Cinema

O novo filme de Clint Eastwood é uma história verdadeira — e os atores são os protagonistas reais

“15:17 Destino Paris” estreia esta quinta-feira, 15 de fevereiro, e relata um ataque terrorista que ocorreu num comboio em Paris.

Os três amigos reuniram-se num comboio para fazerem deles próprios.

21 de agosto de 2015. Um marroquino chamado Ayoub El Khazzani embarca num comboio que vinha de Amesterdão, na Holanda, rumo a Paris, em França. Na casa de banho, tirou a T-shirt e pegou numa metralhadora, uma pistola e um x-ato.

Quando regressou para perto dos passageiros, um francês nascido nos EUA, Mark Moogalian, tirou-lhe a arma das mãos, mas acabou por levar um tiro de pistola. El Khazzani pegou outra vez na metralhadora, apontou-a para o colega americano, Spencer Stone, e premiu o gatilho. A arma encravou.

Stone e dois amigos, Alek Skarlatos e Anthony Sadler, atiraram então o marroquino ao chão, bateram-lhe com a coronha da metralhadora e imobilizaram-no. Ou seja, travaram um atentado que poderia ter ferido ou matado dezenas de passageiros. O comboio parou na estação de Arras, onde a polícia francesa os esperava para levar El Khazzani. Os paramédicos salvaram Moogalian e, por sorte, ninguém morreu.

Esta história real que na altura foi notícia em todo o mundo sobre os turistas americanos heróis que impediram um atentado em França é contada no novo filme do realizador Clint Eastwood.

“15:17 Destino Paris” estreia em Portugal esta quinta-feira, 15 de fevereiro. Não seria fácil contar este episódio de poucos minutos num filme com mais de uma hora e meia, mas o que é realmente curioso aqui é que Clint Eastwood não realizou sequer um casting de atores. Em vez disso, convidou Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler para se interpretarem a si próprios. E eles aceitaram.

Depois de Clint Eastwood ter entrevistado os três amigos para adaptar a história para cinema percebeu que não queria emoções falsas de outros atores. “Eu estava a falar e a falar com eles porque queria ter o máximo de precisão na forma como contava a história”, revelou o realizador à revista “The Hollywood Reporter”.

“E um dia passou-me pela cabeça. Só pensei: será que eles conseguem fazer isto? Acho que há atores incríveis que poderiam fazê-lo, mas há algo sobre este projeto em particular e o heroísmo envolvido e a forma como eles fizeram a coisa que é único. Por isso, tentei fazer assim.”

Clint Eastwood nunca soube se a sua decisão foi questionada pelos estúdios da Warner, que produziram o filme. “Pode ter havido alguma discussão sobre se seria boa ideia, mas ninguém me disse nada. Acho que pensaram que eu fazia isto há uns 60 anos e que podia tomar uma decisão.”

Por outro lado, os três amigos que foram convidados para serem estrelas de cinema ficaram chocados com a proposta. “Nem sequer me tinha passado pela cabeça”, contou Spencer Stone à mesma revista americana.

“Até com os meus amigos e família a perguntarem: ‘Quem vai fazer de ti no filme? Vais-te interpretar a ti mesmo?’ E eu: ‘Então, claro que não. Isso é estúpido’. Quando o Clint nos perguntou, ficámos tão retraídos.” Spencer Stone é um ex-sargento da Força Aérea, que serviu nos Açores; Skarlatos é um guarda nacional do exército americano no Oregon; Anthony Sadler estuda na faculdade em Sacramento. Os amigos de longa data tinham todos 23 anos em 2015.

Contudo, não são só aqueles três amigos os protagonistas do filme que não são atores. Moogalian também se interpreta a si mesmo, tal como a sua mulher. Até alguns dos figurantes são pessoas que estavam mesmo naquela carruagem. Atores profissionais como Judy Greer, Jenna Fischer e Tony Hale equilibram o elenco e o ambiente do filme com papéis secundários.

Por causa desta experiência, Spencer Stone está a pensar avançar com uma carreira no cinema. “Adorava que fosse uma carreira longa”, disse. “É um cliché dizer: ‘faz aquilo de que gostas e nunca vai parecer trabalho’. Mas acho que é isto. O Clint abençoou-nos com uma nova carreira. Todos os dias depois daquele ataque terrorista são uma benção, e sinto que estou a viver com tempo emprestado. Por isso, porque não?”