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Mike Rezendes: “Havia pessoas que contactavam o ‘Globe’ porque a Igreja não acreditava nelas”

Em 2002, um grupo de repórteres divulgou um enorme escândalo sexual na Igreja de Boston. A NiT falou com o jornalista português interpretado por Mark Ruffalo em “O Caso Spotlight”, que estreia esta quinta-feira.

“Spotlight, bom dia.” A conversa com Michael Rezendes podia ter começado assim, com uma chamada para o “The Boston Globe” — tal como acontece no filme de Tom McCarthy que estreia em Portugal esta quinta-feira, dia 28 — mas acabou por se fazer através de emails, trocados com a NiT no início desta semana.

Rezendes faz parte do grupo de jornalistas que, em 2002, investigou e publicou uma alargada reportagem sobre casos de abusos sexuais na Igreja Católica de Boston, com o conhecimento dos mais altos representantes. A investigação valeu à equipa um Pulitzer por Serviço Público e é agora contada no cinema, em “O Caso Spotlight”.

Uma das personagens principais é interpretada por Mark Ruffalo, que seguiu Mike Rezendes —um repórter brilhante, persistente mas socialmente desajustado — durante semanas para copiar todos os seus gestos e hábitos.

“O Mark Ruffalo passou muito tempo comigo. Visitou-me em casa, onde falámos durante quase um dia inteiro e grande parte da noite. Foi a minha sombra [seguia-o para todo o lado sem interferir] no ‘Globe’ enquanto eu fazia o meu trabalho”, conta o jornalista à NiT.

Quando o ator acompanhou pela primeira vez Mike Rezendes ao jornal, demoraram uma hora a atravessar a redação, porque toda a gente queria falar com ele.

Contudo, o primeiro encontro entre os dois deixou Rezendes pouco à vontade. O ator sentou-se junto à mesa da sala, começou a tirar apontamentos num bloco, a gravar a conversa com o iPhone e a tirar fotografias. “Isto é incrivelmente intrusivo”, pensou. Depois lembrou-se de que costumava ser ele a fazer o mesmo.

Em 2004 esteve nos Açores e encontrou a casa do avô João na aldeia de Água Retorta, em São Miguel

A atenção mediática que recebeu depois do caso ser divulgado, e sobretudo agora com o filme, é “estranha e por vezes até desconfortável” mas o repórter descreve a experiência como uma espécie de penitência:“Digo a mim próprio que mereço porque coloquei tantas pessoas do outro lado do meu bloco de notas durante tantos anos.”

“O Caso Spotlight” tem seis nomeações para os Óscares (que são entregues a 28 de fevereiro), incluindo Melhor Filme e Melhor Argumento Original. Mark Ruffalo compete na categoria de Melhor Ator Secundário e Mike Rezendes é o seu maior apoiante.

“Ele trabalhou muito, dedicou-se de alma e coração ao papel e o resultado foi brilhante. Não há outro ator vivo que pudesse ter feito um trabalho melhor”, explica à NiT.

Os dois têm muito em comum, incluindo as preferências literárias por Dylan Thomas e Raymond Carver. Foram educados na religião católica mas nenhum chegou a ser acólito.

“Eu safei-me porque coincidia com os treinos de basebol, a que o meu pai me deixava ir”,explicou Michael Rezendes em entrevista à “GQ” de novembro.

O pai era português e as suas origens são referidas no filme. “Os meus avós paternos vieram de São Miguel, nos Açores, para os Estados Unidos”, conta à NiT, embora admita que as ligações à comunidade portuguesa são agora muito poucas.

“Infelizmente, os meus avós e muitos dos meus outros familiares dos Açores já morreram e o meu contacto diminuiu.”

“Não há outro ator vivo que pudesse ter feito um trabalho melhor [do que o Mark Ruffalo]”

Ainda assim, em 2004 esteve em São Miguel para escrever uma reportagem sobre viagens para o “Globe” e acabou por visitar a aldeia do avô — antes já tinha estado em Lisboa e Coimbra.

