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Cinema

A história surreal (e original) de como nasceu o Síndrome de Estocolmo

O filme que conta a história do assalto e rapto que deu origem a esta condição estreia em Portugal esta quinta-feira, dia 8.
Estreia a 8 de agosto.

Ao longo dos anos, temo-nos familiarizado com a condição de Síndrome de Estocolmo — na qual uma vítima de rapto, ou um refém, começa a gostar do seu raptor ou a julgar que ele tem boas intenções e sabe o que é melhor para si. 

A culpa de muitos de nós sabermos isto, claro, é de séries como “Mentes Criminosas” ou “CSI” e de filmes policiais que relatam casos que envolvem este síndrome. Também não poderá ser coincidência que, em “La Casa de Papel”, a personagem de Monica tenha assumido o nome de código Estocolmo — já que ela era uma das reféns nas primeiras temporadas até se apaixonar por Denver.

A história original de como surgiu o conceito de Síndrome de Estocolmo é contada num filme com o mesmo título — “Síndrome de Estocolmo” — que estreia em Portugal esta quinta-feira, 8 de agosto. 

A produção foi realizada por Robert Budreau e tem um elenco com Ethan Hawke, Noomi Rapace, Mark Strong, Mark Rendall, Bea Santos, Christopher Heyerdahl ou Ian Matthews, entre outros.

Tudo aconteceu, claro, em Estocolmo, a capital da Suécia, em 1973. Jan-Erik Olsson, um criminoso carismático fugido da prisão, entrou num banco com uma metralhadora e uma mala que continha uma faca, cordas e explosivos.

Olsson estava mascarado — fingiu ter um sotaque americano, usava um par de óculos falsos, tinha uma grande peruca castanha e o bigode e as sobrancelhas pintadas. “A festa acabou de começar”, gritou ao entrar no estabelecimento, depois de uma rajada de tiros para o ar.

A primeira coisa que fez foi meter música rock a tocar no seu rádio. Vários funcionários conseguiram sair do banco, mas Olsson quis manter quatro trabalhadores como reféns. Foram atados com cordas para que não pudessem escapar. Uma delas tinha apenas 23 anos e chamava-se Kristin Enmark.

Olsson estava particularmente calmo por causa da experiência que tinha — afinal, desde os 16 anos que cometia crimes. Em 1973, já tinha 32 anos.

O primeiro agente da polícia a chegar ao local não conseguiu obter grande coisa do raptor. Olsson recusou-se a cooperar porque queria falar com um superior. Entretanto, ameaçou-o com a sua arma e pediu-lhe para cantar uma música. O polícia ficou tão assustado que começou a entoar “Lonesome Cowboy”, de Elvis Presley.

Mais polícias foram chegando e montando o cerco à volta do edifício — incluindo um inspetor que Olsson conseguiu atingir com um tiro na mão. Só quando Sven Thorander, superintendente da polícia, chegou ao local é que o raptor começou a explicar as suas exigências.

Primeiro, queria que o seu amigo Clark Olofsson, um criminoso famoso na Suécia, fosse libertado da cadeia onde cumpria uma pena de seis anos por assalto à mão armada e pela participação no homicídio de um polícia nos anos 60. A ideia é que Olofsson se juntasse a ele como parceiro naquele golpe. Olsson pediu ainda cerca de 265 mil euros e um carro rápido para fugir. 

A polícia reagiu rapidamente e cumpriu todas as exigências que o criminoso tinha pedido — incluindo um Ford Mustang azul com o tanque cheio de gasolina. Mas não permitia que Olsson escapasse e levasse com ele os reféns.

Por causa disso, Olsson não se rendia, o que resultou num cerco de vários dias. Chegou aos jornais de todo o mundo e foi o primeiro incidente criminal a ser transmitido em direto na televisão sueca.

Dentro do banco, outra coisa bizarra acontecia, já com Olofsson no interior. “Ele reconfortou-me e segurou a minha mão”, contou Kristin Enmark no podcast Memory Motel em 2016. “Não posso dizer que me senti segura, mas escolhi acreditar nele. Ele significou muito para mim porque acreditei que alguém queria saber de mim. Ele deu-me esperança e fé de que tudo acabaria bem.”

Outra refém, Elisabeth Oldgren, também disse que Olsson cuidava dela — emprestando-lhe o casaco quente para dormir quando estava muito frio.

Não demorou muito até os reféns começarem a temer mais a polícia — que poderia invadir o banco de uma forma bruta ou até letal — do que os raptores. Kristin Enmark também falou com a revista “The New Yorker” em 1974.