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Brad Pitt está ótimo em “Ad Astra”, mas isso não chega para aguentar a história

O filme realizado por James Gray estreia em Portugal esta quinta-feira. Leia a crítica da NiT.
O filme tem uma realização desinspirada.

Se há uma coisa que se pode dizer sobre James Gray é que o realizador não esconde as suas influências: “Ad Astra” é uma mistura de “2001: Odisseia no Espaço”, “Apocalypse Now” e “A Árvore da Vida”. Infelizmente, o resultado final não é completamente satisfatório e fica a sensação de potencial desperdiçado. O filme estreia esta quinta-feira, 19 de setembro, em Portugal.

Num futuro não muito distante, o astronauta Roy McBride (Brad Pitt) é incumbido de uma missão secreta: viajar aos confins do sistema solar para descobrir e neutralizar a origem das misteriosas descargas elétricas que ameaçam toda a vida no planeta Terra. Descargas essas que estão relacionadas de alguma forma com o seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones), o lendário astronauta que liderava o projeto LIME, cujo objetivo era descobrir inteligência extraterrestre longe da interferência magnética do Sol.

Cliff e os seus colegas estão incontactáveis há anos, não se sabendo o que aconteceu ao projeto LIME, nem o que poderão ter descoberto. “Ad Astra” segue assim, de perto, a estrutura narrativa de “Apocalypse Now”, substituindo o papel de Marlon Brando pelo de Tommy Lee Jones e as selvas do Camboja pelo espaço.

Há várias coisas positivas em “Ad Astra”. O filme tem momentos visualmente impressionantes, a banda sonora de Max Richter é inspirada e o elenco faz um trabalho acima da média — Brad Pitt é, como sempre, um ótimo ator principal e tem aqui mais uma interpretação carismática. Mas as qualidades de “Ad Astra” não disfarçam um guião que nunca passa do razoável e uma realização francamente desinspirada: passamos cerca de 30 por cento do filme em planos fechados na cara de Brad Pitt, que dá o seu melhor para tornar o filme interessante, mesmo quando este deixa de o ser. Tudo isto acompanhado pela narração omnipresente da personagem que interpreta e que comete o erro básico de explicar o que deveria ser mostrado.

O filme refugia-se tanto na voz-off, inspirada pelos filmes de Terrence Malick (especialmente nos traumas parentais de “A Árvore da Vida”), que se torna claro ser um artifício desenhado para esconder as imperfeições do guião.

As personagens secundárias são tão temporárias que não chegam a ter tempo suficiente para atingir dimensão dramática. O exemplo maior é a personagem de Liv Tyler, cuja relação com Roy é tratada como um mero acessório funcional da história; há muitas maneiras de descrever (ou até sugerir) uma relação amorosa realista, mas esta não é uma delas. Até as personagens com maior oportunidade para serem exploradas, como os companheiros de viagem de Roy, nunca ganham realmente vida; o co-piloto da nave é simplesmente uma pessoa sem estofo para situações de pressão e os outros são pouco mais do que figurantes do género “Astronauta #3”.

“Ad Astra” funciona melhor sempre que esquece as pretensões de profundidade emocional e nos oferece cenas básicas de ação ou nos mostra relances do seu universo criativo. Mas até nas poucas ocasiões em que James Gray decide ilustrar a sua visão do futuro, notam-se mais as influências visuais de “Blade Runner” do que uma identidade original — há uma sequência numa base lunar que parece uma homenagem à versão de 1982, e as cenas passadas em Marte são decalcadas do trabalho de Roger Deakins e Denis Villeneuve em “Blade Runner 2049”. Há que destacar o papel de Ruth Negga neste último cenário, uma nativa de Marte que apenas conhece o planeta Terra de memórias distantes. É, infelizmente, um ponto alto do filme que deixa sabor a pouco.

A ambição da sua premissa, inspirada em clássicos do passado, parece demasiada para os talentos de James Gray e Ethan Gross, os autores do guião. Da mesma forma que o realizador James Gray não é Alfonso Cuarón (“Gravidade”) nem Christopher Nolan (“Interestelar”), “Ad Astra” empalidece quando comparado com os novos clássicos espaciais.

Essa comparação até poderia ser injusta, mas o realizador colocou-se a si próprio nessa condição ao ter prometido “o retrato mais realista de viagens espaciais em filme”. Não o é. Pior, fez um filme sem bases para se suster a si próprio. A pretensa profundidade emocional e filosófica de “Ad Astra” é enganadora e todas as coisas boas que o orçamento de 80 milhões de dólares pôde comprar sofrem pela falta de substância do guião. Tudo isto culmina no final insosso que serve para confirmar que “Ad Astra” parece mais do que aquilo que efetivamente consegue ser.

Leia ainda o artigo da NiT sobre a vida de Brad Pitt antes da fama — quando era uma mascote de frangos e motorista de strippers.

James Gray e Brad Pitt no set de “Ad Astra”.
nota NiT: 67%