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Cinema

Neste atelier em Lisboa são feitos os fatos de “Peaky Blinders” e “Maléfica”

Fica em Marvila e abriu em 2016. Tem cinco milhões de peças e qualquer pessoa pode ir alugar figurinos.
O armazém tem cinco milhões de peças.

Em Lisboa há um mundo encantado dos fatos de cinema e séries de televisão  — e quase ninguém sabe que ele existe. Está escondido num complexo industrial na zona oriental da cidade. Desde 2016 que ali está a sucursal portuguesa da espanhola Peris Costumes, uma das empresas de figurinos mais conceituada internacionalmente, que tem sede em Madrid.

Percorrer aqueles longos corredores, carregados de peças e mais peças — no total, aquele armazém acolhe cerca de cinco milhões —, é como fazer uma viagem pelo tempo. Há roupas de todas as épocas e geografias imagináveis, desde trajes de nobres a fardas militares.

São mais de 4500 metros quadrados e vários pisos neste enorme armazém em Marvila — que é vizinho de uma empresa de táxis, uma marca de cerveja artesanal e a conhecida Hippotrip. 

Foi neste local, que a NiT visitou durante o mês de dezembro, que foram feitos centenas de figurinos de “Maléfica: Mestre do Mal”, que estreou no ano passado. Também foi em Marvila, por exemplo, que foram feitas as camisas que são usadas em “Peaky Blinders”.

A Peris Costumes existe desde 1856, mas Alejandro Toledo, que gere o espaço na capital portuguesa, e o pai, só adquiriram a empresa em 2012 — logo com o objetivo de a internacionalizar. A primeira expansão foi precisamente para Lisboa. Hoje têm também espaços na Hungria, Áustria, México, França, Alemanha, República Checa, Itália, Reino Unido e Bélgica, além da casa mãe em Espanha.

“Tínhamos uma lacuna, precisávamos de um atelier [mais artesanal] para a confeção dos fatos”, conta Alejandro Toledo à NiT. “Uma das razões por que viemos para Portugal foi pela grande tradição de costurar.” Compraram o atelier dirigido pela portuguesa Maria Gonzaga, “conhecida no mundo inteiro”, e integraram o trabalho que já era desenvolvido na empresa. Nos últimos anos têm crescido bastante. Se em 2016 eram apenas quatro pessoas, agora são 32 — 90 por cento das quais mulheres.

A Peris Costumes em Lisboa divide-se, portanto, em duas áreas. Uma é o atelier, que recebe encomendas de todo o mundo para produzir fatos, sejam para cinema, séries de televisão, campanhas de publicidade ou teatro. A outra é o armazém, que aluga roupa já feita para o mesmo tipo de produções, e ainda para particulares.

A empresa de Alejandro Toledo faz roupa para as novelas da TVI, por exemplo, mas também para os filmes produzidos por Paulo Branco, ou “Golpe de Sorte”, da SIC. O trabalho dos costureiros é confecionarem os figurinos a partir das ideias dos estilistas e designers de produção. “Temos que interpretar como fazer cada fato. Normalmente são coisas de época, temos esse conhecimento, temos muitos livros especializados, sabemos como fazer os cortes, os pormenores, e tudo isso é muito importante.”

Se for um fato simples, conseguem fazer perto de 400 por mês. Se for uma encomenda mais exigente, que envolva mais horas de trabalho, já poderá reduzir a produção para metade. Alejandro Toledo diz que o projeto mais desafiante que já tiveram até agora em Lisboa foi a minissérie histórica francesa “Le Bazar de la Charité”.

O espanhol Alejandro Toledo gere o espaço em Lisboa.

“Foram 220 fatos num mês e meio. Foi horrível, mas ficou impecável. Até eu que tive de ir coser, não tínhamos tempo, era o último dos últimos recursos [risos].”

O trabalho de Toledo passa muito por gerir todas as operações, os recursos disponíveis, e conciliar todos os projetos com as outras sucursais — para que possam realizar serviços complementares mesmo que seja tudo para um único filme ou produção televisiva. Por isso, passa grande parte do tempo no seu gabinete em videoconferências.

Se olharmos para o currículo da sede em Espanha, as referências ainda são mais impressionantes. De “Dumbo” a “Kingsman”, passando por “Exterminador Implacável”, “Dor e Glória”, “Crime no Expresso do Oriente”, “Loving Pablo” ou “Intruders”, são muitos os filmes cujas roupas foram fabricadas pela Peris Costumes.

Entre as séries estão “The Crown”, “Elite”, “Vikings”, “The Spy”, “Chernobyl”, “Gentleman Jack”, “Knightfall”, “The Terror”, “Vis a Vis”, “The Last Kingdom” e os famosos macacões vermelhos de “La Casa de Papel”. Neste último caso, tiveram de fazer centenas de exemplares — tanto para a série como para ações de promoção em todo o planeta. “Destes temos muito poucos, a maior parte ficou estragada, vieram cheios de sangue e com buracos. Não é fácil.” Depois de se terminar a rodagem, alguns figurinos voltam para a fábrica, mas outros ficam com os designers ou os criadores da série.