Cinema

Crítica: Meryl Streep é uma estrela de rock (literalmente)

Por muito mau que seja o filme, se Meryl Streep entra vale sempre a pena. “Ricki e os Flash” chega esta quinta feira a Portugal.

A história é um cliché e o enredo é desinteressante, tal como a maioria das personagens, mas Meryl Streep nunca deixa de ser Meryl Streep. Se acha que a atriz, aos 59 anos, deu uma prestação radical em “Mamma Mia!” (2008), agora, aos 66, ela dança, canta e toca guitarra ao estilo de um Mick Jagger feminino, na voz de Ricki – uma mulher que trocou a família pelo sonho de ser um bicho de palco numa banda de rock n’ rol chamada “The Flash”. O filme estreia esta quinta feira, 3, em Portugal.

Ninguém está a tentar convencê-lo a ir ver uma história sobre uma mãe distante que regressa para a ajudar os filhos crescidos (outra vez!), num drama igual a tantos outros, repleto de clichés e sorrisos forçados. Mas, caramba, é a Meryl Streep num palco de rock n’ rol, vai mesmo perder isto?

Ela prefere que a tratem por Ricki (“Linda é um nome que reflete uma pessoa que já não existe”). Casaco de cabedal, calças de ganga rasgadas, correntes, pulseiras, anéis, brincos, tatuagens e o cabelo feito de um emaranhado de tranças, nós e uma franja esticada para o lado. Apesar de parecer estar irreconhecível, é impossível não reconhecermos a magia de Meryl Streep na pele desta carismática estrela de rock com um vozeirão carregado pelo whisky.

Meryl Streep é um Mick Jager feminino, com um casaco de cabedal, tatuagens e o cabelo feito de tranças, nós e uma franja esticada para o lado

Ricki volta para a sua família quando o ex-marido (Pete – Kevin Kline) a contacta a pedir ajuda. Ao que parece, a filha (Julie – Mamie Gummer, que é a verdadeira filha de Streep) foi traída pelo noivo, e, agora, encontra-se num estado de profunda depressão, com intenções suicidas. O seu dia a dia passa-se no quarto, sem tomar banho, com a mesma roupa interior. Mas, como é lógico, tudo muda com a chegada da mãe roqueira que desaparecera há anos para animar as noites dos bares de Los Angeles.

De resto, é aquilo a que já estamos habituados. A madrasta que veio ocupar o lugar da verdadeira mãe é vista como um cruel antagonista (apesar de ser, na verdade, uma heroína que se responsabilizou por filhos que não são dela) e as atitudes de Pete revelam que ainda existem sentimentos por Ricki.

Tudo isto é barato e chato, mas o que interessa é a forma inacreditável como Meryl Streep consegue não só tornar este argumento da treta em algo tolerável, mas também como nos entusiasma em relação à sua personagem – que é muito completa. Por incrível que possa parecer, a atriz afirmou numa entrevista à FOX 5 que nunca antes tinha tocado guitarra – algo difícil de acreditar, depois de vermos o que ela faz em palco. “Ricki e os Flash” vale apenas pela protagonista, que vale o investimento – a atriz recebe em média entre 7 e 8 milhões de dólares por filme.