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Cinema

“A Educadora de Infância” é o pesadelo de todos os pais

Dizem que é uma das melhores interpretações de Maggie Gyllenhaal.
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Lisa Spinelli é educadora de infância há 20 anos. É casada, tem dois filhos adolescentes e gostava de ser poetisa. Tem uma voz suave e nunca grita, nem quando encontra a filha a fumar um charro no quintal de casa, numa festa não autorizada.

Lisa Spinelli é Maggie Gyllenhaal, atriz de 41 anos, irmã de Jake e mulher de Peter Sarsgaard. O pai é realizador, a mãe é argumentista e produtora. Maggie faz parte da realeza de Hollywood e move-se no cinema com o à vontade com que se transformou em professora enquanto gravava este “A Educadora de Infância”.

Durante semanas foi a educadora de uma turma de crianças de cinco anos. Cantava com eles, ensinava-lhes letras, faziam projetos de pintura e era a ela que os miúdos pediam para ir à casa de banho. O resultado é brilhante, também graças à forma como foi filmado pela realizadora Sara Colangelo: como se fosse um documentário.

As críticas internacionais dizem que é um dos melhores papéis da atriz, que não gosta de interpretar mulheres recatadas, óbvias, simples, felizes. E se esta for uma das melhores interpretações da sua carreira, é pelo desespero sempre presente na sua voz baixa e na forma como se move. Lisa é uma mulher frustrada, cujos poemas não agradam nem ao professor de escrita criativa (Gael Garcia Bernal), com dois filhos adolescentes que não são o que ela imaginou, nem estão interessados em ser, e um marido compreensivo, amoroso, que ela trai sem maldade, apenas porque, enfim, a vida não é o que ela gostaria que fosse.

É um dos alunos, um menino de cinco anos chamado Jimmy, que muda tudo. É que Jimmy é um poeta, uma criança que diz poemas de repente, sem que ninguém perceba como. Poemas com imagens fortes que deixam Lisa estupefacta. A partir daí ela começa a anotar tudo o que ele diz e pede à ama da criança que também o faça.

O problema é que ninguém parece dar muita importância ao dom do menino: o pai quer que ele jogue basebol, como as crianças da sua idade, a ama quer ser atriz e não tem tempo. E de um momento para o outro ele transforma-se na grande causa da professora, no seu objetivo de vida. Há que acarinhar o génio e dar-lhe tudo para que ele possa criar, como faziam com Mozart, que era alimentado a doces, explica Lisa. E ela persegue o pai da criança, a ama, leva-o a uma noite de leitura de poesia sem qualquer autorização do pai, o que culmina com a mudança de escola de Jimmy. 

A obsessão vai demasiado longe e ela acaba por tirar o miúdo da escola, às escondidas, e leva-o para passar uns dias num lago, onde tenta incentivar a criação. Mas ele recusa, só quer voltar para casa. E ela desiste. 

Não há lições, nem morais, apenas uma profunda tristeza por tudo aquilo que a vida poderia ser e não é, pelo talento desperdiçado, pelos génios incompreendidos. Lágrimas pela desilusão que os seus filhos representam, desilusão que, no fundo, é a que Lisa sente em relação a ela mesma. E Jimmy, enquanto espera no carro da polícia que o resgatou, faz mais um poema, sem ninguém para ouvir.