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A complexa vida de Philip Roth — o demolidor em paz

Deixou de escrever há seis anos, com mais de 30 obras publicadas, muitas dedicadas à vida dos judeus nos EUA e aos labirintos do sexo e da condição humana. 

Em janeiro deste ano Philip Roth respondeu às perguntas de um jornalista do New York Times, para aquela que seria das suas últimas entrevistas. Um dos mais influentes escritores contemporâneos, Roth não gostava de pairar no espaço mediático — raramente dava entrevistas—  talvez porque as suas palavras acabavam sempre por afrontar um certo conservadorismo norte-americano. Esta manhã, aos 85 anos, depois de 31 livros publicados ao longo de seis décadas, o escritor morreu vítima de insuficiência caradíaca congestiva.

Nos últimos tempos dizia que tinha sorte cada vez que acordava com o corpo quente e vivo. “Daqui a uns meses deixarei a velhice e entrarei na velhice profunda (…). É surpreendente chegar à cama ao fim da noite, sorrir e pensar: ‘vivi outro dia'”, afirmou num quase prenúncio do que aconteceria em breves meses. A sua morte assinala também o adeus a um nome tantas vezes incómodo para a sociedade americana, cujas contradições expôs como ninguém, sendo acusado de várias infâmias desde o início da sua carreira.

Resistiu. Aliás, essa é uma das suas principais características, a capacidade de resistir. Quando venceu o Prémio Pulitzer, o comité referiu-se à sua obra focando precisamente o seu lado mais combativo. “Desde o início da sua carreira, a ficção de PhiliP Roth tem frequentemente explorado a necessidade humana de demolir, de contestar, de resistir e de separar”.

“O Complexo de Portnoy”

Nascido a 19 de Março de 1933, em Newark, na Nova Jérsia, o Philip Roth cresceu num bairro judeu de classe média, que lhe serviu de substância, inspiração e tema para muitas das suas obras. “Melhor que qualquer outro autor, Roth escreveu sobre o significado de ser americano, judeu, escritor e homem”, refere o obituário do NYT. Acusado de anti-semitismo por diversas vezes, em “O Complexo de Portnoy” revelou uma capacidade literária ímpar, capaz das descrições sexuais mais cruas, através das confissões de Alexander Portnoy, um advogado nova-iorquino, no divã do seu psicanalista.

Portnoy era um dos muitos alteregos de Philip Roth. Lançado em 1969, o livro foi um sucesso comercial, tornando-se um bestseller nos EUA e valendo ao autor comparações a Henry Miller. Cynthia Ozick, romancista e ensaísta que dedicou várias obras ao tema da vida dos judeus norte-americano, elogiou-lhe a coragem. “Roth é o escritor mais corajoso dos Estados Unidos. Moralmente e politicamente corajoso. E Portnoy faz parte dessa coragem”, afirmou a autora ao “Newsday”. Apesar disso, Roth não se livrou da crítica: o livro acabaria por ser censurado na Austrália e muito criticado pelas altas instâncias judaicas norte-americanas.

O sexo foi um tema recorrente nos seus romances. Nathan Zuckerman não existe, é mais um alterego que surge em diferentes livros do autor norte-americano (“My Life as a Man”, de 1974, “The Gohst Writer”, de 1979, “Zuckerman Unbound”, de 1981, entre outros). Através dele — e de outros personagens que se tornaram referências do autor — é possível juntar as pontas da sua obra, dando a conhecer múltiplas facetas de um escritor que conquistou quase todos os prémios literários.

O livro “Pastoral Americana”, de 1997, valeu-lhe um Prémio Pulitzer de ficção, prémio a que juntou outros galardões: recebeu três vezes o o galardão Pen/Faulkner Award, foi agraciado como National Book Award, e recebeu ainda o Man Booker Prize. Tal como Lobo Antunes foi um eterno candidato ao Nobel da Literatura, mas nunca conseguiu o prémio da academia sueca.

Amplamente criticado graças ao “Complexo de Portnoy”, no qual explora e desconstrói mitos judaicos sobre o corpo, Roth emergiu dos ataques com uma frase simples: “se não sou americano não sou nada”. “Não escrevo judeu, escrevo norte-americano. Esse epíteto (judaico-americano) não tem sentido para mim”, disse ao New York Times. Mas numa entrevista ao Público, em 2011, o escritor, ateu, segundo filho de um casal de judeus, disse ter sido alvo de vários ataques.

“Foram ataques muito sérios e vis de pessoas que não sabiam como é que eu vivia, qual era a minha realidade, e muito menos o que era uma obra de ficção. Quem fazia os ataques não conseguia decidir-se se o que eu dizia era ou não baseado em experiências que tinha tido. Era a única preocupação que tinham.”

Contra a crítica

Philip Roth detestava os críticos literários. Defendia que os leitores deveriam “estar sozinhos” com os livros. Numa das suas últimas entrevistas, ao “The Guardian” justificou  que a leitura é um ato individual e que exige solidão. “Os leitores deviam poder lutar com os livros e descobrir o que são e o que não são.”

Nos últimos tempos, após a decisão de deixar de escrever, no computador de Philip Roth havia um post-it com a seguinte frase: “a luta para escrever acabou”. Com 80 anos — e 31 livros publicados desde 1959 — o escritor colocou um ponto final na carreira, seis anos antes de morrer. Não só largou a escrita como deixou de ler ficção. “Olho para aquela nota todas as manhãs. E dá-me uma força imensa.”