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Cinema

Joe Pesci teve de ser convidado 40 vezes até aceitar entrar em “O Irlandês”

O ator reformado estava relutante em regressar ao cinema. Estava a gravar cenas e ainda nem sequer tinha aceitado fazer o papel.
Joe Pesci tem 76 anos, tal como Robert De Niro.

Desde os anos 90 que Joe Pesci não tem uma carreira regular no cinema. O ator americano de Nova Jérsia, que hoje tem 76 anos, tornou-se conhecido — entre outros papéis — por interpretar mafiosos italianos no cinema.

Foi o que fez em “Tudo Bons Rapazes” e “Casino”, clássicos de Martin Scorsese que contam histórias passadas no submundo criminal da máfia. Em ambos os casos, Joe Pesci interpretava criminosos impulsivos e perigosos — daqueles cavalheiros imprevisíveis que de repente, a meio de um almoço, se transformam em assassinos implacáveis.

Antes disso, tinha participado em “Touro Enraivecido”, outro filme icónico de Scorsese. Por isso, quando o realizador quis voltar a fazer um filme de mafiosos chamado “O Irlandês”, não teve dúvidas de que queria Joe Pesci para interpretar uma das personagens principais, Russell Bufalino.

Demorou bastante para que o filme tivesse o investimento necessário — custou cerca de 145 milhões de euros, o que o tornou rapidamente a produção mais cara de sempre de Martin Scorsese, que, como sabemos, tem um currículo longo e premiado.

Isto só foi possível graças à Netflix, que apoiou o projeto — é precisamente na plataforma de streaming que pode ver “O Irlandês” a partir desta quarta-feira, 27 de novembro. No total são três horas e meia de filme. Leia a crítica da NiT.

A produção foi tão cara sobretudo por causa dos inovadores e impressionantes efeitos especiais, que permitem que a história se passe ao longo de várias décadas com os mesmos atores. Ou seja, temos direito a ver versões rejuvenescidas de Joe Pesci, Robert De Niro e Al Pacino — os grandes protagonistas da história. 

O enredo baseia-se na vida real de Frank Sheeran, que ficou conhecido entre os seus amigos e associados da máfia italiana como “O Irlandês”. Antigo soldado do exército e camionista, Sheeran começou a fazer pequenos negócios com as organizações criminosas de Chicago até se tornar um dos principais assassinos contratados da máfia.

Ao mesmo tempo, era um homem influente nos sindicatos e acabou por se tornar numa espécie de braço direito de Jimmy Hoffa, famoso sindicalista que desapareceu nos anos 70 e cujo corpo nunca foi encontrado.

O filme é baseado no livro “I Heard You Paint Houses”, de Charles Brandt, que ouviu os depoimentos de Frank Sheeran nos seus últimos anos de vida, quando finalmente quis contar as suas histórias secretas. A obra foi publicada um ano depois da sua morte, em 2004.

Esta é uma história que mistura política — a eleição de John F. Kennedy e o seu assassinato são relevantes para o enredo — com o sistema judicial e o submundo criminal. O argumento foca-se nas traições, nas conspirações e na sobrevivência neste difícil universo.

Voltando a Joe Pesci, o importante aqui é que o ator não aparecia à frente das câmaras há quase uma década. Estava reformado, cansado de Hollywood lhe ter oferecido sempre os mesmos papéis. Tinha-se dedicado ao golfe e ao jazz — onde assina com o pseudónimo Joe Doggs.

Por isso mesmo, demorou anos — mesmo anos — para Martin Scorsese convencer Joe Pesci a regressar da sua reforma para este papel. A revista “Entertainment Weekly” diz que o ator terá sido convidado 40 vezes pela produção de “O Irlandês”.

Desta vez, a sua personagem é um mafioso sábio e experiente, muito calmo, com uma aura misteriosa, que acaba por servir como mediador (qual figura paternal) entre todos os conflitos que decorrem no enredo. Não é por isso que deixa de ser implacável quando é preciso. 

Joe Pesci não deu entrevistas para promover o filme, mas o seu colega Robert De Niro — velho amigo de tantos outros projetos — falou sobre o assunto com a imprensa, tal como o realizador. 

O filme tem três horas e meia.

A oportunidade de trabalhar com De Niro e Scorsese de novo, a ideia de ter um papel diferente enquanto gangster e, claro, o pagamento avolumado da Netflix terão sido fatores chave para Joe Pesci se juntar ao projeto.

Scorsese disse à “Entertainment Weekly” que Robert De Niro foi essencial para conseguir Joe Pesci no filme. “O Bob e o Joe têm uma linguagem própria.” De Niro explicou melhor o que lhe disse numa das várias vezes que o tentou convencer a entrar na produção.

“Eu estava a dizer coisas como: ‘Vá lá, quem sabe se alguma vez vamos ter esta oportunidade outra vez? Vamos apenas fazê-lo.’ E ele adora o Marty, respeita-o muito e sabe que, se estiver nas mãos dele, vai correr tudo bem.”

Scorsese tentou explicar a relutância para Joe Pesci entrar em “O Irlandês”. “São escolhas individuais e às vezes as pessoas não querem fazer algo por diferentes razões. Poderiam ser problemas financeiros. Não sei. Poderiam ser problemas familiares, podia ser de saúde. Podia ser aborrecimento para um certo tipo de filme. Interpretar uma certa personagem. De qualquer forma, o que importa é que teve de ficar confortável para aceitar.”

A revista “GQ” falou com Martin Scorsese e o realizador disse que Joe Pesci já estava na sua caravana (que serve como camarim) no set de filmagens e mesmo assim ainda não tinha dito que sim. “Ele saía da caravana e recusava o papel. Filmámos uma cena e ele ainda estava a recusar.”