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Autor de “O Diário de um Banana”: “A minha intenção era que fosse para adultos”

A NiT entrevistou Jeff Kinney, escritor que vendeu 200 milhões de livros e que é o quinto escritor mais bem-sucedido do mundo.
Jeff Kinney.

Jeff Kinney encontra-se numa digressão europeia do décimo quarto livro, “O Diário de um Banana 14: DE-MO-LI-ÇÃO”. O autor é o quinto bestseller mais bem-sucedido do mundo, partilhando o pódio com escritores de renome como Dan Brown, Stephen King, J.K. Rowling, e James Patterson.

Com 200 milhões de livros vendidos em todo o mundo, a revista “Forbes” colocou-o em quinto nessa lista. Segundo a publicação, apenas entre junho de 2017 e junho de 2018, Jeff Kinney amealhou 18,5 milhões de dólares (o equivalente a 16,8 milhões de euros) por causa da venda dos livros. No nosso País, já vendeu 1,3 milhões de cópias da sua coleção “O Diário de um Banana”.

“O Diário de um Banana 14: DE-MO-LI-ÇÃO”.

É o final de tarde de uma segunda-feira chuvosa e temos encontro marcado com Jeff Kinney num hotel em Lisboa. A NiT entrevistou o autor que, de forma pausada, ponderada, e quase estranhamente humilde, nos contou a sua admiração por Carl Barks, autor das BD do Pato Donald e do Tio Patinhas, como é um dia normal na sua vida — e o sítio bizarro onde escreve — e que continua a criar para um tipo de leitor imaginário, e adulto.

É a sua primeira vez em Portugal?
Não, na verdade é a minha terceira vez aqui. Já tinha cá estado duas vezes, mas adoro continuar a voltar.

Vem sempre em trabalho ou já veio em férias?
Sempre em trabalho. Venho sempre promover os livros. É muito entusiasmante, pude conhecer vários miúdos ao longo destes anos. Acho que a primeira vez que cá vim foi há quatro anos. Só conheço Lisboa, mas gosto muito.

Sendo um autor tão famoso, é reconhecido na rua?
Nunca [risos]. Muito raramente. É estranho porque eu praticamente nunca sou reconhecido, mas por alguma razão quando vou fazer ski em New Hampshire [EUA], não sei porquê mas os miúdos reconhecem-me nas montanhas. É muito estranho. Mesmo que esteja a usar um capacete, reconhecem-me lá. Mas é o único sítio no mundo [risos].

Como é um dia normal na vida do Jeff?
Um dia normal… Acho que não há propriamente dias normais, eu passo por fases. Mas diria, provavelmente, que um dia normal quando regressar aos EUA será: levar o meu carro até ao cemitério e escrever no cemitério, dentro do carro, durante algumas horas e depois ir para o estúdio, e trabalhar com os meus colegas. Depois, ir para casa e jantar com a minha família, e no fim, ajudar o meu filho com os trabalhos de casa. Esse é um dia normal.

Quanto do seu crescimento podemos encontrar na personagem do Greg e na história dos livros?
Acho que muito de mim está nesta personagem. É uma personagem complicada. Eu compreendo esta personagem porque ele é uma combinação dos meus piores pontos em criança, de certa forma. Consigo-me identificar com ele, os problemas dele são os mesmos que os meus.

Qual é que acha que é a razão principal para a coleção ter tanto sucesso?
Acho que tenho tido sorte e acho que o humor nos livros é o que realmente entusiasma os miúdos. Eu trabalho muito para tentar escrever humor de qualidade e os livros são densos, não é só uma piada para o livro todo. Tento que tenham a qualidade mais elevada que consigo e também acho que, quando uma criança abre um livro meu, os livros não parecem trabalho, parecem diversão, e é assim que a leitura deve ser para os miúdos.

Criou o tipo de letra, que aparenta ser escrita à mão, que usa nos livros, ou é um tipo de letra existente?
Fui eu que a criei. É baseada na minha caligrafia natural, mas é uma fonte que criei, sim.

Ao comparar o primeiro livro com este décimo quarto notei que os cartoons são muito mais detalhados. Como foi esta evolução?
Acho que por um lado é porque evoluí como cartoonista, mas também é porque as cenas se tornaram mais densas, a escala das histórias tornou-se maior, mais cinematográficas, e isso requer mais desenhos.

