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Cinema

“Menina”: o drama luso-francês que faz lembrar “A Gaiola Dourada”

É a estreia da realizadora Cristina Pinheiro e tem Nuno Lopes e Beatriz Batarda. A NiT falou com os três.
Nuno Lopes e Beatriz Batarda entram no filme.

Em 2013 — em plena crise económica em Portugal — estreava nos cinemas “A Gaiola Dourada”, uma produção luso-francesa sobre uma família de emigrantes. Foi uma comédia que teve um grande impacto junto do público nacional e teve mais de 750 mil de espectadores, sendo o projeto mais visto desse ano.

Cinco anos depois, chega “Menina”. Neste caso, o tom é sério e dramático, apesar de a ação também se passar nos anos 70 e com uma família de emigrantes portugueses em França. É a estreia da realizadora Cristina Pinheiro e chega às salas nacionais esta quinta-feira, 25 de abril.

É precisamente com a celebração da revolução do 25 de abril que começa a história. Nuno Lopes e Beatriz Batarda interpretam um casal com dois filhos. Thomas Brazete é o irmão mais velho, Pedro, e Naomi Biton a grande protagonista do enredo, Luísa.

A personagem é inspirada na própria história de Cristina Pinheiro, que nasceu em França mas é filha de portugueses. As filmagens, que duraram cerca de sete semanas, aconteceram no verão de 2016, no sul de França. Entretanto, o filme já esteve nos cinemas franceses.

“Perdi o meu pai e tinha muitas perguntas. Depois comecei a escrever esta história e a minha mãe morreu também. Se não tenho pai nem mãe, onde estava Portugal? Já não tenho nada. Não perdi só os meus pais, perdi também a minha terra. Com eles mortos era a minha cultura que estava a morrer”, explica Cristina Pinheiro à NiT, num português com sotaque carregado, sobre o filme que começou então a ganhar forma.

“Nunca compreendi porque era diferente dos franceses e também da minha família, porque fui a única que nasci em França, os meus irmãos nasceram em Lisboa. Era muito importante ter no guião este sentimento de solidão e foi assim que nasceu esta história. Para fazer o filme tive de vir a Portugal escolher atores portugueses e isso já foi espetacular para mim.”

A realizadora já conhecia Nuno Lopes — que tem trabalhado cada vez mais em França (também ele próprio se está a tornar um emigrante) — e pediu-lhe que sugerisse algumas atrizes para interpretar a mãe.

“Ela [Cristina Pinheiro] queria uma portuguesa a viver cá, que falasse pouco francês, que nem é bem o meu caso”, conta Beatriz Batarda à NiT.

“Gostei logo da ideia, acho que o tema da emigração é marcante na nossa história e agora ainda mais porque houve uma nova onda de emigração nos últimos anos. É um tema recorrente: quando aperta temos a capacidade de agarrar nas nossas malas e de nos pormos a andar e recomeçar do nada. Essa resiliência característica dos portugueses é admirável.”

A própria Beatriz Batarda é descendente de uma imigrante francesa. A avó, que era judia, fugiu do seu país durante a Segunda Guerra Mundial. A atriz diz que aquilo de que gostou mais na história foi o facto de ser contada através do ponto de vista de Luísa. Beatriz Batarda explica que ela mesma se debateu com essas questões de identidade.

“Eu andei no Liceu Francês. No entanto, sou portuguesa e vivi praticamente toda a minha vida aqui. Mas não tenho os mesmos hábitos alimentares, não tenho rotinas, histórias ou lengalengas que fazem parte da cultura portuguesa mas não fazem parte da minha cultura familiar. E o filme é sobre ela a tentar perceber como é que se relaciona com o seu país, os amigos, os professores e com aqueles pais analfabetos portugueses com hábitos muito diferentes. É um conflito muito comum, está sempre na vida do emigrante quando se está a crescer.”

Nuno Lopes explica que aquilo que o atraiu mais para o projeto foi a forma como os emigrantes são retratados. “Tenho um enorme respeito por emigrantes e acho que há um preconceito enorme sobre eles. Ninguém emigra por prazer, só por necessidade, para poder ter uma vida melhor. E raramente vejo isso retratado na ficção. Normalmente há sempre um lado muito preconceituoso.”

E acrescenta: “Tanto a minha personagem como a da Beatriz têm imensos defeitos, não são heróis, mas é um olhar digno sobre a emigração. O facto de o filme ter estreado em França, se fizer com que o público francês olhe para os emigrantes de outra forma, então o meu trabalho terá valido a pena.”