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Cinema

“Operação Fronteira”: o novo filme de Ben Affleck é uma tarde bem passada (só isso)

Crítica: o thriller da Netflix tem ainda Oscar Isaac, Pedro Pascal e Charlie Hunnam nos papéis principais.
O filme tem boas prestações dos atores.
70

Há vários anos que se fala de “Operação Fronteira”, um filme que esteve para ser realizado por Kathryn Bigelow (ficou produtora executiva) e para ter como protagonistas estrelas como Johnny Depp, Tom Hanks, Mahershala Ali, Will Smith, Tom Hardy, Mark Wahlberg ou Channing Tatum. A história estreou finalmente esta quarta-feira, 13 de março, na Netflix — apesar de não ter nenhum destes nomes nos créditos.

O thriller de ação acabou por ser realizado por J.C. Chandor e por ter Oscar Isaac, Ben Affleck, Charlie Hunnam, Pedro Pascal e Garrett Hedlund nos papéis principais. Todos eles são antigos camaradas do exército que se reformaram e têm vidas bastante banais e sem grandes posses.

Pope (a personagem de Oscar Isaac) é uma espécie de Danny Ocean em “Ocean’s Eleven — Façam as Vossas Apostas”. É ele que tem o trabalho de reunir os companheiros para uma missão que vai mudar a vida de todos. Juntos viajam para a zona da fronteira tripla (o filme chama-se “Triple Frontier” na versão original) entre Brasil, Argentina e Paraguai.

É lá que vive um dos maiores narcotraficantes do mundo, o misterioso e perigoso Lorea. Este não confia em bancos nem em offshores: a sua casa é o banco onde guarda todos os milhões de dólares que tem (Pablo Escobar continua a ter muita influência na ficção americana). A missão, portanto, é que o grupo de protagonistas invada a casa — com a ajuda de uma informadora/amante de Pope, Yvoana (Adria Arjona) — e fique rico.

Como havemos de perceber, tudo isto é apenas a primeira hora (das duas) do filme, o que dá uma certa surpresa à história. A parte difícil e derradeira é quando eles têm de mover milhões e milhões (e toneladas e toneladas) de dinheiro pelas selvas, rios e montanhas da América do Sul. A história consegue aproveitar bem essas paisagens. A banda sonora com músicas dos Metallica e dos Pantera assenta bem ao início do filme.

Todos eles embarcam nesta missão arriscada e difícil pelos valores de irmandade que têm — mas também pela saudade da adrenalina de segurar uma arma na mão e ter um alvo a abater. Este é o primeiro crime que estão a cometer, já que não estão a agir com a autorização de qualquer agência governamental.

Todos se sentem um pouco abandonados pelo governo americano — são veteranos de guerra mas não têm condições para pagar a universidade dos filhos ou para comprar um novo monovolume. Apesar de existirem alguns ecos que sugerem que eles estão a fazer isto por um bem maior — como salvar a região daquele terrível narcotraficante —, agem sobretudo por ganância e isso vai ser cada vez mais visível ao longo do filme. Tanto que chega uma altura em que os irmãos de armas começam a questionar a lealdade uns dos outros — e os comportamentos de cada um. 

Contudo, a história não está interessada em mais nada e isso é assumido. Não está no campeonato dos grandes clássicos de Hollywood. As personagens não são profundas (o vilão Lorea não tem sequer uma — não, nem uma — fala) e não são explorados quaisquer tipos de sentimentos amorosos — e havia uma hipótese para isso com Pope e a informadora. Este drama é sobre masculinidade, a ganância que pode levar um homem a cometer atos horríveis e loucos, sobre como o dinheiro pode despertar em nós, humanos, tudo aquilo que temos de pior.

“Operação Fronteira” equilibra bem os momentos mais tensos (e eles não são poucos, felizmente) com os mais serenos e tranquilos. Não é uma obra prima dos thrillers, mas também não é (felizmente) uma versão lowcost e menos idosa de “Os Mercenários”. Está acima da média dos chamados “filmes de domingo à tarde”, mas também não é para os Óscares — nem nada que se pareça.