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Cinema

“Tell Me Who I Am” é o documentário imperdível da Netflix que quase ninguém viu

Conta a história verídica de dois irmãos gémeos separados por um acontecimento insólito.
O filme estreou em outubro.

A verdade é que talvez o melhor seja ver este documentário sem qualquer tipo de informação sobre ele. Se não quiser ler este artigo e preferir abrir já a Netflix, não o vamos julgar por isso. Por outro lado, a premissa de “Tell Me Who I Am” é irresistível.

O filme realizado por Ed Perkins prolonga-se durante 1h25 e estreou em todo o mundo a 18 de outubro — porém, passou abaixo do radar para muitos dos espectadores da Netflix. Para todos esses, vale a pena recomendar este documentário, especialmente se não se importar com um tema bem pesado e emocional. 

Por incrível que pareça, esta história é mesmo real. Depois de um acidente de mota, um jovem britânico de 18 anos chamado Alex Lewis acorda numa cama de hospital. Ao seu lado estão um outro jovem e uma mulher. Alex reconhece de imediato o seu irmão gémeo, Marcus, mas não sabe que aquela é a sua mãe.

O acidente provocou-lhe amnésia quase total. Alex não sabe onde vive, o que se passa no mundo, como é a sua vida, e não reconhece ninguém. A única pessoa que conhece é Marcus, e, por causa disso, deposita a sua inteira confiança nele para que o irmão o ajude a voltar à vida, a preencher a memória com todas as coisas que ele precisa de saber para que possa voltar a casa, à escola, ao mundo em geral.

A questão é que Marcus cria uma espécie de realidade alternativa para Alex. Ou seja, não lhe conta toda a verdade. Marcus descreve uma vida melhor em relação àquela que ele e Alex na verdade tiveram.

Inventa férias passadas com os pais e que nunca aconteceram, finge que certos comportamentos da família são normais e que toda a gente os faz, e deixa determinadas coisas de fora — incluindo o abuso sexual que ambos sofreram quando eram miúdos.

Alex nunca desconfia de nada do que Marcus lhe diz, porque, lá está, é o seu irmão gémeo, a pessoa em quem mais confia no planeta — e a única de que se lembra desde que perdeu a memória no acidente de mota.

Alex desenvolve uma relação de afeição com a mãe, apesar de todas as estranhas restrições — como os gémeos aos 18 anos não terem uma chave de casa, não poderem ir a determinadas divisões da moradia, e o facto de viverem até num anexo à parte. O pai tinha um feitio complicado e não era a pessoa mais carinhosa do mundo. Alex aceita tudo isto como sendo normal, pensa que todas as famílias são assim, porque Marcus lhe diz durante anos que é mesmo desta forma que as coisas são.

Só aos 32 anos, quando a mãe de ambos morre e os gémeos circulam pela casa, desvendando segredos obscuros do passado e objetos bizarros, é que Alex descobre a verdade. Ou parte dela, na realidade.

Depois de encontrar uma foto sua e do irmão na praia, nus, com as cabeças cortadas, num baú trancado no roupeiro da mãe, Alex começa a desconfiar de que talvez tenham sido abusados quando eram crianças. Na altura, Marcus confirma-lhe que sim, mas não lhe conta mais nada.

Passam-se quase 20 anos e os irmãos continuam a viver de forma muito próxima — trabalham até juntos em muitas ocasiões —, partilham almoços, jantares de família e noites de Natal. Mas nunca mais falaram sobre o assunto. Só em 2013 é que decidem contar a sua história, ao jornal “The Sunday Times” e no livro “Tell Me Who I Am”, que se tornou um bestseller e também a base para este documentário.

Eric Perkins, o realizador do filme, ficou a conhecer esta história surreal nessa altura e quis logo conhecê-los. Esteve cinco anos a falar com os gémeos — hoje com 55 anos — e a convencê-los a gravarem este documentário, que foi ainda mais fundo do que o livro.

A produção centra-se muito nas entrevistas com os irmãos que, apesar de gémeos, têm perspetivas diferentes sobre o que aconteceu. Durante anos e anos, Alex sentiu-se traído porque o irmão lhe escondera a verdade. Fez a sua pesquisa como pôde, falando com pessoas, recolhendo recortes de jornais, para tentar reconstruir a sua infância e adolescência — e, no fundo, a sua identidade.

Já Marcus diz que, por um lado, quis defender o irmão de saber de tudo aquilo por que tinham passado quando eram crianças. Por outro, esconder aqueles segredos e fingir que não tinham acontecido também tinha sido essencial para ele próprio, para conseguir ultrapassar de certa forma o trauma e permitir-lhe ter uma vida normal, sem estar constantemente a lidar com isso.

“Tell Me Who I Am”, o filme, está dividido em três atos. No primeiro, temos a perspetiva de Alex. No segundo, é a vez de Marcus falar para a câmara. Ed Perkins usou fotografias e imagens antigas de vídeo para reconstruir a história — e fez algumas reconstituições para dar um tom mais cinematográfico e realista à produção. A ideia era filmarem na sua antiga casa, nos arredores de Londres, mas o atual proprietário não deu autorização e tiveram de recriar alguns cenários.

No terceiro ato, e de forma inédita, Alex e Marcus juntam-se para falar sobre o assunto que os manteve distantes — embora próximos — durante tantos anos. Marcus ganha a coragem para se abrir e conta a Alex, em pormenor, a forma como eram abusados quando eram crianças. 

Apesar de ser um tema tão pesado, o filme termina com um tom de esperança, de que é necessário falar sobre o assunto. E não é por acaso que é um documentário apoiado por uma associação de antigas vítimas de abuso infantil. Mesmo que tenha arriscado e lido este artigo até ao fim, vale a pena ver o filme completo e descobrir todos os detalhes desta história surreal.