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Cinema

7 coisas que aprendi (ou confirmei) com o filme “Contágio”

Conta a história de uma pandemia global como aquela que estamos a viver com o coronavírus. E não acaba muito bem.
O filme tem 1h45 de duração.

Há quem diga que aquilo que estamos a viver parece um filme. Nunca no nosso tempo de vida assistimos a algo assim, nunca fomos “obrigados” a ficar isolados em casa, nunca ligámos a televisão e vimos notícias sobre um único tema. Estamos a viver uma pandemia global, por causa do novo coronavírus, e não nos passava pela cabeça que ele chegasse de forma tão rápida e que alterasse tão repentinamente as nossas vidas.

Bem, mas está de facto a acontecer. Ainda não é um filme — certamente daqui a uns anos vai resultar em vários, já que está a ser um acontecimento tão marcante em todo o mundo — mas já existem várias histórias de ficção idênticas àquilo que estamos a experienciar.

Entre livros, séries ou documentários, há um filme que é especialmente parecido — e que até disparou no número de vendas online nos EUA quando o coronavírus começou a ser o tema internacional do momento (mas antes de chegar a território americano).

Falo de “Contágio”, produção de 2011 realizada por Steven Soderbergh, que tem um elenco de estrelas. Matt Damon, Laurence Fishburne, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Marion Cotillard ou Kate Winslet são algumas delas.

Eu nunca tinha visto o filme inteiro e não gostei especialmente quando o vi na noite de 16 de março. Não tem uma narrativa incrível, tem bons atores mas papéis pouco fortes e acaba por ser pouco profundo nos temas que aborda. No entanto, consegue fazer um bom resumo (mesmo que superficial) daquilo que pode acontecer no caso de uma perigosa pandemia global, como aquela que enfrentamos na vida real.

É um filme que infelizmente é realista, com que nos conseguimos identificar, sem cenários pós-apocalíticos nem nuances de ficção científica, que usa os termos a que já nos habituámos a ouvir todos os dias (“isolamento”, “quarentena”, “paciente zero”, “período de incubação” e “distanciamento social” são alguns deles). E aqui ficam sete coisas que aprendi (ou confirmei) com ele.

1. A propagação é muito rápida (e a transmissão muito fácil)

Em “Contágio”, a propagação daquele vírus desconhecido e perigoso é bem mais rápida do que na pandemia que estamos a viver na vida real. Mas não é isso que faz com que o surto de coronavírus não seja bastante rápido. Os primeiros casos na China foram anunciados a 31 de dezembro, mas ainda nem sequer era sabido que se tratava de um novo vírus. Passaram apenas três meses e houve cerca de 880 mil infetados e mais de 43.000 mortos em quase 200 países.

Além disso, como sabemos, a transmissão é mesmo muito fácil. Como diz a especialista médica Erin Mears (Kate Winslet) na história, as pessoas estão sempre a tocar na própria cara — é um número que pode variar entre duas a três mil vez por dia, o que dá uma média de entre três a cinco vezes por cada minuto em que estamos acordados. Podemos nem nos aperceber, mas vamos tocando no nariz, coçando a zona à volta dos olhos ou mexendo no queixo com grande frequência. Também foi isso que levou a que a propagação do vírus fosse tão rápida em “Contágio”.

2. O isolamento é essencial

Por isso mesmo, o isolamento é totalmente essencial. Todos aqueles que puderem estar em casa (seja a trabalhar ou não) devem fazê-lo. A capacidade de contágio (R0) do coronavírus é de 2,7, o que significa que, em média, uma pessoa infetada transmite o vírus a outras 2,7 pessoas. Este termo e indicador também é bem explicado no filme. Se estivermos isolados em casa e sem contacto com outras pessoas, é a forma mais eficaz de evitar a propagação.

3. Tomar medidas a tempo é essencial — e a prioridade tem de ser a saúde das pessoas

Quando se trata de uma pandemia, estamos em contrarrelógio. Ou seja, quanto mais rápido agirmos, mais eficazes serão as medidas de contenção. No filme assistimos a algumas pessoas com poder de decisão a negarem-se a tomar certas medidas de forma tão imediata, porque no fundo estão em estado de negação e não sabem (ou não conseguem processar) o quão más as coisas vão ficar. Além disso, a prioridade tem mesmo de ser a saúde e não os lucros das empresas.

4. A forma como se comunica é vital

Há também algumas discussões em “Contágio” sobre a forma como se vai comunicar o que está a acontecer às pessoas. É vital que a mensagem certa passe de forma simples e clara (nem que seja uma frase como “Lave as mãos com regularidade”) e que não gere pânico. Devemos ser cautelosos, claro, mas o pânico nunca é benéfico.

5. Qualquer pessoa pode ser contagiada — até os médicos e especialistas profissionais

Foi noticiado recentemente que em Portugal 20 por cento dos infetados são médicos. Noutros países, mesmo que os dados sejam outros, há vários relatos de médicos, enfermeiros ou profissionais da área da saúde contaminados. Ou seja, mesmo aqueles que sabem todos os cuidados a ter, não estão imunes de apanhar o vírus e deixar-se contagiar. Até porque estão em contacto com infetados. É o que acontece também em “Contágio”, com a personagem de Erin Mears, que chega mesmo a morrer (sendo que no filme a taxa de letalidade é muito maior, quase de 20 por cento, sendo que a da Covid-19 está entre os dois e os três por cento — além disso, os sintomas são totalmente diferentes).

6. A ciência não consegue resolver nem prever tudo a todos os momentos

O grande problema da Covid-19 é que é uma doença provocada por um novo coronavírus. É um vírus ainda bastante desconhecido, que só agora, em tempo real, é que está a ser estudado. Logo, a pesquisa para desenvolver uma vacina ou um antiviral irá demorar, e temos simplesmente de aceitar que a ciência não consegue prever tudo a todos os momentos, e às vezes também não consegue explicar todos os acontecimentos.

Em “Contágio”, descobre-se a forma de produzir uma vacina, mas os cientistas e investigadores nunca detetam a origem do vírus nem têm a certeza de quem é o paciente zero. No caso desta história, vemos um morcego a irromper violentamente de uma bananeira (e a cortar-se), a contaminar um matadouro de porcos, sendo que um leitão é depois levado para um restaurante conceituado, o chef mexe na carne enquanto a trabalha e depois cumprimenta de forma calorosa uma cliente do espaço, que acaba por ser a primeira humana contagiada e dá início ao surto.

7. Esperemos não chegar à parte do caos

A segunda metade de “Contágio” — filme que tem cerca de 1h45 de duração — passa-se numa altura em que a humanidade é apoderada por uma sensação de caos. Há milhões de infetados e mortos em todo o mundo. Como não há recursos básicos (como comida e medicamentos), as pilhagens aumentam, os crimes violentos também, as forças de segurança perdem o poder e o instinto de sobrevivência leva pessoas a cometerem atos terríveis, num estado de autêntico caos. Obviamente não estamos sequer perto desse estado e são até inúmeras as iniciativas solidárias e de entreajuda em Portugal e no planeta, mas é assustador pensar que esse é um cenário minimamente realista e que não está tão distante quanto estava há três meses. Felizmente, a pandemia na China está aparentemente controlada e esperamos que o mesmo venha a acontecer em todo o mundo daqui a alguns meses, repondo a nossa vida normal. Até lá, o melhor é mesmo ficar em casa.