Como se sente ao partilhar uma espécie de pódio [dos autores mais bem-sucedidos] com os escritores Dan Brown, Stephen King, J.K. Rowling, e James Patterson?
Tem sido ótimo. Conheci um deles. Tem sido bom nadar nessas águas e ter estas experiências realmente únicas e poder conhecer pessoas famosas e isso tudo. Estive a falar num evento com o Dan Brown recentemente [nos EUA], e foi muito bom.

Quando escreveu o primeiro livro, para que idade é que tinha pensado que queria que fosse?
A minha intenção era que fosse para adultos, na verdade. Escrevi para adultos, estava a escrever para a secção de humor da editora. Depois, o meu editor disse que eu escrevi um livro que funcionava para miúdos e isso foi uma enorme surpresa para mim, porque não era essa a minha intenção.

É o quinto escritor mais bem-sucedido.

Tem dois filhos, certo? De que idades?
Sim, tenho dois adolescentes, de 14 e 17 anos.

As experiências deles também estão nos livros, ou não tanto?
Às vezes, mas muito pouco. Só me consigo lembrar de uma mão cheia de piadas que fui buscar a histórias deles, gostava que fossem mais, tornaria a minha vida mais fácil [risos].

E costuma testar os livros com eles antes? Para saber se as piadas funcionam, por exemplo.
Normalmente leio os livros aos meus filhos logo após enviar o manuscrito para a gráfica, por isso, antes de serem impressos, mas depois de os ter escrito. Não testo as ideias neles.

Que tipos de livros é que eles gostam mais?
Eles não leem muito, isto acontece muito atualmente, sobretudo com os rapazes. De vez em quando eles leem uma biografia de desporto, mas não muito mais do que isso.

Os miúdos cada vez leem menos, mas mesmo assim há muitas crianças que leem os seus livros. Está orgulhoso pelo seu papel na literacia infantil?
Sim, estou. Como disse, não era o que pretendia fazer no início, mas gosto muito de fazer parte disso. Espero que alguns miúdos estejam no caminho de ser tornarem leitores ávidos para a vida, porque acho que há algo de satisfatório em completar uma história e ler a última página, aquela sensação de que se alcançou algo.

E o que é o Jeff está a ler agora?
Um livro chamado “Range: How Generalists Triumph in a Specialized World” [de David Epstein]. Eu gosto de livros que fazem examinar novas maneiras de pensar.

Gosta mais de BD ou romances?
Nenhum. Não gosto assim tanto de ficção, nem de BD. Mas gosto de livros que nos fazem pensar de forma diferente.

Como cartoonista, tinha alguém que admirava, sobretudo quando começou?
Sim, gostava muito do Carl Barks, que fez as BD do Pato Donald e do Tio Patinhas, entre os anos 1940 e 1960. Acho que ele era o melhor.

Referiu que ao início pensou no “Diário de um Banana” para adultos. Depois de ter ficado para crianças, alterou um pouco a escrita?
Acho que não mudei realmente. Continuo a pensar nesse adulto imaginário e é assim que centro a minha escrita.

E acha que tem leitores adultos?
Não tenho muitos, não. Talvez na China, onde há muitas pessoas que usam os meus livros para aprender inglês. Lá, acho que sou capaz de ter mais leitores adultos.

Com tantas conquistas alcançadas, qual é o seu próximo grande objetivo?
O que eu mais gosto de fazer é tentar melhorar o meu talento. Eu vivo numa cidade [no estado de Massachusetts, EUA] um pouco deprimente, que não tem muita riqueza, o centro é um caos, por isso gosto muito de tentar melhorar as potencialidades da cidade.

Como se chama a cidade?
Plainville [cidade simples, numa tradução livre], o que soa muito aborrecido, e é um pouco [risos].

Com tantos livros vendidos, e traduzidos em tantos idiomas, sente-se uma pessoa normal?
Sim, sinto. A minha vida é muito comum, e às vezes posso fazer coisas como estas promoções, o que é ótimo, mas na maior parte do tempo a minha vida é igual à de qualquer pessoa.

Quando viu a tradução portuguesa do título dos livros, achou que a palavra banana era um erro?
[risos] Não, na verdade eu sei a origem disso. Veio do Brasil. Havia um jovem brasileiro que trabalhava num escritório e que descobriu o meu trabalho online. E ele queria comprar para a sua empresa, foi ele que inventou um “O Diário de um Banana” [Jeff diz em português]. E agora chamam-lhe “the banana boy” [o rapaz banana] lá. E quando Portugal decidiu publicá-lo, achou que o nome já estava estabelecido em português, e foi assim que ficou. É um bom título.

O livro “O Diário de um Banana 14: DE-MO-LI-ÇÃO” custa 15,29€ e já está à venda.