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Cinema

Crítica: Ben Affleck volta a ser um autista em “The Accountant”

Mas desta vez é de propósito – e isso não é uma coisa boa. A grande estreia de cinema desta semana é uma longa tortura até ao abismo.

Quando a filha de Robert de Niro decidiu que queria ser atriz, pediu ao pai um único conselho sobre representação. Ele, inteligente e pragmático quanto às limitações de Drena, disse-lhe apenas para não fazer demasiadas expressões faciais e, sobretudo, para não parecer que se estava a esforçar. É uma boa dica. E é uma dica que tem construído carreiras inteiras em Hollywood.

Ben Affleck é um desses exemplos de sucesso, porque percebeu que há locais onde poucos conseguem chegar. Isso não tem mal nenhum. Ele concentrou-se em “A Cidade” e cumpriu. Reforçou o estatuto em “Argo”. E quase deu um salto em frente no belíssimo “Em Parte Incerta” (mais por mérito do realizador David Fincher). Quase é mesmo a palavra-chave no percurso de Affleck. O seu mais recente filme, “The Accountant – Acerto de Contas”, que estreia esta quinta-feira, 3 de novembro, em Portugal, é um regresso ao lado mais negro de qualquer ator – a incapacidade crónica de nos transmitir qualquer sentimento.

Imagine um cruzamento entre Bruce Wayne (o Batman, na última versão interpretada por Ben Affleck), Léon (o assassino da obra-prima de Luc Besson) e John Nash (o matemático de “Uma Mente Brilhante”). É assim a personagem de Christian Wolf, um contabilista com síndrome de Aspergen que se entretém a matar pessoas enquanto assina as declarações de impostos dos cartéis.

A curiosa narrativa complica-se quando Chris é contratado para analisar uma fraude numa empresa de investigação robótica e percebe que ele próprio se transformou num alvo depois de descobrir o verdadeiro autor do desfalque de 60 milhões de dólares.

Vamos por partes. Enquanto Christian Wolf escreve centenas de números numa janela da tal empresa para parecer um génio (parece-lhe familiar?), conhece a jovem Dana (Anna Kendrick) por quem se apaixona. Apesar de os dois não terem o mínimo de química sempre que dividem os planos, vivem uma espécie de coito interrompido durante 128 minutos. Sobre Dana, nunca sabemos nada – o que, neste caso, não é necessariamente mau. Sobre Chris, vamos vendo uns flashbacks sobre a sua infância para percebermos que ele era filho de um militar que o ensinou a lutar e a matar pessoas para conseguir lidar melhor com o autismo. Vou repetir: o pai era militar e ensinou-o a lutar e a matar pessoas para lidar melhor com o autismo.

Esta premissa a partir da qual toda a personagem é construída não faz qualquer sentido. Como é óbvio. E o facto de o argumento escrito por Bill Dubuque se esforçar para nos fazer pensar que ela é credível é em si mesmo uma ofensa grave à inteligência de qualquer homem pós-moderno.

Pior do que isso só mesmo guardar a grande revelação do filme para o final. O homem (Jon Bernthal) que está a tentar matar Chris é o irmão dele. Não se preocupe, isto não é nenhum spoiler. Vai perceber o suposto twist nos primeiros 15 minutos.

Agora, duas pequenas tragédias. A primeira é o prestigiado J.K. Simmons, que entra a meio da história para interpretar o agente do Tesouro que manda investigar o misterioso contabilista. A sua figura, Ray King, tem a tridimensionalidade de um quadro de Picasso – ela está lá, mas só aparece depois da implosão do rabisco feito à pressa.

A segunda é o realizador Gavin O´Connor, que nos trouxera o ultra intenso “Warrior – Combate Entre Irmãos”, mas que nos deixou agora com uma lenta, cheia de clichés, pouco inovadora e fastidiosa caminhada em direção ao abismo.

nota NiT: 40%

ficha técnica

realização
Gavin O’Connor
elenco
Ben Affleck, J.K. Simmons, Anna Kendrick, Jon Bernthal
duração
2h08
género
Ação
estreia
3 de novembro de 2016