Moda

Porque é que a nova coleção sem género para miúdos da Zippy é tão polémica?

Nas redes sociais centenas de pessoas criticaram as peças infantis, todas para rapazes e raparigas. A marca já reagiu.
Campanha de "Happy".

Domingo, 3 de março. Eram 19h05 quando a Zippy partilhou uma imagem com muitas das cores do arco-íris na página oficial de Facebook. Na descrição, anunciava aos mais de 390 mil seguidores a “Happy”, a primeira coleção infantil sem género (o que significa que qualquer peça pode ser usada por um rapaz ou por uma rapariga), para miúdos entre os três e os 14 anos. 

“Nesta cápsula, as cores assumem total protagonismo. Cada cor procura representar uma personalidade e cada peça a capacidade de celebrar e agregar cada uma delas, reforçando o conceito de togetherness [união]”, escreveu a marca portuguesa.

No comunicado enviado às redações, três dias depois, a Zippy explicava melhor o objetivo da nova campanha: a marca “lança a sua primeira coleção ungendered [sem género], ‘HAPPY’, procurando celebrar a individualidade e a liberdade de expressão de cada um”. 

À partida, tudo indicava que a linha ia ser bem recebida. Afinal, são cada vez mais as campanhas portuguesas de aceitação e igualdade de género e a indústria da moda tem tido um papel relevante nesse campo.

Basta fazer, por exemplo, uma análise rápida ao que se passou na última edição da ModaLisboa, entre 6 e 9 de março, na qual vários criadores portugueses usaram a passerelle para mostrarem que cada um pode (e deve) vestir o que quiser. Dino Alves, inclusive, encerrou o evento com um manifesto sobre a causa (leia o artigo da NiT sobre o desfile).

Porém, poucos dias depois do anúncio da “Happy”, instalou-se a polémica nas redes sociais. Polémica essa que se tem vindo a intensificar nos últimos dias.

Os comentários negativos

Muitas pessoas têm manifestado o seu desagrado no Facebook, acusando a marca portuguesa de “ideologia de género”. “Nem quero acreditar. A Zippy prefere perder clientes de famílias numerosas que durante anos contribuíram para o vosso sucesso, em nome da inclusão do genderless que mais não é do que um atentado às crianças. As crianças nascem rapazes e raparigas e não vai ser uma moda estapafúrdia que vai mudar a biologia, a ciência e a evolução antropológica do ser humano. Zippy nunca mais”, escreveu Patrícia Sousa Uva.

Rosarinho Ponte concordou: “Uma vergonha!! Zippy nunca mais”. E Mafalda Alvim também: “Nunca mais Zippy, adeus. Não percebem que nós pais não queremos isto para os nossos filhos?”

“Adeus, Zippy. Nem mais um euro e vou partilhar com família e amigos. Gravíssimo. Entraram nesta campanha de promoção de ideologia de género”, disse Mariana Duarte Silva. Muitos destes comentários (e muitos mais que se podem ler nas redes sociais) são acompanhados pela hashtag #deixemascriancasempaz. 

Foto de MC Somsen.

Quem também se mostrou incomodada com a coleção foi Joana Bento Rodrigues, a ortopedista que em fevereiro deste ano ficou conhecida por ter escrito uma crónica polémica para o jornal “Observador”, na qual garantia, por exemplo, que a mulher “gosta de cuidar e receber e assume, amiúde, muitas das tarefas domésticas, com toda a sua alma, porque considera ser essa, também, a sua função”. 

Na sua página de Facebook, a assumida militante do CDS escreveu: “Como não pactuo com a agenda ideológica, a Zippy acaba de perder uma cliente assídua. Espero que mais sigam a conduta, num País que, embora de brandos costumes, se pauta pela honestidade intelectual de reconhecer que há meninos e meninas e que a Família natural deve nortear a sociedade.”

A NiT tentou entrar em contacto com todas elas. Porém, até à data de publicação deste artigo, não obteve resposta.

A reação da Zippy

Durante os últimos dias, a marca portuguesa respondeu a dezenas de comentários nas redes sociais. Em alguns deles avisou, inclusive, que tinha enviado uma mensagem privada à pessoa em causa. Contactada pela NiT, a Zippy desvalorizou a situação e prefere não fazer mais declarações para não alimentar a polémica.

“A coleção ‘Happy’ não tem qualquer associação a ideologias ou movimentos, sejam eles quais forem. Esta é uma coleção cápsula com peças unissexo, que podem ser usadas tanto por meninos como por meninas, e que materializa o espírito prático e funcional da Zippy.”

“Com esta linha, queremos ajudar os pais na hora de vestir as suas crianças, dando-lhes opções versáteis e que podem ser passadas de irmãos para irmãs, de primas para primos, e vice-versa. A Zippy continuará a desenvolver produtos e soluções para crianças que ajudem os pais no seu dia-a-dia, descomplicando a rotina das famílias.”

A opinião das figuras públicas

Sabendo do poder de comunicação que têm nas redes sociais, foram já várias as figuras públicas que usaram o Facebook e o Instagram para mostrarem o seu apoio à marca portuguesa. 

Nuno Markl foi um deles: “(…) diria que não vejo nada de mal nem neste cartaz, nem em roupas que servem a rapazes e raparigas. Em nenhum momento desta campanha vejo alguém dizer coisas como ‘namorem com pessoas do mesmo sexo’ ou ‘rapaz, sê uma rapariga’ ou ‘rapariga, sê um rapaz’. Quando vejo pessoas, espumando de fúria e apelando ao boicote, dou por mim a chorar a rir, primeiro (a ira insana das pessoas consegue ser espetacular) e depois a lamentar que essa energia não seja posta a render em ações que façam, de maneira objetiva, o Bem”.

Também Rodrigo Gomes, repórter e locutor de rádio, escreveu no Instagram, acompanhado de uma fotografia com o filho: “Em relação à polémica da Zippy sobre a roupa sem género. Um dia o meu filho estava com um biberon cor de rosa e outro menino disse-lhe ‘cor de rosa é de menina’ e o meu filho respondeu-lhe sem pestanejar ‘olha, agora é de menino’. E resolveu o assunto. Não há agendas na educação lá em casa. Só há educação. E o casaco que ele tem na foto é da secção de menina da Zara.”

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