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Cinema

“A Favorita” não vai ter hipóteses nos Óscares, mas é um ótimo filme

Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman envolvem-se num triângulo amoroso e tóxico. Leia a crítica da NiT.
O filme estreia esta quinta-feira, 7 de fevereiro.
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Yorgos Lanthimos deve ser um homem feliz. Após uma série impecável de filmes que o distinguiram no circuito independente — com destaque para “Canino” (2009) e “A Lagosta” (2011) — o realizador grego conseguiu agora a atenção inesperada do mainstream com uma espécie de comédia dramática passada no início do século XVIII. “A Favorita” é o filme com mais nomeações para os Óscares de 2019, 11 no total. E o mais admirável é que Lanthimos conseguiu-o sem se comprometer; “A Favorita” representa uma progressão natural na sua carreira, produzido com mais e melhores meios, mas que continua a servir a visão singular (e ocasionalmente absurda) do realizador.

A história fala sobre a relação tóxica entre três mulheres: um estranho triângulo amoroso feito de jogos de poder de consequências colossais no rumo da Grã-Bretanha, na altura em conflito armado com a França. A rainha regente Anne (Olivia Colman) vive uma existência miserável, assombrada pelos filhos que perdeu à nascença, por graves problemas de saúde e, sobretudo, pela solidão que a coroa impõe no seu dia a dia. A única pessoa que lhe serve de alento é Sarah (Rachel Weisz), a sua melhor amiga e amante, que gere a influência junto da rainha com uma mão de ferro que a torna numa das pessoas mais poderosas do reino.

O filme começa com a entrada em jogo de Abigail (Emma Stone), uma prima distante de Sarah que, caída em desgraça social, consegue um trabalho no palácio como serva. Mas Abigail é uma jovem ambiciosa e inteligente, e cedo começa a mover as peças para se aproximar da rainha Anne e assim subir na escada social. “A Favorita” é, na sua essência, um jogo de xadrez particularmente selvagem entre Sarah e Abigail, dividido em oito capítulos.

A grande força de “A Favorita” são as interpretações geniais das três atrizes. Emma Stone e Rachel Weisz brilham no seu duelo imprevisível, mas é Olivia Colman que se destaca, capturando as fragilidades emocionais e físicas da rainha Anne ao mesmo tempo que carrega a responsabilidade de astro maior na história: todos os conflitos do filme orbitam à sua volta e Olivia Colman gere essa gravidade irresistível com elegância.

O argumento de Deborah DavisTony McNamara é delicioso, os diálogos conseguem fazer-nos esquecer os anacronismos que surgem naturalmente neste tipo de drama e envolvem-nos como uma boa peça de teatro. Yorgos Lanthimos continua igual a si próprio, fazendo de “A Favorita” uma peça visual diferente, pela sua obsessão com as lentes grande angulares e com o estilo de Kubrick. Tal como em “Barry Lyndon”, “A Favorita” é filmado apenas com luz natural. E, tal como em “Barry Lyndon”, a história aqui trata dos efeitos da cobiça e poder sobre a natureza humana, tudo misturado com uma dose saudável de humor negro.

Num mundo onde os Óscares são tantas vezes entregues como prémios de compensação e de popularidade, fica a ideia de que “A Favorita” não terá grandes hipóteses face à concorrência. Yorgos Lanthimos ainda não tem o peso de Alfonso Cuarón e o filme talvez seja demasiado disruptivo e desconfortável (como toda a obra do realizador, no fundo) para agradar ao público em geral. Na verdade, contrastando com o seu nome, este será certamente o menos popular entre os oito nomeados deste ano para o Óscar de melhor filme. Mas para os que conseguirem lidar com o mundo maquiavélico de “A Favorita” ou que já estão familiarizados com o estilo de Lanthimos, está aqui uma das obras mais compulsivas do ano.