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Cinema

A história da portuguesa que trabalha com as maiores estrelas de Hollywood

Rosalina da Silva tem 65 anos e é make-up artist. Trabalhou em “As Cinquenta Sombras de Grey”, “X-Men” e na série de “Snowpiercer”.
Começou a trabalhar na área nos anos 80.

Quando era pequena, no Pinhal Novo, adorava pintar as colegas da escola. Num certo dia, quando tinha seis ou sete anos, resolveu arranjar as sobrancelhas de uma amiga. A experiência correu tão mal que a mãe da rapariga avisou-a: “Nunca mais lhe tocas na cara!”. Hoje, Rosalina da Silva é requisitada por algumas das principais estrelas e realizadores de Hollywood para tratar da maquilhagem para os maiores filmes e séries do planeta.

Nasceu em Tunes, no Algarve, onde ainda tem família, e aos cinco anos mudou-se para o Pinhal Novo. O pai trabalhava nos caminhos de ferro, como grande parte da população daquela zona, e a mãe, à semelhança da maioria das mulheres antes do 25 de abril, era doméstica. Andou na escola no Montijo e no Barreiro, entre outras zonas da Margem Sul, até aos 17 anos.

Nesse ano, em 1972, apenas um par de anos antes da revolução que não podiam antever, decidiram emigrar em busca de um futuro melhor, com mais condições de vida. A tia paterna e o marido já estavam a morar em Sydney, na Austrália, há algum tempo, por isso foi fácil escolherem o destino e fazerem as malas para atravessarem o mundo.

A paixão pela maquilhagem, pelos produtos que podia usar, sempre esteve presente. Aprendia mais com as revistas que comprava e os seus olhos brilhavam quando ouvia na rádio um anúncio de um novo produto.

“Há sempre aquelas pessoas que dizem que ‘desde pequeninas’ que gostavam de fazer isto e aquilo. Eu sempre senti muita inclinação para a beleza. Lembro-me das revistas que havia, ou da informação nas publicidades”, conta Rosalina da Silva à NiT, hoje com 65 anos, numa conversa ao telefone onde se intercala o português e o inglês como se fossem uma única língua.

Quando se mudou, adorou de imediato a Austrália, mas na altura não sabia falar inglês, por isso, teve aulas. Ao mesmo tempo, trabalhava — às vezes com mais do que um emprego ao mesmo tempo — em várias áreas.

“Trabalhei em tudo, como qualquer pessoa que emigra. Ia para a escola à noite, trabalhava durante o dia. Trabalhei em muitas fábricas de roupa, porque era um emprego que tinha muitos imigrantes, especialmente mulheres. As minhas tias e primas trabalhavam nas fábricas e sabias que entravas às oito e saías às cinco. E depois arranjava um trabalho das cinco às sete, ou ia para a escola.”

Também esteve no mercado do retalho, da venda ao cliente, e até fez sandes para ganhar dinheiro. “Sabia que não queria ser secretária ou coisa assim, não queria um trabalho de escritório. Quando estava na Austrália comecei a interessar-me sobre como seriam os bastidores da televisão, como é que seria trabalhar lá. E honestamente nem me lembro bem como é que tive esse desejo.”

O interesse pela área da beleza acabou por sobressair e Rosalina da Silva foi estudar durante um ano para o curso de make-up artist — pensado especificamente para a área da televisão e do cinema, ou da publicidade — num conservatório de música e artes.

“Na altura as coisas eram muito diferentes, não se fazia tantos filmes como se fazem hoje, a grande parte do trabalho era na televisão. Entretanto achei que gostava de aprender mais sobre a pele e comecei a estudar beleza do ponto de vista da pele, durante um ano, também num instituto.” 

Foi nessa altura que começou a equilibrar os trabalhos na televisão australiana — de produções locais e de anúncios publicitários — com os trabalhos como esteticista, algo que fez durante muitos anos. “A cara é a tua tela. Tinha de aprender sobre tratamentos de pele e educar-me nesse meio. Ao mesmo tempo ainda tinha a dificuldade da língua, o meu inglês não era… e eu talvez fosse mais tímida.”

Rosalina da Silva, à direita, em meados dos anos 80 nas gravações de “A Costa do Mosquito”.

O primeiro grande projeto em que participou, como parte do departamento de maquilhagem, foi “Mad Max: Além da Cúpula do Trovão”, filme de 1985 da famosa saga australiana de George Miller e George Ogilvie, que neste caso teve Mel Gibson e Tina Turner como protagonistas.

“Foi o filme que me ensinou a lidar com grandes projetos, em números de pessoas, não só com o elenco mas com os outros artistas. Ensinou-me muito e foi o primeiro grande.” 

Rosalina da Silva explica que a sua carreira foi sempre muito gradual, sem grandes sonhos e com os pés assentes na terra, a conquistar aos poucos produções de maior dimensão e a conhecer produtores e realizadores mais influentes e importantes numa indústria que não tem fronteiras.

“Sempre que tenho um trabalho agradeço a Deus e fico muito feliz que alguém acredite em mim, e às vezes os trabalhos são bons e outras vezes não são, às vezes simplesmente tens de pagar o empréstimo ao banco — tem sido uma boa carreira para mim, tem-me dado muitas oportunidades e muita liberdade. Mas poderia ser sempre melhor, porque, como artistas, estamos sempre à espera do grande próximo projeto.” 

A make-up artist portuguesa explica que o primeiro passo em cada trabalho é ler várias vezes o guião do filme ou série. “Depois tens de desconstruir tudo por personagens. E nesse processo estás a desenhar o visual de cada papel, tens um lookboard, fotos e artigos de inspiração, e depois apresentas tudo aos produtores e ao realizador, para que possamos discutir os visuais de toda a gente.”

De seguida, são feitas todas as alterações e ajustes necessários, para que se possa começar o trabalho na prática. “Os estúdios têm a última palavra quando veem os testes de imagem [já com os atores] e dão sugestões.”