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Cinema

Óscares: “Não há paciência para ricaços bem vestidos a falarem de pobrezinhos”

Pedro Boucherie Mendes analisa a cerimónia, os discursos e a justeza dos prémios mais famosos do cinema.
"Green Book" foi a grande surpresa da noite.

Este domingo à noite, 24 de fevereiro, realizou-se a 91.ª cerimónia dos Óscares no The Dolby Theatre, em Los Angeles, nos EUA. Apesar de não haver um apresentador oficial para definir o fio condutor dos prémios, a festa prolongou-se a um ritmo meio adormecido e quase sem surpresas. A única exceção foi mesmo o vencedor do Óscar de Melhor Filme, que foi para “Green Book”, realizado por Peter Farrelly. 

Perante um cenário que se previa potencialmente polémico — com discursos politizados contra Donald Trump, referências raciais e de género nos discursos e um plano de festa que andou aos ziguezagues nos últimos dias —, a NiT pediu ao diretor de planeamento estratégico da SIC, diretor da SIC Radical e autor do recente livro sobre televisão “Ainda Bem que Ficou Desse Lado”, Pedro Boucherie Mendes, para analisar a festa mais famosa do cinema.

Leia também o artigo da NiT com a lista completa dos vencedores dos Óscares e veja a galeria com os melhores looks da red carpet. 

Parece que o público de vez em quando pesa nas decisões dos Óscares — ainda bem

Não há grande paciência para ricaços bem vestidos a lembrarem-se dos pobrezinhos (neste caso dos imigrantes) para poderem atacar Trump desta ou daquela maneira, como voltou a suceder nos Óscares este domingo à noite, mas adiante. 



Duas notas prévias. Não houve apresentador a derramar piadolas e também não houve comentários (ou sequer enquadramento) nos canais FOX, que transmitiram para Portugal a cerimónia. De um lado, ganha o politicamente correto; e do outro, ganham os portugueses, sempre lestos a criticar e a humilhar (nas redes sociais) quem trabalha em televisão e tem de traduzir e contextualizar o que dizem lá na América, no fio da navalha e no momento. 


Os portugueses que não falam inglês? Queixem-se ao Totta. O mundo é sempre mais calmo quando os modernos estão apaziguados.



Com a subida vertiginosa da qualidade da televisão e da quantidade de produções, o cinema tem perdido alguma da magia. Muitos filmes de super heróis dão um pouco a ideia que só vale a pena lá ir por causa desses filmes. As nomeações para “Black Panther” (incluindo para Melhor Filme) deram algum crédito a essa ideia, embora neste caso a sempre dinâmica (e importante) batalha dos civil rights tenha ajudado. Apesar de visualmente magnífico, o filme é dramaticamente pueril, pelo que a única coisa que admira é que o “Bohemian Rapsody” (também nomeado) fosse tão criticado por isso, mas Panther não.  



O belo e aborrecido “Roma” ganhou prémios importantes, dando um estranho crédito aos que consideram que a melhor forma de intelectualizar uma história é contá-la a preto e branco.  
O filme é pago pela Netflix numa questão que deu (e dá que falar), mas que não percebo. 
Por acaso sabemos quem é que paga os outros filmes, os de cinema? 

”Roma” venceu Realizador, Fotografia e filme Estrangeiro. Por mim, encantado da vida. 



Um dos prémios que mais me estava a enervar era o de melhor atriz. Vi Glenn Close no “Mulher” não sei das quantas e achei-a (e ao filme) um mau episódio de uma série de televisão. Conheço bem o livro (que li, vejam bem), mas aquele filme é uma versão baratucha do que poderia ter sido e Close uma versão simplória e americanizada do que poderia ter sido um grande papel (se lho tivessem escrito).


O que me ralava era a possibilidade de Olivia Colman (“A Favorita”) não vencer. Conheço Colman de “Peep Show” e do extraordinário “Broadchurch” e o seu talento é de tal ordem que chega a emocionar. É procurarem o discurso de ontem.
 Colman será rainha Isabel II na terceira iteração de “The Crown”. Estou ansioso. 



Passei grande parte do fim de semana a ver a terceira temporada de “True Detective”, que Mahershala Ali (que ganhou Melhor Ator Secundário em “Green Book”) lidera. Está tudo dito, vejam a série. Cheira-me que a sua carreira (já recheada de prémios) ainda está no final do seu princípio. Este é o mesmo Ali que brilhara em “House of Cards”, a televisão sabe o que anda a fazer.


Melhor Filme ganhou “Green Book”, um filme que se vê bem, que está bem feito e que é um filme de atores, Não só Mahershala Ali como Viggo Mortensen e até Linda Cardelinni, a atriz que faz de sua mulher e tem um papel pequeno. Os americanos contam histórias (simples ou complexas) como ninguém e são imbatíveis nos filmes de época. É sempre um regalo que é ver carros, roupas, mobílias como backdrop dos atores. Relativamente curto para os padrões atuais, divertido e com uma música que nos preenche a alma, ainda há a vantagem de descobrirmos que o músico que Mahershala Ali vive no ecrã existiu mesmo. Melhor filme do mundo? Não. Melhor filme do ano? Não faço ideia. Justo vencedor? Claro que sim. 


 

Ainda bem que Rami Malek, ganhou por “Bohemian Rhapsody”. Fica-se com a impressão de que o público de vez em quando pesa nas decisões e este foi o ano de homenagear Freddie Mercury. Só mais isto, Malek é mais um ator da televisão que sobe lá acima, como Olivia Colman. Se bem se lembram Malek fez (muito bem) “Mr Robot”. 
Um excelente – porque simples, genuíno e sentido – discurso de Malek assinalou bem o momento.

Não percebo muito do assunto, mas se fizesse um filme queria-o nos cinemas em janeiro. Lembremos que “A Star is Born” — que estreou muito antes — não ganhou coisa nenhum  a não ser a música (há uns meses era um dos favoritaços no final de 2018). 

O iconoclasta (e divertido) Spike Lee ganhou o primeiro Óscar da sua carreira pelo argumento adaptado (por “BlacKkKlansman”) e “Green Book” outro Óscar por argumento original. 

No fim do dia, “Bohemian Rhapsody” levou quatro Óscares, “Green Book” e “Roma” três e pouco mais há a acrescentar.