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Cinema

“A Herdade”: o filme português que pode conquistar os festivais de cinema lá fora

Faz parte da competição do Festival de Veneza e vai estrear em Toronto. Foi realizado por Tiago Guedes, que falou com a NiT.
O filme vai estrear a 19 de setembro nos cinemas.

Chama-se “A Herdade” e se ainda não ouviu falar deste filme é porque ele só estreia a 19 de setembro. Ainda assim, já existe um enorme buzz à sua volta — tudo porque vai estar na competição oficial do Festival de Veneza, que arranca no final de agosto; e irá estrear no igualmente prestigiado Festival de Toronto, em setembro, ainda antes de chegar aos cinemas.

Foi realizado por Tiago Guedes e produzido por Paulo Branco, sendo que o argumento foi dividido entre o realizador, o escritor Rui Cardoso Martins e o guionista francês Gilles Taurand.

A história passa-se na segunda metade do século XX, ao longo de várias décadas, e acompanha uma família de proprietários de uma das maiores herdades da Europa, que fica a sul do Tejo. Albano Jerónimo interpreta o protagonista, João Fernandes — o chefe da família. O elenco tem ainda Sandra Faleiro, Miguel Borges, Ana Vilela da Costa, João Vicente, Victoria Guerra, Ana Bustorff, Beatriz Brás ou Diogo Dória.

“O Paulo Branco está a pensar neste projeto há oito anos, eu juntei-me há quatro, quando ele me chamou. Já havia um guião mas acabei por adaptar a história e torná-la minha também”, conta à NiT Tiago Guedes.

“Achei que tinha vários pontos interessantes por onde pegar. Tinha o homem maior do que a vida, e o filme mostra como este grande latifundiário foi sobrevivendo aos tempos — como teve de lidar com o fascismo mas também, depois da revolução, com um lado mais comunista. É um filme sobre heranças emocionais e familiares.”

Tiago Guedes diz que o sucesso que está a ter até agora pode estar relacionado com isto, mas também com o facto de retratar Portugal de uma perspetiva diferente, de mostrar um outro lado da famosa revolução do 25 de Abril, mais do ponto de vista daqueles que ficaram a perder com o Golpe de Estado — ou que pelo menos tiveram de sobreviver às suas consequências.

“Ter reconhecimento é sempre bom, e é sempre surpreendente quando são estes palcos tão grandes e importantes. É bom para o trajeto do filme. Ao mesmo tempo também assusta, porque estás num palco com pessoas que admiras e isso tem de aumentar o sentido de responsabilidade.”

O filme de Tiago Guedes vai competir pelo Leão de Ouro de Veneza com histórias realizadas por Steven Soderbergh, James Gray ou Roman Polanski.

As filmagens duraram entre oito a nove semanas e terminaram em agosto do ano passado. Foram “intensas e feitas em pouco tempo”, sendo que o tema é bastante pesado. Foram gravadas entre a Herdade do Rio Frio, nos concelhos de Alcochete e Palmela, e a Herdade da Barroca d’Alva, também em Alcochete.

A história começou por ser inspirada nos donos dessas propriedades, mas esse foi apenas o ponto de partida para criar uma narrativa completamente fictícia. “Fomo-nos afastando muito da biopic e dessa verdade de fundo que pudesse existir.”

Tiago Guedes explica que os maiores desafios na realização desta produção estiveram relacionados, muito provavelmente, com o facto de ser um filme de época. “É sempre complicado quando gravas cenas em Lisboa passadas nos anos 70. Mais do que o aspeto visual, é extremamente complicado do ponto de vista sonoro.”

O realizador diz que houve algumas entrevistas para escolher o elenco — mas também convites diretos, como é o caso daquele que foi feito a Albano Jerónimo. “Precisávamos de alguém com carisma e capaz de desempenhar bem o papel. O Albano tem isso tudo.”

Além de “A Herdade”, há uma curta-metragem portuguesa que irá competir no Festival de Veneza. Chama-se “Cães que Ladram aos Pássaros” e é uma produção de Leonor Teles, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2016, com outra curta.

O filme “Francisca”, de Manoel de Oliveira (que também foi produzido por Paulo Branco), vai ser exibido na secção Venice Classics numa versão restaurada pela Cinemateca Portuguesa.