Num email, envia-nos o artigo em anexo, a que na altura chamou carinhosamente “À Procura da Aldeia do João”, o nome do avô.

No texto conta um pouco da experiência pessoal, que partilhou com a mulher, Kim. Antes de sair de Boston, um dos seus familiares tinha-lhe garantido que a aldeia do avô João nem sequer aparecia nos mapas — um mito criado por demasiadas décadas de afastamento. Água Retorta está na zona este da ilha e Rezendes encontrou-a assim que pediu um mapa na agência onde alugou um carro.

Depois de curvas, chuva e várias horas de viagem, Mike chegou ao ponto de partida dos seus antepassados. E a casa do avô João estava lá, ao fundo de uma rua estreita, na extremidade da povoação. Por perto não havia ninguém, o café dos amigos da família estava fechado e ao longe ouviam-se apenas alguns agricultores a trabalhar.

“Então eu e a Kim aproveitámos o silêncio para nos sentarmos em frente à pequena casa do João e imaginámo-la há 100 anos, rodeada por um caminho de terra, com meia dúzia de crianças lá dentro, sem água ou eletricidade”, escreveu Mike Rezendes na sua reportagem, publicada no jornal de Boston a 4 de abril de 2004.

O jornalista jurou que um dia voltaria mas isso ainda não aconteceu. Entretanto, ganhou dezenas de prémios e cobriu outros tantos temas, como casos de corrupção, suicídios nas prisões e a segregação nas escolas dos EUA.

Formou-se em Línguas (Inglês) na Universidade de Boston, começou a sua carreira no “The Washington Post, passou pelo “San Jose Mercury News” e pelo “Boston Phoenix” antes de chegar ao “The Boston Globe”. É aí que ainda hoje continua, na equipa de investigação Spotlight — que agora tem seis jornalistas, mais dois do que na época dos acontecimentos retratados no filme.

No filme houve a possibilidade da sua personagem ter um caso com a Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams)

Quando o projeto avançou para o cinema, os verdadeiros jornalistas estavam conscientes de que podiam ser incluídos elementos ficcionais para tornar o relato mais apelativo. Uma das sugestões era um caso entre as personagens de Ruffalo e Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer).

“Estava em cima da mesa mas felizmente o realizador e o argumentista sentiram que isso diminuiria a história. Penso que tivemos sorte”, explicou Pfeiffer ao site “Deadline”.

Desde que a investigação foi publicada em 2002, cada um dos grandes intervenientes passou para projetos diferentes mas, atualmente, quatro dos seis nomes principais continuam a escrever para o “Globe”.

Matt Carroll (Brian d’Arcy James) tornou-se professor e deu aulas durante sete anos, mas sentiu falta da sua rotina e regressou. O mesmo aconteceu com Sacha Pfeiffer, que acabou por deixar um programa de rádio que apresentava para se juntar novamente a Mike Rezendes (Mark Ruffalo)e Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton).

Já Ben Bradlee Jr (John Slattery) tirou uma licença sem vencimento para escrever um livro de Ted Williams. Marty Baron (Liev Schreiber) é o atual diretor do “The Washington Post”.

Segundo Mike Rezendes, houve outras coisas que mudaram. “A personagem de Ruffalo vivia como um monge. Ainda vivo na mesma zona da cidade, mas tenho um apartamento melhor agora.

14 anos após a publicação do escândalo, os jornalistas continuam a ser abordados de vez em quando. Mas nada que se compare com os milhares de relatos que ouviram nos meses seguintes, em 2002.

“Fomos inundados com feedback. Tocaram-me sobretudo as histórias das vítimas que vinham a público pela primeira vez ou que contactavam o ‘Globe’ porque a Igreja, noutras partes do país, não acreditava nas suas acusações”, recorda à NiT.

Uma história, em particular, ficou sempre presente na memória de Michael Rezendes. “Foi contada por um padre católico de Nova Iorque que tinha sido abusado por um padre quando era adolescente. O irmão dele também tinha sido abusado pelo mesmo padre.”