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Cinema

Já vimos “O Irlandês” — e é mesmo o melhor filme de sempre da Netflix

A nova produção de Martin Scorsese junta Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino. É um projeto que merece vencer prémios.
O filme dura quase três horas e meia.
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Não há que enganar. Se filmes como “Tudo Bons Rapazes”, “Casino” ou “The Departed — Entre Inimigos” estão na sua lista de favoritos, então vai adorar “O Irlandês”. É a nova obra de Martin Scorsese, que nos faz mergulhar mais uma vez no fascinante universo da máfia. Estreia na Netflix esta quarta-feira, 27 de novembro.

A NiT já assistiu a esta produção que, infelizmente, não será exibida nos cinemas portugueses. Em vez disso, todos os que quiserem ver “O Irlandês” terão de recorrer aos seus telemóveis, computadores e, na melhor das hipóteses, às televisões gigantes lá de casa.

Esta é a história real de Frank Sheeran (Robert De Niro), que ficou conhecido entre os seus amigos e associados da máfia italiana como “O Irlandês”. O antigo soldado do exército transformou-se em motorista de camiões. Porém, para fazer algum dinheiro extra, começou a fazer pequenos negócios com as organizações criminosas de Filadélfia — enquanto subia na hierarquia.

Acabou por se tornar um dos assassinos favoritos dos chefes locais da máfia, como Russell Bufalino (Joe Pesci) e Angelo Bruno (Harvey Keitel). Por outro lado, Frank Sheeran era um homem dos sindicatos, onde se tornou bastante influente. Foi precisamente nesse cargo que se tornou numa espécie de braço direito de Jimmy Hoffa (Al Pacino), famoso líder sindicalista que desapareceu nos anos 70 e cujo corpo nunca foi encontrado.

Esta é uma história que mistura política — a eleição de John F. Kennedy e o seu assassinato são relevantes para o enredo — com o sistema judicial e o submundo criminal. O argumento foca-se nas traições, nas conspirações e na sobrevivência neste difícil universo.

O filme é baseado no livro “I Heard You Paint Houses”, de Charles Brandt, que ouviu os depoimentos de Frank Sheeran nos seus últimos anos de vida, quando finalmente quis contar as suas histórias secretas. A obra foi publicada um ano depois da sua morte, em 2004.

Uma das características mais importantes da adaptação para o cinema é que Scorsese conta esta história, que se prolonga durante várias décadas, sempre com os mesmos atores. Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci — as personagens principais — aparecem ao longo de vários anos, mais jovens ou mais velhos, sem uma sequência cronológica definida. No fundo, a ideia é que os espectadores viajem pelas memórias de Frank Sheeran.

Os efeitos especiais que transformam os rostos destes atores tão familiares são absolutamente incríveis. Esta inovação técnica pode muito bem mudar a forma como os filmes são feitos — e a maneira como as próprias narrativas são construídas.

Com dezenas de anos de carreira acumulados entre os três, os atores principais são uma das maiores valências de “O Irlandês”. Al Pacino dá-nos um fantástico Jimmy Hoffa, cheio de energia e irreverência; Joe Pesci é um mafioso calmo, sábio e misterioso (ao contrário da sua personagem impulsiva em “Casino” ou “Goodfellas”); e Robert De Niro é a consciência do filme, mesmo que por vezes estejamos a par dos seus remorsos e arrependimentos.

As figuras secundárias, como Jesse Plemons, Stephen Graham e Bobby Cannavale, servem para complementar a qualidade desta produção. O elenco de luxo foi impecavelmente escolhido (e bem) a dedo por Martin Scorsese.

Os diálogos são outra das grandes qualidades de “O Irlandês” — são melhores do que a história em si. Assistimos a enormes momentos de tensão causados pelos deliciosos eufemismos do discurso mafioso seguidos de partes hilariantes mas ao mesmo tempo subtis, sem ser demasiado óbvio, em que é impossível não nos rirmos com determinada situação.

Há um conjunto de grandes cenas — que vão tornar este filme apetecível para a época de prémios que se aproxima — e não há muitas falhas que possamos apontar a esta produção. Ao contrário do que já aconteceu em alguns filmes do grande Scorsese. 

Um dos pouco defeitos do filme talvez esteja no facto de ser demasiado longo (tem quase três horas e meia) e a estrutura relativamente cronológica — tendo em conta a vida de Frank Sheeran — faz com que não exista muito bem um princípio, um meio e um final, o que corta o efeito de clímax. As melhores cenas estão espalhadas pelo tempo.

De qualquer forma, é mais do que suficiente para ser o melhor filme original da Netflix de sempre — mesmo que não consiga alcançar as melhores obras-primas da carreira de Scorsese.