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Cinema

Trabalhou com os Beatles, Pink Floyd e o Papa (agora vive em Ferreira do Zêzere)

A NiT entrevistou o realizador inglês Barry Chattington, que goza a reforma em Portugal há 13 anos.
Começou a trabalhar na indústria antes dos 18 anos.

Aos 72 anos, Barry Chattington parece mais um simples turista inglês a passear na Baixa de Lisboa ao lado da família — mas nada na sua vida é banal. O realizador vive em Portugal há 13 anos e, apesar de ser um completo anónimo para a grande maioria das pessoas, trabalhou com alguns dos músicos, cineastas e celebridades mais famosas do mundo.

Praticamente não fala português mas diz que a culpa é nossa, dos locais, porque todos sabemos falar inglês e insistimos em usar a sua língua. Encontramo-nos com Chattington no Cinema São Jorge, um local apropriado para uma figura com esta carreira, embora o realizador tenha trabalhado sobretudo em televisão.

Entrou nesta indústria em Londres, no Reino Unido, antes dos 18 anos. Desde os 12 que queria ser realizador. Era vizinho de um apresentador de televisão, que lhe emprestara um livro que explicava como funcionava aquele meio. Ficou fascinado. O filme que mudou tudo, porém, foi “Tokyo Olympiad”, um documentário sobre os Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964 e que o apaixonou por este género do cinema.

Para chegar a realizador, o caminho certo era trabalhar como editor. Começou por editar anúncios publicitários para a televisão — tal como tantos outros realizadores na altura, da sua geração, entre os quais Ridley Scott, Tony Scott, Alan Parker ou Hugh Hudson. “Era uma altura em que havia sempre algum tipo de enredo no anúncio, não era só vender, vender, vender”, explica à NiT.

O resto, como se costuma dizer, é história. Trabalhou com os Pink Floyd, Paul McCartney, foi um dos primeiros a filmar no Vaticano (com Grace Kelly), fez documentários e programas de televisão com Papas, reis e presidentes de todo o mundo — tanto entrevistou Muammar Kadhafi, o ex-líder da Líbia, numa tenda no deserto do Saara; como a ex-primeira-ministra da Índia Indira Gandhi. O seu currículo é enorme e é uma daquelas pessoas que parece que têm sempre mais uma história para contar.

Viveu também em Roma, em Itália, e quando chegou a altura de se pré-reformar — fazendo só alguns trabalhos — escolheu Portugal como sítio para assentar. Vive perto de Ferreira do Zêzere, no distrito de Santarém, embora já tenha estado em Cascais. A culpa, como explica nesta entrevista, é de Sandra Cooke, que costumava ser Sandra Lean, quando era casada com David Lean.

Foi com ela que Barry Chattington escreveu o livro “David Lean: An Intimate Portrait”, sobre o realizador de “Lawrence da Arábia”. Há vários anos que é membro dos BAFTA — é um dos jurados que votam para escolher qual é o Melhor Filme ou Melhor Realizador, entre outras categorias importantes, nos prémios britânicos do cinema e televisão. Leia a entrevista da NiT com Barry Chattington.

O último trabalho mais conhecido que chegou a público foi um filme com Paul McCartney, que foi lançado online nos últimos meses. O que nos pode contar sobre isso?
Chama-se “The Bruce McMouse Show”. Tínhamos filmado uns cinco concertos dos Wings [banda que McCartney teve depois dos Beatles], três na Holanda e dois em Berlim, na Alemanha. O Paul adora animação e perguntou — será que não conseguimos fazer alguma animação? Então surgiu a ideia de que debaixo do palco, enquanto eles estavam a tocar, havia uma família de ratos. Gravámos em 1972, terminámos em 1974 e nunca saiu. Há uns anos perguntei ao Paul, com quem já fiz uns 20 filmes: porque é que não vai sair? “É para os netos.” Bem, ele agora tem netos, talvez seja por isso que tenha saído agora. 

Outro projeto que fez com Paul McCartney foi o “Rockestra”, certo?
Foi outro que fiz nos anos 80. Nunca foi lançado oficialmente, apesar de existirem algumas partes na Internet — e ninguém sabe bem o que é aquilo. O que fizemos ali foi uma coisa de caridade. Eram músicos dos Pink Floyd e dos Led Zeppelin, entre outras bandas, todos a tocar juntos uma canção chamada “Rockestra”. Começámos esse filme com o Paul a compor a música na sua casa. Mas pelo que sei não há planos para o lançar.

Como é que conheceu o Paul?
Eu estava a fazer alguns documentários e conheci o manager do Paul, que se chamava Jack Abbott, e já tinha trabalhado com o Brian Broley [da Universal Pictures, que mais tarde também viria a ser manager de Paul McCartney]. Perguntaram-me se eu filmaria esses concertos dos Wings, o que fiz. Fui buscar cinco pessoas de uma equipa de filmagens de desporto para filmar um concerto de rock n’ roll. Foi assim que os conheci. E ele e a Linda [mulher de Paul] eram criadores registados de appaloosa, os cavalos dos índios. Ele ligou-me num dia a perguntar se eu faria um filme sobre um cavalo. E fizemos três sobre o mesmo cavalo, que saíram na televisão. Há outro que saiu há dois ou três anos chamados “Echos”, que foi muito bom. Ele e o George Harrison tinham andado juntos na mesma escola em Liverpool — o Liverpool Institute — e a escola ia ser mandada abaixo. Ele perguntou se podíamos fazer um filme sobre a escola, podíamos invadi-la à noite e filmar a preto e branco, com muito grão.