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As bitcoins favoritas de Marcelo e outras fake news em Portugal

"Viral: A Epidemia de Fake News e a Guerra da Desinformação" é o novo livro de Fernando Esteves e Gustavo Sampaio, do site "Polígrafo".
Marcelo não gosta de bitcoins, ok?

Numa sociedade em que a realidade e a ficção se confundem cada vez mais, é normal que as pessoas sintam também cada vez mais dificuldade em distinguir a verdade da mentira. Apesar da difusão de informação falsa ou enganadora não ser um fenómeno novo, as novas plataformas digitais agravaram de forma significativa este problema.

Numa tentativa de contribuir para a neutralização de fake news, Fernando Esteves e Gustavo Sampaio, diretor e diretor-adjunto do “Polígrafo”, o primeiro jornal de fact-checking de Portugal, lançaram no dia 18 de outubro o livro “Viral: A Epidemia de Fake News e a Guerra da Desinformação”. A publicação com 213 páginas está à venda por 16,60€ e é uma das Edições Desassosego da editora Saída de Emergência.

O livro está dividido em oito capítulos com os respetivos subtemas. Para começar, os autores contam a história daquela que pode muito bem ter sido uma das primeiras fake news da história. Retrocedendo até à época do Império Romano, relatam o caso de uma campanha de propaganda e desinformação movida por Caio Octávio contra Marco António, em luta pelo poder após o assassinato de Júlio César.

Para manchar a reputação do concorrente ao trono, Caio Octávio fez circular moedas com frases curtas e incisivas sobre o perfil de Marco António, chamando-o de bêbedo e mulherengo e alegando que ele não tinha capacidade de liderar a nação, porque fora corrompido por Cleópatra.

Segundo o livro, “Caio Octávio provou ser o mais hábil propagandista e assim se abriu o caminho para a sua reinvenção como Augusto, o primeiro imperador de Roma. As notícias falsas tinham permitido a Caio Octávio subverter o sistema republicano de uma vez por todas”.

Dezenas de séculos mais tarde, novas notícias falsas são partilhadas todos os dias nas redes sociais em Portugal e nos outros países. Os temas vão da cultura à política, da economia ao desporto, da saúde ao entretenimento. Não interessa a área.

O meme falso sobre Saramago.

No capítulo “As Mais Persistentes Fake News com Origem em Portugal”, Fernando Esteves e Gustavo Sampaio dão alguns exemplos recolhidos no “submundo da desinformação em língua portuguesa”, como o meme atribuído a José Saramago que diz: “Portugal não tem partidos de direita, de esquerda, de nada, tem um bando de salafrários que se reúnem pra roubar juntos”.

A frase tornou-se viral no nosso País e esteve presente em artigos de opinião, cartas de leitores em jornais de grande circulação e até em cartazes de manifestações. O problema é que nunca foi proferida por José Saramago, até porque o escritor tinha uma conhecida ligação com o Partido Comunista Português, claramente de esquerda. Para concluir o tema, os autores ressalvam ainda o facto de a grafia “pra”, em vez de “para”, levantar dúvidas sobre a veracidade da autoria.

Numa análise mais profunda, descobriram que a famosa frase foi escrita pelo colunista Diogo Mainardi sobre a situação no Brasil, quando o jornalista trabalhava para a revista “Veja” — uma publicação semanal brasileira. O responsável pela falsificação apenas trocou Brasil por Portugal e mudou a autoria da frase.

Os diretores do “Polígrafo” também destacaram uma informação que volta para o noticiário de tempos em tempos. O texto é sempre republicado como se fosse atual. “Trata-se de um suposto aviso da Polícia de Segurança Pública (PSP), utilizando o respetivo brasão de armas, dirigido aos condutores das zonas de Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. Descreve uma alegada prática recorrente de assalto por máfia de Leste (Grupos Romenos), consistindo no arremesso de ovos contra os pára-brisas de automóveis, para os obrigar a parar e depois consumar o roubo”. O aviso é tão fake news que a própria PSP denunciou o falso alerta na sua página no Facebook, em 2015. Ainda assim, este ano, a notícia sobre o golpe voltou a circular e teve milhares de partilhas.

O aviso da PSP.

Nem mesmo o Presidente da República está livre de ser alvo de fake news mais ou menos elaboradas. De acordo com uma página falsa da RTP na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa seria um grande apoiador de uma plataforma de investimento automático de bitcoins.

O artigo tem o seguinte título: “É assim que o Presidente ajuda os portugueses agora”. O texto afirma que Marcelo insiste que o projeto não só visa aumentar o PIB per capita de Portugal, como diminuir a dependência da segurança social e da ajuda governamental, e tirar a economia da estagnação.

Na palavra “plataforma” e em outros detalhes do texto, há hiperligações para páginas de comércio de bitcoin claramente fraudulentas. Soma-se a isto o facto de nenhuma declaração atribuída ao Presidente ter qualquer fundamento ou proximidade com a realidade.

Além de casos como estes, o livro “Viral: A Epidemia de Fake News e a Guerra da Desinformação” traz recomendações úteis para não se deixar enganar, bem como um índex de páginas portuguesas que propagam a desinformação.

A página falsa atribuída à RTP.