NiTfm live

Cinema

“Os telemóveis são uma maldição, negamos a nós próprios o aborrecimento”

A NiT entrevistou Simon Baker a propósito da nova coleção da Longines, relógios dos quais é embaixador, e da importância do tempo.
Foto de Longines.

Foi nas salas luxuosas e quase secretas do Castelo de Chantilly, França, que Simon Baker e Kate Winslet passaram quase o dia inteiro de 15 de junho. O resultado não poderá ser visto nos cinemas mas começa agora a estar espalhado um pouco por todo o mundo. As duas estrelas de Hollywood, que nunca tinham trabalhado juntas, são embaixadoras da Longines e juntaram-se para fotografar a campanha dos novos relógios da marca, da coleção Record.

Desde o início do mês de julho que a linha pode ser encontrada em Portugal em lojas físicas oficiais, como a Boutique dos Relógios, mas ainda não é possível comprá-la online. Para já, há dois modelos disponíveis: o L23215727, que custa 2900€ e é feito em aço inoxidável e capa dourada; e o L28215722, que custa 2950€, é maior do que o anterior, tem bracelete castanha e é resistente à água.

Foi para conhecer estes novos relógios — e os restantes da coleção Record, incluindo opções em rose gold, que hão-de chegar entretanto a Portugal — e para falar com Simon Baker que a NiT foi até Chantilly (a 50 quilómetros de Paris, a localidade ficou exatamente famosa pelo creme doce que lhe dá o nome).

O ator australiano de 49 anos, que durante sete temporadas foi o protagonista da série “O Mentalista”, já não pode ser visto com regularidade na televisão mas tem atualmente um filme em pré-produção. “High Ground” estreia ainda em 2019.

No meio de centenas de pessoas vindas de Espanha, China, Bélgica, Grécia e outros cantos do mundo, a NiT participou numa entrevista coletiva feita ao ator mesmo antes do Prix de Diane Longines, uma corrida de cavalos que faz parte do circuito francês e que a Longines também apoia. Estando todos reunidos a propósito de relógios, a temática da conversa só poderia ser o tempo. Leia a entrevista a Simon Baker.

Algumas pessoas acham que o tempo pode arruinar relações mas está há 20 anos com a sua mulher.
Mais.

Mais?
Vamos fazer 28 este ano.

Parabéns.
Nem tudo tem sido fácil [risos].

O que lhe queria perguntar é como é que o tempo pode afetar as relações?
Há dias bons e dias maus. A única coisa que é consistente é o facto de continuar a avançar. Podemos estar num período difícil e o tempo continua a avançar. A dado momento, essa fase difícil pode curar-se sozinha, ou não, mas continua a avançar e isso é a única coisa que nunca muda numa relação. Depois podemos ter um grande período calmo e começamos a questionar-nos se isto é demasiado bom para ser verdade [risos]. “Não confio, é demasiado bom.” Aparece uma certa desconfiança. É uma qualidade muito humana, agarra-se a nós. Não sei, não sei. Acho que há um momento em que o que fazemos é compreender o perdão. Quando somos mais novos, sentimos que a vida é tão imediata. Porque é. Lembro-me de, quando era novo, achar que o que acontecia num ano era enorme. Agora olho para o que acontece num ano e não é nada comparado com o que acontece numa década. A perceção do tempo muda à medida que ficamos mais velhos. Podemos ter um mau momento, que provavelmente nos teria debilitado quando tínhamos 20 anos, mas que agora [estala os dedos] está acabado mesmo antes de percebermos. Um ano já não parece um ano, parece um mês.

Se pudesse viajar no tempo, iria para o passado ou para o futuro?
Acho que ia para o passado. Sei mais sobre o passado do que sobre o futuro. Poderia controlar essa parte mais um pouco, saberia que ano escolher, não que eu vá responder a essa pergunta. Por isso, não me perguntem isso [risos].

E, se pudesse, parava o tempo ou viajava atrás no tempo?
Viajava atrás no tempo.

