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Vasco Temudo, o português que entrou na última temporada de “A Guerra dos Tronos”

Recebeu uma chamada anónima e 24 horas depois estava a gravar a série na Irlanda do Norte.
Vasco Temudo tem 26 anos e é ator.

Era uma manhã como outra qualquer. Vasco Temudo tinha acabado de abrir a loja de roupa onde trabalhava em Lisboa, em abril de 2018, quando recebeu uma chamada. Nem sequer viu quem lhe estava a ligar, simplesmente atendeu. “Era uma mulher a falar inglês com um sotaque estranho, pensei que era alguma amiga a gozar comigo, até respondi em português. Só depois é que vi que era um número internacional. Tinham acabado de me convidar para entrar na última temporada de ‘A Guerra dos Tronos’.”

Esta é a história do português que participa na oitava e última temporada da série, que estreou a 15 de abril e em Portugal é transmitida na plataforma de streaming da HBO e no canal Syfy. Há novos episódios todas as segundas-feiras de madrugada, pelas duas horas da manhã.

“Fiquei incrédulo”, conta Vasco Temudo, de 26 anos, à NiT. Apesar de trabalhar numa loja de roupa, a história não é assim tão estranha e improvável. Vasco Temudo é ator. Natural de São João da Madeira, terminou o curso em 2012 e desde então tem trabalhado sobretudo na área do teatro — seja mais experimental, de marionetas ou musicais. Fez ainda curtas-metragens e participou nalguns projetos de televisão, apesar de não se ter conseguido sustentar apenas com esse ordenado.

Em 2015 queria fazer trabalhos lá fora e conseguiu enviar um email para uma das produtoras que trabalhavam em “A Guerra dos Tronos”. “Andava sempre à procura de sites, emails para que pudesse enviar o meu currículo, e lembro-me de enviar para fazer de figurante em ‘A Guerra dos Tronos’. Não tive qualquer resposta.” Mais tarde, foi contactado por essa mesma produtora, mas tinha um projeto de teatro na altura e não tinha disponibilidade. Desta vez é que foi.

“De repente tinha um email para responder com a minha disponibilidade o mais rapidamente possível.” Enviou o email. Dois minutos depois, nova chamada. “Consegues estar amanhã às cinco da manhã na Irlanda do Norte?” “Sim, claro!”

Foi de loucos. Vasco Temudo pediu para sair mais cedo da loja e tirou os dias seguintes. Tinha de apanhar um voo em Faro naquele dia em direção a Belfast, a capital da Irlanda do Norte. “Saí da loja a correr, fui para casa e tinha lá amigos. Malta, vou ali gravar n’’A Guerra dos Tronos’. ‘O quê? Estás a gozar?’ Quase não acreditavam em mim. Perguntei se tinham alguma malinha velha para eu levar comigo no avião porque não tinha a minha. De repente meti-me num Uber a caminho de Sete Rios, ia apanhar lá o autocarro para o Algarve.”

No caminho ligou ao pai a contar a novidade e aos amigos mais próximos que também eram fãs da série. “Ainda reservei um hostel em Belfast na viagem de autocarro, isto tudo com alguma taquicardia.”

Chegou a Belfast de madrugada, depois de toda aquela correria. Os estúdios Titanic ficam a 12 minutos do centro da cidade numa viagem de carro e Vasco Temudo tinha de lá estar às cinco da manhã. São dos maiores da Europa, têm nove mil metros quadrados. Eram dois dias de gravação, entre as cinco da manhã e as cinco da tarde. “Na primeira noite só dormi umas duas horas.”

Havia pausas durante o dia, mas estiveram sempre a gravar. Vasco Temudo estava num grupo de figurantes que não contracenou com quaisquer atores principais nem secundários. Foi contratado para fazer de um dos soldados Imaculados — aqueles que são liderados por Grey Worm e servem Daenerys Targaryen. O português diz que ficou espantado com a organização e grandiosidade de tudo aquilo.

“Eram centenas de assistentes, produtores, profissionais das várias áreas todos a trabalhar para o mesmo. O pessoal era todo muito fixe, estavam sempre a perguntar se estava tudo bem, havia um enorme profissionalismo. Foi fenomenal.”

