NiTfm live

Cinema

Obrigatório: “O Rapaz Que Prendeu o Vento” é o filme da Netflix que tem de ver já

É a estreia do ator Chiwetel Ejiofor como realizador e argumentista. É uma história de drama, superação e ingenuidade.
Maxwell Simba interpreta o protagonista.
80

Um dos melhores filmes do ano podia ter-nos passado completamente ao lado se não tivéssemos reparado que existe uma nova história na Netflix chamada “O Rapaz Que Prendeu o Vento”. Qual? Com quem? Pois, nós também não sabíamos nada sobre ela. É a estreia do ator britânico Chiwetel Ejiofor, que foi nomeado para um Óscar pelo papel em “12 Anos Escravo”, como realizador e argumentista. Está disponível na plataforma de streaming desde 1 de março.

Vivemos num mundo em que estamos totalmente habituados a filmes produzidos nos EUA, na Europa ou até na América do Sul — e é bom lembrarmo-nos, de vez em quando, que existe um mundo muito maior.

A história de “O Rapaz Que Prendeu o Vento” passa-se inteiramente em África, mais concretamente no Malawi, no início do milénio — por volta da altura dos atentados do 11 de setembro de 2001. O argumento é baseado no livro com o mesmo título que conta a história real de William Kamkwamba.

O Malawi vive uma fase de transição. É um dos mais estáveis países africanos, mas tudo vai mudar com as fortes cheias e, depois, a seca intensa que vão arruinar as plantações que são necessárias para alimentar a população. O governo, que está mais preocupado em vencer as eleições do que em ajudar o povo, não vai ser a solução. Quando os problemas estalam, as coisas vão ficar feias numa aldeia — e em tantas outras.

O filme acompanha a família Kamkwamba. Os pais (Ejiofor protagoniza um deles) são agricultores que sempre quiseram que os filhos tivessem vidas diferentes, com mais estudos e profissões melhores. Annie é a irmã mais velha e está a preparar-se para ir para a universidade — namora às escondidas com um professor de ciências da escola onde estuda o irmão e protagonista desta história, William (Maxwell Simba).

William é um miúdo que representa a ideia de felicidade que vemos frequentemente nas crianças de sítios pobres, que nunca tiveram grandes expetativas sobre nada na vida. O que ele mais quer fazer é estudar. Vive bem com o cão, os amigos, os relatos de futebol e os passeios pelo ferro velho da aldeia. Ele é um engenhocas. Costuma arranjar os rádios dos vizinhos para receber uns trocos e impressiona as crianças mais velhas quando faz truques com as pilhas.

Tudo isto se vai revelar super importante quando a seca devasta aquela zona do país — com pessoas a fugir das aldeias, conflitos e colheitas estragadas (o que provoca fome). William Kamkwamba salva a família e o local ao construir um moinho de vento para produzir eletricidade e criar água. Foi isto que o William da vida real concretizou — e aquilo que já sabíamos que este William ia fazer. Mas o que interessa mais aqui é o caminho que o leva até este final glorioso.

Chiwetel Ejiofor encontrou uma narrativa maravilhosa para contar. Tem os elementos todos: é uma história de superação, de uma família de pessoas boas que passa por momentos péssimos e que, graças ao mais ingénuo (e puro) membro, William, consegue sobreviver. Os dramas normais de uma família no cinema ou na televisão também estão lá — só que normalmente estamos habituados a que os cenários sejam outros.

Apesar de o protagonista ser um miúdo, o filme é bastante sério e adulto — e tudo isto sem ser demasiado obscuro nem noir. A história vive num equilíbrio ideal entre a realidade difícil e a ingenuidade que nos faz acreditar nas pessoas boas e puras — é a perspetiva de William, afinal.

Maxwell Simba faz um ótimo papel. Um incrível papel, aliás. Apreendemos tudo o que ele sente ao longo das duas horas e meia de filme. Outro dado importante é que, na maior parte do enredo, as personagens não falam inglês. Ejiofor optou pelo dialeto local chichewa, o que dá uma autenticidade muito maior a“O Rapaz Que Prendeu o Vento”.

As paisagens áridas de África que foram captadas têm uma beleza exótica que, lá está, não estamos habituados a ver nos nossos quotidianos — mesmo nos ecrãs dos cinemas, televisões ou computadores. Isso tanto funciona na forma — nos cenários, nas roupas — como no conteúdo: esta é uma história humanizadora que contrapõe a tradição e a modernidade na África rural. Precisamos de mais filmes destes.