NiTfm live

Cinema

“O Caminho de Volta” é um dramalhão emocionante com alguns clichés pelo meio

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini, analisa um dos filmes que estreiam esta semana.
Ben Affleck é o grande protagonista.

Partindo do princípio de que ainda haverá cinemas abertos nos próximos dias, “O Caminho de Volta” é uma boa sugestão para desanuviar um pouco deste ambiente pesado que se vive por conta do coronavírus. O novo filme de Ben Affleck estreia em Portugal esta quinta-feira, 12 de março, e centra-se na história do ex-basquetebolista Jack Cunningham, considerado uma lenda nos tempos do liceu, mas que agora, depois de viver uma tragédia terrível, é apenas um gordão que se depara com problemas de alcoolismo e depressão. Nada como um bom dramalhão para nos animar o fim de semana.

No início do filme encontramos um homem profundamente resignado cuja principal preocupação é beber cerveja e vodka, em casa, no local de trabalho, no bar da rua, novamente em casa na manhã seguinte, mas agora no duche porque o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. É aí que vislumbramos um Ben Affleck inchado e a parecer que pesa 200 quilos, reflexo da entrega do ator a este papel que me parece um dos mais bem conseguidos da sua carreira.

Desde o momento em que ganhou o Óscar de Melhor Filme com “Argo” (2012) — o segundo depois de ter ganho o de melhor argumento com “O Bom Rebelde” (1997) — Affleck tem sido um pouco renegado para os lados de Hollywood, principalmente depois do mal afamado “Batman vs. Super-Homem” (2016), que deixou os fãs de super-heróis super indignados. Agora o ator personifica uma história de redenção com um toque pessoal — ele próprio é um alcoólico em recuperação — que é um retrato sincero de um homem à procura do seu momento de viragem.

Esse momento surge um dia, quando, sem nada o prever, é convidado para treinar a equipa de basquetebol do liceu onde antes jogava. Tal como ele próprio, a equipa é hoje o retrato da decadência, mas apesar da hesitação inicial e depois de beber um frigorífico e meio de cervejas, Jack aceita treinar os miúdos. Tenta impor a sua visão de jogo, mas a equipa não parece estar destinada a ganhar, o que aumenta em Jack a sensação de falhanço. A sua vida é uma merda, a todos os níveis.

Como consequência, o homem refugia-se no álcool, o que vai afetar a sua relação com a mulher, de quem se separou mas que ainda ama. A mulher conta-lhe que arranjou um novo parceiro, a vida de Jack fica uma merda ainda pior, por isso nada como mais uma bebedeira de caixão à cova para esquecer as amarguras e tentar seguir em frente. A vida de Jack é uma merda mas ao seu lado há outros que têm vidas tão más ou piores — o professor de físico-química (Al Madrigal) que se dedica a apoiar a mãe com uma doença degenerativa, ou um dos miúdos (Brandon Wilson) que ele treina que tem de andar quilómetros a pé todas as noites para chegar a casa.

Neste ponto da história, Jack parece-nos apenas um bêbado patético que se entrega às litrosas para não lidar com os problemas do dia a dia. Ok, a tua vida é uma merda, so what, a maior parte das pessoas tem vidas miseráveis. Mas o verdadeiro ponto de viragem em “O Caminho de Volta” — realizado por Gavin O’Connor — é o momento em que percebemos a razão pela qual Jack é tão amargurado. A partir daí passamos a torcer pelo treinador e queremos que, ao ajudar aqueles rapazes desorientados mas com algum potencial, também ele encontre uma forma de se reerguer e revelar todo o seu talento.

Os resultados começam finalmente a surgir e aqui é possível antever a milhas o que irá acontecer, porque o filme torna-se num clichê de todos os filmes de desportos americanos que já vimos até hoje. Ainda assim, por cada uma destas cenas batidas há um momento de humanidade dura e crua, que soa totalmente genuíno. “O Caminho de Volta” resume-se na máxima “não podes controlar o que te acontece, mas podes controlar a forma como reages ao que te acontece”. Pelo que ver este filme é tempo bem investido e uma ótima forma de poupar dinheiro em livros de autoajuda (sobretudo com a palavra “fuck” no título). 

Dito isto, é importante avisar que ao contrário do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde, há uma forte probabilidade de tocar na sua cara enquanto assiste a este filme. É que Ben Affleck consegue a proeza de elevar uma história bastante superficial a um drama genuinamente emocionante que pode fazer com que queira enxugar uma ou duas lágrimas. Por isso, chore à vontade, mas não se esqueça de lavar as mãos!