As cenas que gravou foram todas em ecrã verde — aqueles que em pós-produção digital são manipulados para se projetarem cenários enormes e diferentes. “A informação era muito limitada, não vi qualquer guião. Diziam-nos para fazermos um certo tipo de reação para as câmaras, um sentimento, mas não sabíamos o que era sequer. Ou seja, estávamos só a reagir, cada um a imaginar uma coisa diferente.”

Como era um soldado Imaculado, no primeiro dia raparam-lhe o cabelo. “Até pagaram mais por isso. E pagam muito mais do que em Portugal por um trabalho destes [risos].” Todos os figurantes tinham enviado as respetivas medidas com antecedência e quando chegaram havia um figurino feito à medida para cada um. Neste caso eram roupas de soldado.

O passo seguinte era a sala de caracterização, que estava forrada a plástico. Borrifaram sangue falso e terra na cara dos Imaculados e quando estavam todos prontos — e como os estúdios são gigantes — os soldados foram de autocarro para o local das filmagens. Carregavam lanças pesadas e aprenderam coreografias na hora para usar nas cenas de batalha. “Aquilo foi mesmo guerra. Numa das cenas que gravámos eu estava na ponta de uma fila de soldados e outros figurantes estavam-me a dizer que a Daenerys ia passar ali mesmo, depois de deslizar do dragão.” Claro que a atriz Emilia Clarke não estava ali a gravar a cena.

Vasco Temudo talvez também tenha feito de white walker.

Vasco Temudo descreve o ambiente como alegre e totalmente profissional, mesmo que grande parte dos figurantes não tivesse formação de ator como ele — nem tanta experiência. “Há muita malta local, ali da Irlanda, ou amigos de amigos de amigos de pessoas da produção, que vão ali dar uma perninha. Quando eu explicava que tinha vindo de Portugal, eles diziam: uau, a sério, vieste de tão longe?” Eram centenas de figurantes que depois deverão ser multiplicados para parecer um exército de milhares e milhares de Imaculados.

O ator não sabia para que episódios estava a gravar e, mesmo assim, teve de assinar um grande acordo de confidencialidade onde prometeu não dizer nada do que se vai passar na história. No controlo de segurança dos estúdios, a primeira coisa que fazem é tapar as câmaras do telemóvel com fita-cola transparente que diz “não remover”. O português explica que todas as pessoas que viu, dos produtores aos realizadores, tinham essa mesma fita-cola no telemóvel. Afinal, não pode haver fugas de informação — sobretudo se forem fotos ou vídeos.

“O único momento mais tenso era quando fazíamos pausas e nos davam os telemóveis. Estavam sempre a olhar para ver se estávamos a tirar fotos. Não podíamos sequer fazer chamadas telefónicas, porque se podia ouvir alguma coisa. Só podíamos escrever mensagens de texto.”

Vasco Temudo não pode revelar os poucos segredos que descobriu durante as gravações, mas diz que sabe o número de batalhas que a temporada vai ter — portanto, fãs de “A Guerra dos Tronos”, não será apenas uma. “Num dia posso ter gravado para três batalhas diferentes, fazíamos planos e reações de diferentes ângulos.”

Enquanto fã, o maior segredo que quer descobrir nesta temporada é, afinal, quem vai ocupar o Trono de Ferro no final da história. “Tinha uma lista grande de possibilidades, mas pelo que vi lá reduzi um bocado essa shortlist. Estás lá e a tentar juntar coisas que vais vendo e ouvindo.” E é fácil guardar segredos destes? “Sobre a minha vida pessoal falo sem problemas, mas isto é profissional. Nem o meu pai nem a minha mãe sabem o que vi lá [risos]. Mas descobri coisas que vão estragar um pouco o meu imaginário da série enquanto fã.” Que é, como quem diz, spoilers.

Vasco Temudo vai estar agarrado à televisão sempre que estrear um novo episódio da série. “Vai mesmo ser procurar frame a frame [risos]. Há uma cena que gravei que estou numa terceira fila em que devo aparecer.” O ator português diz ainda à NiT que é possível que tenha sido gravado como outro tipo de figurante. “Talvez tenha acontecido que não houvesse white walkers suficientes e me tenham caracterizado para uma batalha. Talvez [risos].”