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Cinema

Este ano os Óscares não têm apresentador. Isso é bom ou mau?

Kevin Hart foi convidado pela Academia mas cancelou por causa de um escândalo antigo. Miguel Somsen analisa esta gala invulgar.
Kevin Hart recebeu um ultimato da Academia.

Esta é a época favorita do ano para muitos cinéfilos. Um sofá, pipocas na mão e uma noite inteira a ver os Óscares — pelo menos para quem tem um emprego que permita diretas na véspera. A 91.ª cerimónia dos mais importantes prémios do cinema está marcada para a madrugada deste domingo, 24 de fevereiro.

A gala vai acontecer, como é habitual, no Teatro Dolby, em Los Angeles, nos EUA. Em Portugal, pode acompanhar a emissão em direto através do canal Fox.

Além dos discursos dos vencedores e das atuações musicais, um dos momentos mais marcantes em qualquer cerimónia dos Óscares é o monólogo de abertura. E parece que este ano ele não vai existir. Os prémios não terão um apresentador oficial e vão ter apenas atores, realizadores e outras personalidades do meio que irão anunciar em palco os vencedores e entregar as estatuetas douradas.

O humorista e ator Kevin Hart foi o escolhido pela Academia de Hollywood para apresentar a cerimónia, mas vários tweets seus com comentários homofóbicos — escritos entre 2009 e 2010 — tornaram-se virais. Dezenas de utilizadores do Twitter começaram a denunciar o caso e a apelar à Academia que organiza os Óscares para que o convite fosse retirado.

Nessa altura, Kevin Hart já tinha explicado no seu Instagram que apresentar os Óscares era uma oportunidade de uma vida e que estava na sua lista de objetivos há imenso tempo. Era um sonho concretizado.

Pressionada pela opinião pública, a Academia fez um ultimato a Hart: ou pedia desculpa por aqueles comentários antigos ou deixaria de ser o apresentador dos Óscares. Kevin Hart não cedeu o suficiente e disse que já tinha abordado mais do que uma vez o assunto, explicando que estava numa fase diferente da sua vida. Acabou por pedir desculpa mais tarde, e durante semanas houve rumores sobre se voltaria ou não a ser anunciado como apresentador dos Óscares, mas isso nunca aconteceu. E foi assim que os prémios ficaram sem um apresentador principal para esta edição.

O que é que isto pode implicar para este histórico espetáculo televisivo, que é visto por milhões de pessoas em todo o mundo? A NiT pediu a Miguel Somsen, ex-jornalista e copywriter da TVI, para analisar este caso invulgar. 

A decisão da Academia esconde uma verdade assustadora

“Como dizia o outro, prognósticos só no fim do desafio. Não consigo imaginar se será melhor para a cerimónia dos Óscares um host central ou o hosting ser repartido por vários convidados. Não acredito que a cerimónia vá ser muito diferente por não ter um host central, talvez venha a sofrer apenas o monólogo inicial, que já há um ano foi fraco, e parece ano após ano ficar condicionado pelo momento que se vive na altura (que este ano poderá ser o estado de emergência determinado por Trump para poder obrigar o contribuinte americano a pagar um muro que o próprio Trump em campanha sempre assumiu que seria cobrado ao México).

Uma coisa é certa, com a ausência de um host este ano, muda o paradigma numa cerimónia que continua a ter dificuldades em adaptar-se às novas tendências de consumo do público e vontade das audiências. Sabemos que cada vez mais há menos pessoas a interessar-se pelos Óscares, tal como pelos Globos de Ouro, e isto tem a ver com um desinteresse generalizado do público em relação à sétima das artes.

Há uma coisa assustadora a concluir na opção da Academia de não ter um host este ano: essa ‘opção’, na verdade, não passa de um caso de desespero de uma comunidade que é incapaz de encontrar nos seus pares alguém com o cadastro ou um passado completamente livre ou imaculado que não possa vir a ser escrutinado por qualquer grupo de pressão disposto a investigar tudo aquilo que o artista em questão terá dito, escrito ou publicado no seu passado.

Tudo isto para dizer que, uma vez que todos temos esqueletos no armário, e em Hollywood os armários são enormes, é uma questão de tempo até a cerimónia vir um dia a ser apresentada por robôs ou hologramas. Assumindo que eles nascem mesmo puros e não herdam os constrangimentos dos seus criadores.”