NiTfm live

Cinema

Ver “The Gentlemen” é como beber um copo de whisky e ouvir o seu álbum favorito

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o mais recente filme de Guy Ritchie.
O filme tem quase duas horas de duração.

“The Gentlemen: Senhores do Crime”, que estreou nos cinemas esta quinta-feira, 27 de fevereiro, centra-se na história do expatriado americano Mickey Pearson (Matthew McConaughey), um homem que construiu um império de marijuana altamente lucrativo em Londres e que agora está a tentar vendê-lo. 

Quando se torna pública a notícia de que ele está a tentar lucrar com os negócios para se poder reformar, desencadeiam-se conspirações, esquemas, subornos e chantagem, com o único objetivo de conquistar o seu domínio de luxo. Podia ser a descrição do que aconteceu no último congresso do CDS, mas é apenas a breve sinopse do novo filme de Guy Ritchie.

Se há realizador que sempre soube contar uma boa história é este senhor. Lembro-me de ver “Um Mal Nunca Vem Só” pela primeira vez e pensar que aquela era uma abordagem diferente, mas acima de tudo uma linguagem inovadora, para quem, como eu, estava mais habituado às narrativas do cinema americano (mesmo as de Tarantino). Mais tarde, com “Snatch, Porcos e Diamantes” confirmou-se que Guy Ritchie era um mestre a criar personagens caricaturais que, apesar disso, têm sempre um tom realista que nos faz acreditar e prender à tela.

Agora, o inglês responsável por grandes blockbusters de Hollywood como “Sherlock Holmes” ou “Aladdin” regressa às origens para dar a conhecer os gangsters mais sofisticados da cidade de Londres e uma forma de esconder droga que nem o traficante mais esperto do programa “Presos no Estrangeiro” se iria lembrar. Além de Matthew McConaughey no papel principal, o filme conta com outros nomes de peso, como Hugh Grant e Colin Farrell, mas também Charlie Hunnam, Henry Golding, Michelle Dockery, Jeremy Strong e Eddie Marsan nos papéis secundários.

Guy Ritchie quis contar uma história de bandidos, mas ao mesmo tempo fazer uma homenagem ao cinema e talvez ao seu próprio estilo de cinema. Desde logo porque nos convida a seguir o guião policial escrito pelo detetive privado Fletcher. Hugh Grant surge no papel deste investigador misterioso com estilo e postura firme que quase nos engana, embora no final se confirme que a sua personagem é na verdade um choninhas meio cobardolas. Apesar disso é uma das melhores prestações do ator, que se liberta aqui do estigma das personagens limpinhas das comédias românticas. 

É através da sua narração que vamos conhecendo o mundo de Mickey Pearson e, aos poucos, se vão desvendando os segredos do seu negócio bilionário mas pouco recomendável. Há sotaques serrados, carros de alta cilindrada, droga (imensa), malas com dinheiro e armas excêntricas. São todos os ingredientes perfeitos para oferecer aos fãs de Guy Ritchie um festim de ação da velha guarda. Mas não há só isso, existe também uma escolha estupenda da banda sonora, que encaixa de forma perfeita com cada uma das cenas.

Esta ligação é tão forte que há inclusivamente um vídeo viral que surge no filme com um tema de hip hop e que nos remete para os tempos em que os videoclips realizados por Guy Ritchie passavam na MTV, como o clássico  “The Bomb [These Sounds Fall Into My Mind]”, dos The Bucketheads. Sendo um bom filme de ação, ”The Gentlemen: Senhores do Crime” é também uma ótima comédia, quer nas situações das próprias personagens, como nos diálogos com detalhes deliciosos e carregados de sarcasmo. Assistir a “The Gentlemen: Senhores do Crime” é como sentar-se na sua cadeira favorita, servir um copo de whisky dos bons e pôr a tocar o seu álbum favorito que não ouve há anos. Tal como uma boa bebida que seja forte, o filme tem aquele kick inicial, mas no final vai sentir um gosto suave e a satisfação por ter feito a escolha acertada.