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Cinema

“Uma Fábrica Americana”: o incrível documentário da Netflix que venceu o Óscar

Estreou na plataforma de streaming no verão do ano passado e conta a história de um choque de culturas entre a China e os EUA.
O filme prolonga-se durante 1h50.

“As classes trabalhadoras têm vidas cada vez mais difíceis, e acreditamos que as coisas vão ficar melhores quando os trabalhadores do mundo se unirem.” Ora aqui está uma frase inspirada em Karl Marx e que não costumamos ouvir numa cerimónia americana como os Óscares. Mas foi assim que Julia Reichert e Steven Bognar agradeceram a estatueta dourada de Melhor Documentário que receberam este domingo, 9 de fevereiro, na gala dos maiores prémios de cinema do mundo.

A dupla realizou “Uma Fábrica Americana”, documentário da Netflix que chegou à plataforma de streaming a 21 de agosto. Foi o projeto de estreia da Higher Ground Productions, a produtora de cinema que Barack e Michelle Obama lançaram recentemente.

Aa palavra “americana” do título tem um sentido relativamente irónico. Em 2014, a empresa chinesa Fuyao, fabricante de vidros para carros, comprou uma antiga fábrica de automóveis da General Motors em Dayton, no estado americano do Ohio, que tinha encerrado em 2008.

A Fuyao prometeu um investimento forte e a criação de centenas de novos empregos. A empresa e o seu líder Cao Dewang (que ficou conhecido como “Chairman Cao”) foram recebidos euforicamente na região, com apoios do Estado, um dos mais afetados pelo desemprego em todo o país.

O documentário mostra como a boa disposição mudou quando os trabalhadores perceberam que, para mostrar a sua gratidão, tinham de se adaptar à cultura chinesa de trabalho, com bastante submissão, sem terem direitos que consideravam básicos.

Os chineses exigiam semanas de trabalho de seis ou sete dias, impulsionando a produtividade a todo o custo, e recusando hábitos americanos preguiçosos como pausas para almoço e procedimentos de segurança na fábrica.

A grande preocupação dos gestores da Fuyao era esmagar qualquer tentativa de criar um sindicato no interior da empresa. O filme mostra as reações dos trabalhadores americanos, muitos deles enfurecidos, e o choque com a cultura de trabalho chinesa (e os seus colegas asiáticos).

Um dos grandes momentos de “Uma Fábrica Americana” é quando os operários americanos são levados numa viagem à China para conhecerem melhor a história e os hábitos de trabalho da Fuyao no seu país de origem — e a respetiva disciplina quase militar.

Também é ali que os americanos percebem a diferença dos sindicatos na China, que funcionam como braços do Estado e do governo, e não como organizações que defendem os direitos dos trabalhadores face à direção de uma empresa. Todo esse choque, que acaba por se tornar cómico, é demonstrado ao longo da produção que tem 1h50 de duração.

Numa altura competitiva em que os Estados Unidos e a China estão num conflito económico com sanções à mistura, é premiado um documentário que olha não só para os potenciais conflitos numa parceria entre as duas culturas — valorizando ao mesmo tempo as sinergias, com a criação de emprego e o investimento —, mas também oferece uma nova perspetiva sobre a tradicional luta de classes entre trabalho e capital.

Conheça a lista completa dos vencedores dos Óscares (a grande surpresa foi o sul-coreano “Parasitas”) — e descubra os melhores momentos da noite, desde as piadas às atuações especiais.