Porquê?
Porque acho que, se parássemos o tempo, a nossa inclinação seria pará-lo numa ótima fase de que realmente gostámos, certo? E, se soubéssemos que podíamos parar aí, não seria tão incrível. Para apreciarmos um grande momento, temos de perceber que não será para sempre.

Agora, algo mais prático: como é que gere o tempo no set, entre as cenas?
Tento usar as pausas bastante bem. Tento ser produtivo, o máximo possível, sabendo também que no set temos de ter dez ou 15 minutos de concentração total e depois descanso. Mas tento gerir as pausas de forma produtiva. Dito isto, também gosto de definir que numa janela específica de tempo vou fazer o que bem me apetece, não gerir o tempo e desperdiçá-lo intencionalmente. Acredito que, numa vida criativa, a ideia do aborrecimento é muito importante. E é aí que estas coisas [pega num telemóvel] são uma maldição. Negamos a nós próprios o aborrecimento, a ideia de estarmos sentados apenas com os nossos pensamentos, a processar, a analisar. [Nos telefones] há sempre algo para ver para que não tenhamos de entrar nas nossas cabeças. Adoro que estas coisas nos possam entreter, mas adoro o aborrecimento.

Apenas não fazer nada?
Não fazer absolutamente nada. Apenas estar com os meus pensamentos ou dúvidas ou seja o que for. Podem ser coisas negativas mas ficar sozinho com elas é interessante e muito, muito importante para mim.

Acha que as pessoas deviam arranjar mais tempo para quê?
Comunicação e conexão. Refiro-me a conexão a sério, não através dos telefones. Tempo cara a cara, é importante. Podemos ter horas e horas de trocas em mensagens ou redes sociais mas nada disso tem o poder de estarmos em frente a alguém. Há muito mais a acontecer do que aquilo que comunicamos com palavras ou com aparência. Há energia, somos todos órbitas de uma energia comum e é quando nos juntamos que criamos algo maior. Quando juntamos muita gente e toda essa energia está focada num propósito, todos ficamos num estado que não podemos ter com estas coisas [os telemóveis], não importa quantas pessoas do nosso grupo mandem mensagens ou quantas pessoas te sigam [nas redes sociais], continuamos a ser só nós. Podemos ter mil pessoas a gostarem daquilo que fazemos, pode ser gratificante para nós de forma fugaz mas sabemos que, quando estamos juntos, é que formamos um coletivo, é aí que está a nossa energia. Por isso é que adoro este tipo de coisas. Quando estamos no Prix de Diane Longines e está a acontecer uma corrida, estamos todos focados nela. Foi mais ou menos assim que nasceram as religiões: várias pessoas, juntas, focadas nas mesmas ideias. Há uma espécie de poder superior que se manifesta e é empolgante. Como seres humanos, nós precisamos disso, precisamos disso para continuar a crescer. Por isso é que as pessoas gostam de concertos, de encontros, quando nos juntamos sentimos a energia de cada um. É para isso que precisamos de arranjar mais tempo.

Os seus filhos fizeram-no descobrir qualidades ou lacunas que nunca tinha enfrentado antes?
Sim, completamente. Há tanto que podemos aprender com os nossos filhos, sobretudo à medida que o mundo desenvolve ideias, a identidade da política, as normas sociais estão constantemente a mudar. Eu procuro sempre a informação dos meus filhos porque lembro-me de, em criança, ultrapassar os meus pais no mesmo tipo de áreas. Da geração dos meus pais para a geração dos meus filhos tanta coisa mudou e eles estão no pináculo para nos guiarem para o futuro. Todos os meus filhos [tem três: Stella, de 26 anos; Claude, de 21; e Harry, de 18 anos] são bastante inteligentes e curiosos, por isso têm muito impacto em mim. Eu digo: “Cresci de uma maneira e aprendi as coisas assim, digam-me onde estou errado, elucidem-me sobre estas questões.” Eles estão a crescer num mundo muito diferente, política e socialmente. Isso é interessante.