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Cinema

Os relatórios do Estado Novo que censuraram “Laranja Mecânica” ou “Lolita”

A NiT mostra-lhe os argumentos usados pelos agentes da Censura para proibirem a exibição de alguns filmes.
"Laranja Mecânica" foi um dos filmes censurados.

Um dos principais instrumentos do Estado Novo para manter a ordem e o poder durante a ditadura era a Censura. O órgão funcionava para reprimir quaisquer ideias que fossem contra o regime ou o estilo de vida defendido por este.

Todos os artigos de jornais e revistas eram lidos para serem aprovados antes da publicação. O mesmo acontecia com os livros, os programas de televisão e, claro, os filmes. É no cinema que nos focamos neste artigo, que também serve para assinalar a data do feriado de 25 de abril — a revolução foi há 45 anos.

Em 1978 foi publicado um livro chamado “Cinema e Censura em Portugal”, escrito por Lauro António, e que retrata bem como funcionava o sistema durante a ditadura. Nessa obra há textos sobre vários filmes — tanto portugueses como internacionais — que foram proibidos ou tiveram partes cortadas em Portugal.

A obra inclui excertos de relatórios da Censura sobre cada filme, que permite entender a linha de pensamento do regime e as razões em concreto pela qual cada uma destas produções não foi exibida nos cinemas nacionais.

Depois da revolução, “O Último Tango em Paris”, censurado até então, foi o primeiro projeto a estrear em Portugal, logo a 30 de abril. Milhares de portugueses foram ao cinema — e espanhóis também, já que o país vizinho ainda vivia sob a ditadura do General Franco.

Veja agora o que diziam os relatórios da Censura que enumeravam os motivos para não exibir alguns dos melhores filmes da época.

“Lolita”, de Stanley Kubrick

“Baseado num livro que foi proibido no nosso país, este filme (de elevadíssima craveira artística e técnica) expõe com realista fealdade a história sórdida de uma excessiva paixão de um homem adulto por uma adolescente. A baixeza do argumento leva-nos a votar pela reprovação.” O filme é de 1962 e acabou por estrear na ditadura, em 1972 — já durante a primavera marcelista — com vários cortes.

“Drácula, Príncipe das Trevas”, de Terence Fisher

“Trata-se de um filme que pretende crer na existência de vampiros, em que estes aparecem ligados à religião. Por isso votamos a sua reprovação.” Só estreou em 1980 em Portugal, apesar de ser de 1966.

“A Flauta Mágica”, de Jacques Demy

“Trata-se a nosso ver de um filme intencionalmente contra a Igreja. Não vemos que o público em geral seja capaz de se situar no contexto da Idade Média. Por outro lado, cremos que o mesmo público se deixará influenciar pela ação do filme que é de facto um libelo contra a igreja. Trata-se de um filme, de facto, bem feito que poderia vir a fazer muito mal. Aprovaríamos se o filme trouxesse algo que ajudasse o público a interpretar e a julgar os factos aludidos. Reprovamos.”

“Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick

“O filme foi visto pelo plenário da comissão que o reprovou por unanimidade.” Só estreou em novembro de 1974, apesar de ser de 1971.