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Cinema

“Pequenas Mentiras Entre Amigos 2”: rir à gargalhada e chorar no mesmo filme, ronda 2

Crítica: a sequela pode não ser tão brilhante quanto o projeto de 2010 mas cumpre as expetativas. O elenco é incrível.
O elenco é inacreditavelmente bom.
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Há nove anos que não os víamos e, assim que voltamos a entrar naquele jardim de Cap-Ferret, percebemos imediatamente a falta que nos fizeram. Primeiro reencontramos Max (François Cluzet) sozinho, de feições carregadas, a arrumar e a limpar aquela casa de férias que não faz qualquer sentido sem barulho, confusão e o grupo tresloucado que conhecemos em “Pequenas Mentiras Entre Amigos” (2010). Depois aparecem Éric (Gilles Lellouche), Antoine (Laurent Lafitte), Isabelle (Pascale Arbillot), Vincent (Benoît Magimel) e Marie (Marion Cotillard). Contudo, a dinâmica está bem diferente. 

Se no primeiro filme os vimos a lidar com a iminência da morte de um deles (Ludo, interpretado por Jean Dujardin), com os sentimentos de culpa e o luto; em “Pequenas Mentiras Entre Amigos 2” — nos cinemas portugueses desde quinta-feira, 6 de junho — encontramo-los numa fase completamente diferente. Mais maduros mas também mais duros e desiludidos com a vida. Ludo morreu e aceitar isso foi mais difícil para uns do que para outros. Max e Véro (Valérie Bonneton) divorciaram-se, Max ficou amargurando e, quase sem se aperceber, afastou os outros todos. Está falido, tem de vender aquela casa cheia de memórias e sozinho (mas porque assim o quer). Quando todos os outros aparecem de surpresa para o seu 60.º aniversário, o primeiro impulso dele é mandá-los embora. A partir daí começa um filme maravilhoso, incrivelmente bem escrito e realizado pelo muito talentoso Guillaume Canet (responsável pelo imperdível thriller “Não Digas a Ninguém” e marido de Marion Cotillard).

Costumo dizer que em “Pequenas Mentiras Entre Amigos”, a primeira metade é para rir e a segunda para chorar. Desta vez, a sequela é para rir em dois terços e para quase chorar no último terço. Nada é tão incrível como da primeira vez mas continua a ser familiar, confortável e tão divertido. Não passamos duas horas (e uns trocos) a rir às gargalhadas mas estamos quase sempre a sorrir perante o que estamos a ver — até os maxilares doem e não há melhor prova da eficácia da história.

Em muitos momentos é uma comédia salpicada por apontamentos de drama; noutras ocasiões é uma produção que sabe integrar as cenas mais hilariantes nos momentos tensos. Tudo funciona, até o desgraçado do Vincent (Benoît Magimel) que continua a ser, lá está, o desgraçado de sempre. É o bobo da corte mas também o mais inocente de todos, sem ressentimentos, sem cobrar nada a ninguém.

É libertador ver este grupo naquela saída à discoteca — os problemas ficam lá fora, os dramas ficam para amanhã —, mesmo que nós estejamos sentados numa sala de cinema. Estas pessoas não se vêem há anos mas quando voltam a juntar-se parece que ainda ontem estiveram todos no mesmo local. Isso não se pode forçar nem prever, alguns ganham uma espécie de jackpot (eu ganhei, há mais de 20 anos, e é uma das minhas maiores sortes na vida). Já diz o ditado que a família são os amigos que escolhemos.

“Pequenas Mentiras Entre Amigos 2” transmite essa sensação de conforto, tranquilidade, familiaridade. A fotografia é bonita, a banda sonora funde-se com a história na perfeição. Os diálogos são ótimos, as piadas levam-nos às lágrimas.

O trabalho até qui é perfeito mas muitas vezes perde-se na tradução para português e é uma pena. Passar piadas de uma língua para outra é difícil, frequentemente é impossível traduzir tudo à letra mas às vezes estragam-se as coisas sem necessidade. Como na cena em que Max vai saltar de pára-quedas e diz que vai libertar tudo (refere-se às preocupações e às mentiras que o têm atormentado nos últimos tempos). Quando faz o salto e chega a terra, começa a dizer: “J’ai tout lâché, j’ai tout lâché [larguei/libertei tudo].” Nas legendas portuguesas, lê-se: “Molhei-me todo.” É uma alusão ao facto de a personagem ter efetivamente molhado as calças mas, nesse momento, Max ainda nem tinha percebido e também não era suposto os espectadores ouvirem a piada explicada antes de poderem aperceber-se dela visualmente. É o caso também do próprio título do filme. “Pequenas Mentiras Entre Amigos 2” é, na versão original, “Nous Finirons Ensemble”, que significa “acabaremos juntos”, uma ideia bem mais bonita e que transmite exatamente a ideia do projeto.

Apesar dos desencontros, desentendimentos ou voltas da vida, é bom pensar que acabaremos todos rodeados de um grupo assim. Por mim, marcamos encontro daqui a nove anos para uma terceira ronda.