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Cinema

Já vimos o filme sobre António Variações — e contamos-lhe o que pode esperar

“Variações” só estreia em agosto e o protagonista é Sérgio Praia, que canta bastante ao longo da história.
Estreia em agosto.
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É, muito provavelmente, o filme português mais esperado do ano. O público vai ter de esperar até 22 de agosto para ver “Variações” no cinema — mas a NiT já assistiu à produção que conta a história real de António Variações.

Este projeto chega na sequência de “Bohemian Rhapsody” e “Rocketman”, sobre Freddie Mercury (e os Queen, claro) e Elton John, respetivamente. Foram blockbusters de sucesso sobre lendas da música e ícones gay, o que certamente só tem aumentado o entusiasmo em torno de “Variações”.

Não vá para o cinema com as mesmas expetativas — até porque uma produção nacional funciona numa escala bastante diferente — mas “Variações” é um filme que vale a pena ver. Vale mesmo, apesar de não ser incrível nem ter a melhor história do mundo.

O enredo começa na pequena aldeia de Pilar, no concelho de Amares, distrito de Braga, onde vivia a família numerosa de Variações — que aqui ainda não o era. Nesta altura era só António Ribeiro, ou Toninho, para a mãe.

O filme, que se prolonga durante praticamente duas horas, vai mostrando elementos aqui e ali que ajudam a explicar como é que tudo aconteceu para António Ribeiro — mesmo que nesta fase seja de uma forma mais apressada.

Há uma cena em que vemos como ele não gostava de trabalhar na fábrica quando era adolescente, como vivia num contexto religioso do Portugal rural, que a sua ídola de sempre era Amália Rodrigues, que o seu sonho era ir para Lisboa e que o pai lhe ensinou a tocar cavaquinho. São pormenores que ajudam a explicar as origens do cantor e que são bem espalhados pela primeira parte do projeto.

No entanto, 85 por cento da ação passa-se entre 1977 e 1981, os primeiros anos da carreira de Variações (interpretado por Sérgio Praia) que, na verdade, só chegou até 1984 — o músico morreu no dia de Santo António, 13 de junho, nesse ano. Tinha apenas 39 anos e, tal como Freddie Mercury, morreu de problemas resultantes de SIDA.

Grande parte do guião — que foi escrito por João Maia, o realizador — centra-se nas dificuldades que Variações encontrou junto das editoras para conseguir que a sua música fosse aceite. Por outro lado, a sua homossexualidade não é vista nesta produção como um obstáculo na indústria — só em algumas ocasiões do dia a dia.

Como é sabido, antes de músico — sendo que Variações nunca teve formação na área — era barbeiro. Trabalhou em várias lojas, incluindo em Amesterdão, na Holanda, onde conheceu Luís Vitta, jornalista brasileiro que vivia em Portugal e que ajudou imenso a promover a carreira do músico através dos contactos que tinha.

Esta é uma história de auto-descoberta — perceber como é que o folclore da sua terra e o fado de Amália encaixavam com o seu lado mais pop e até punk —, de compreender quem eram os músicos certos para ter a seu lado, de tentar vários caminhos até chegar ao sucesso. E chegou mesmo. António Variações não teve o palco do Live Aid para brilhar, mas a cena mais idêntica a essa de “Bohemian Rhapsody” tem de ser a do concerto na inauguração na discoteca Trumps, onde ouvimos Sérgio Praia a interpretar “Canção do Engate”. E já existe um excerto disponível online. O concerto em Amares com a mãe é outro momento comovente.

Contudo, o lado mais emotivo do filme começa quando o protagonista reencontra o antigo namorado/amante, com quem volta a desenvolver uma relação especial de amizade/amor, Fernando Ataíde (Filipe Duarte), dono do Trumps, que tinha sido o chefe de Variações numa das barbearias onde trabalhou.

A proximidade e relação entre ambos é bem explorada no filme e tem o seu auge nos momentos em que o músico já não está bem de saúde e, contra as recomendações dos médicos, continua a dar concertos e a cumprir o seu sonho.

Apesar disso, e de Sérgio Praia estar muito bem caracterizado e até cantar bem (grande parte do que ouvimos foi gravado por si), é difícil ficarmos a saber como é que António Variações realmente era, quais eram as suas expressões faciais ou a sua disposição no dia a dia. Seria mesmo assim? Não parece completamente real, parece nunca ter dúvidas sobre nada, muito menos falhas, a oportunidade de ser explorado em profundidade no filme não foi completamente conseguida. Todas as outras personagens são também apenas retratadas à superfície, sem haver uma preocupação com a profundidade de cada uma delas.

Os figurinos, os detalhes dos cenários, a produção musical e sonora e a direção de fotografia são algumas das melhores qualidades de “Variações” — um filme de época bonito que nos leva até à Lisboa artística dos anos 70 e 80 e ao imaginário tão próprio de António Variações.

Apesar de ser uma lenda incontornável da música portuguesa, a verdade é que a história dele — por vários episódios memoráveis e engraçados que tenha — não é a coisa mais hollywoodesca do mundo. E claro que isso trouxe um desafio à equipa que fez o filme, que é produzido por Fernando Vendrell. 

“Variações” vai chegar aos cinemas no ano em que se assinalam 35 anos após a sua morte e 75 do seu nascimento. De qualquer forma, vale a pena conhecer e, sem dúvida, celebrar o legado e a história de António Variações, que, como em tantos outros casos, merecia ter tido mais reconhecimento em vida.

Leia ainda a reportagem da NiT nos bastidores da banda Variações, que saiu do filme para interpretar as músicas de António Variações no NOS Alive.

Filipe Duarte interpreta Fernando, amigo e antigo amante de Variações.