefante Branco. Nunca casou nem teve filhos, viveu sempre com a mãe enquanto ela estava viva. Hoje, aos 73 anos, tem uma saúde mais debilitada e está reformado.

Foi a partir das suas inúmeras histórias e memórias dos tempos no Elefante Branco que a ex-jornalista Elsa Bicho escreveu o livro “O Porteiro do Elefante Branco”, editado pela Prime Books, com 150 páginas. Está à venda por 13,90€.

Em conversa com a NiT, Elsa Bicho explica que nunca na vida entrou no Elefante Branco, mas que sempre ouviu as histórias deste mítico espaço de Lisboa. O convite para escrever o livro partiu da própria editora, que procurava alguém que pudesse traduzir em páginas todas as histórias de Manuel Ribeiro.

A autora do livro passou seis ou sete tardes inteiras, entre cigarros e cafés, durante mais de um mês, a conversar com o antigo porteiro do Elefante Branco — natural de Olhão, no Algarve, e que veio para Lisboa com apenas dez anos. “Foi curto mas intenso”, resume a experiência à NiT. “Ele estava reticente, por isso era preciso avançar rapidamente, antes que ele desistisse da ideia de contar estas histórias.”

Elsa Bicho explica que o livro também ajuda a desmistificar a aura de secretismo que sempre existiu à volta do Elefante Branco — porque, lá está, era muito difícil entrar. “Não tinha nenhum varão nem salas privadas, era simplesmente um restaurante e bar requintado com uma pista de dança que recebia homens de posses.”

Tem 150 páginas.

A autora diz que os empregados do Elefante Branco — numa era de prosperidade económica para Portugal — recebiam enormes gorjetas todos os dias. “A senhora que limpava as casas de banho — porque havia um imenso cuidado com a higiene no espaço — fazia o equivalente a centenas de euros por dia em gorjetas.”

Também Manuel Ribeiro conseguia viver bem como porteiro. Recebia gorjetas de forma frequente e chegou a ter três Porsches. “Aliás, dizia-se que o melhor parque automóvel de Lisboa estava à frente do Elefante Branco, porque havia sempre lá carros topo de gama.”

Entre as histórias que estão neste livro, muitas delas escritas na primeira pessoa, encontra-se uma com referências a Bryan Adams, músico canadiano que visita frequentemente o nosso País.

“No primeiro concerto que dá em Alvalade, em 1994, vejo aparecer um tipo do lado do Conde Redondo, casaco castanho, colarinhos levantados, um aspeto de gajo duvidoso. Chegou à porta, a falar português e tudo, disse-lhe quanto era, dei-lhe uma senha, a casa estava cheia e ele entrou… Passado um bocadinho começo a ouvir um bruá lá dentro. Gritos, palmas, um escarcel! Eram elas todas malucas: Bryan Adams, o Bryan Adams!”

E acrescentou: “E sabe? Voltou lá, discretamente, depois do concerto. Ia sempre sozinho. Nunca criou qualquer problema ou fez exigências. Eu conhecia-o, mas era a cantar. Agora ali, parecia disfarçado. Não o reconheci, se não, não lhe cobrava entrada, pois!”

Outra estrela internacional que passou pelo Elefante Branco e de quem Manuel Ribeiro se recorda é o ator Hugh Grant. 

“Outra vez apareceu-me um estrangeiro, muito cedo, eram ainda nove horas da noite. Sozinho. Não gostei do aspeto do homem. Falei um pouco com ele, para lhe tirar a pinta, mas acabei por lhe dar uma senha e ele lá entrou. Importa dizer que a parte mais escura do Elefante ficava por baixo da cabine do disc jockey, mesas que estavam encostadas ali ao sítio onde se punha a música. 

Esse indivíduo foi lá mais umas três vezes, até levava o dinheiro logo na mão. Até que o DJ residente tinha entrado de férias e estava lá um brasileiro no seu lugar. E o bendito homem continuava a sentar-se sempre debaixo do DJ. Mandava vir uma garrafa de Moet & Chandon e ali ficava.

Ribeiro à porta do espaço à frente de um dos seus Porsches.

Bem, certa vez tive de ir à casa de banho e, como a do escritório estava ocupada, fui à da cozinha, por trás da cabine do DJ. Quando saí, diz-me o brasileiro que punha a música: Ó Ribeiro, o que é que este gajo vem todos os dias para aqui fazer? Sei lá, o mesmo que os outros. Mas você não sabe quem é? Eu não, sei lá eu quem é o gajo. Tu sabes? Claro, é o Hugh Grant!”

Há um capítulo deste livro só dedicado a futebolistas, já que eram clientes assíduos do Elefante Branco. Ao longo dos anos, muitos deles foram barrados e impedidos de entrar por Manuel Ribeiro porque calçavam sapatilhas — o que não era permitido dentro do espaço.

O antigo porteiro lembra-se de, por exemplo, barrar Romário e muitos dos seus colegas quando o brasileiro jogava pela equipa holandesa do PSV. “Lá foram embora, voltaram aos hotéis, acho que, inclusive, andaram para lá a pedir sapatos a empregados e regressaram. E só entraram bem calçados.”

Noutra ocasião, durante o Euro 2004 — que foi um período de glória para o Elefante Branco —, Ribeiro lembra-se de que quase toda a seleção da República Checa apareceu à porta do espaço às quatro e meia da manhã. Eram jogadores como Karel Poborsky, Milan Baros, Pavel Nedved e Petr Cech.

“Queriam meninas. Não podiam entrar, já estava fechado. Só lá estavam ainda alguns clientes habituais, que ficavam a conversar depois da porta fechar. Eh pá, mas também não queríamos deixar de atender tão ilustres visitantes. Telefonei a uma ou duas, essas ligaram a outras, e lá foram ter com eles não sei onde.”

E acrescenta: “A propósito, e o Rosicky que vinha na mala do carro? Saíam dos estágios às três da manhã e como o Rosicky, que estava no Borussia Dortmund e depois foi para o Arsenal, era o mais pequenino, punham-no na mala do carro, porque o Koller, aquele careca muito grande, para aí com uns dois metros, ocupava todo o banco da frente. Tomaram-lhes o gosto, nem queiram saber, depois éramos nós que lhes arranjávamos companhia para saírem!”

Também há episódios relatados que envolvem a Seleção Nacional, claro. “E uma vez a Seleção? Tinham de estar todos às 23 horas no hotel, sim, está bem está. Eles queriam era estar na conversa com elas. Outras vezes apareceram lá jogadores da Seleção, já depois das quatro da manhã, sim. Nós a querermos fechar a porta e ainda o Petit, o Deco e outros andavam à bulha para ver quem pagava o bife e os copos. No fim, quem pagava era sempre o Deco!”