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Cinema

“A Todos os Rapazes: P.S. Ainda Te Amo” é uma sequela pouco sexy (e insípida)

Miguel Lambertini analisa um dos mais recentes filmes da Netflix — uma comédia romântica de adolescentes.
O filme tem 1h40 de duração.

“A Todos os Rapazes: P.S. Ainda Te Amo” estreou na Netflix a 12 de fevereiro e eu sentei-me no meu sofá, abri uma garrafa de vinho, bebi um copo de penalty e quando ganhei coragem carreguei no play. Antes de o filme começar, a Netflix fez o favor de passar um breve trailer com o resumo do que aconteceu até então. Isto porque “A Todos os Rapazes: P.S. Ainda Te Amo”, realizado por Michael Fimognari, é a sequela de “A Todos os Rapazes que Amei”, sendo que ambos os filmes são baseados na obra literária “To All the Boys I’ve Loved Before”, de Jenny Han.

No primeiro filme — um dos mais vistos, segundo dados da Netflix, no ano de 2018 — ficámos a conhecer a história de Lara Jean Song Covey (Lana Condor), uma adolescente sonhadora e cheia de amores platónicos. Lara escreve cartas como forma de se despedir das paixões passadas, que ela considera inalcançáveis, numa tentativa de exorcizar os seus sentimentos.

Só que Lara não tem coragem de entregar as cartas aos destinatários e guarda-as numa caixa de chapéus oferecida pela sua falecida mãe, quando ela ainda era criança. O que a protagonista não esperava era que a sua irmã pré-adolescente descobrisse as cartas e se lembrasse de as colocar no correio. 

Isto é desde logo uma premissa idiota: para já, porque uma miúda de 11 anos, a viver no ano de 2020, não compreende o conceito de uma carta, muito menos de um marco de correio. Depois, porque toda a gente sabe que o objetivo dos irmãos mais novos é infernizar a vida dos irmãos mais velhos de todas as formas possíveis, incluindo enviar cartas que os envergonhem e eliminem qualquer hipótese de estes virem a ter um namorado até chegarem à faculdade.

Claro que isto era o que aconteceria na vida real, mas ao estilo conto de fadas que inspira esta comédia romântica para adolescentes, o que se passa é que Lara acaba mesmo por conquistar uma das suas paixões, o jovem Peter Kavinsky (Noah Centineo), destinatário de uma das cartas, com quem começa a namorar.

Em “A Todos os Rapazes: P.S. Ainda Te Amo” — só o título já dá logo vontade de parar tudo o que estamos a fazer e ir ver o filme — a história do casalinho continua, mas vai ser assombrada por uma paixão do passado, John Ambrose (Jordan Fisher), outro destinatário de uma das cartas. Será que a jovem vai ceder a este capricho ou irá manter-se fiel ao seu primeiro amor? Who cares?! Cada cena deste filme é como assistir a oito horas seguidas de luta greco-romana narradas pelo senhor que faz a voz dos anúncios da JOM.

Apesar da fotografia colorida e de um design fresco, quer no argumento simplório, como nas soluções encontradas para as personagens, esta é uma sequela muito pouco sexy e verdadeiramente insípida. Dito isto, há que assumir que, não sendo eu o target deste filme, há certamente uma boa legião de jovens fãs que vai apreciar esta história de amor inocente que tem, pelo menos, um ponto a seu favor: é um filme assumidamente multiracial.

O facto de ter uma protagonista ásio-americana (nascida no Vietname) é um aspeto importante, que vem contrariar a ideia de que as audiências apenas se interessam por filmes sobre personagens brancas realizados por homens brancos. Esta é talvez das poucas coisas interessantes neste filme, a mensagem inerente de que o amor é indiferente a classes, credos ou à cor da pele. Só é pena é que tudo o resto à volta seja tão dececionante como uma caixa vazia de Mon Chéri.

P.S. A todos os leitores: talvez uma garrafa de vinho não seja suficiente…