Moda

Nuno Gama: “Dragarem o Sado é como se estivessem a dragar-me a mim”

O criador português apresentou a nova coleção este sábado, 7 de março, na ModaLisboa, na capital.
Foi bonito.

O encontro estava marcado para as 20 horas deste sábado, 7 de março, no backstage da ModaLisboa, que acontece nas Antigas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército, na capital portuguesa. À nossa espera estava Nuno Gama, o gigante criador português que dispensa apresentações — e que consegue sempre surpreender em cada edição. 

Nuno Gama estava responsável pelo último desfile da noite, às 22h30, por isso esperavam-se quase três horas de últimos preparativos, algum stress, mas sempre com a boa disposição típica deste setubalense.

Foi, aliás, em Setúbal que o criador se inspirou para criar a linha de primavera/verão 2020. Depois de a NiT ler a apresentação no press book — que começava com a frase “Grito contra as dragagens onde o céu se funde com o rio, num azul Sado” — não restavam dúvidas: a coleção ia mesmo tocar num ponto bastante importante para os setubalenses.

“Dragarem o Sado é como se estivessem a dragar-me a mim. O que está a acontecer em Setúbal leva-me de volta à minha infância. Lembro-me da primeira vez que vi fazerem aquilo, levaram a areia da praia, os cavalos marinhos, vários peixes”, conta à NiT.

Nuno Gama tem uma opinião bastante vincada sobre este tema. “Já temos o porto de Sesimbra, para que é que queremos outro? Numa zona paradisíaca daquelas, com o turismo sempre a crescer, uma das zonas mais privilegiadas do País, para mim não faz sentido nenhum. E qualquer coisa que passe pela destruição de seres vivos, sou contra. Em qualquer zona, mas esta é minha, está mais próxima do meu coração”, explica.

Por isso, decidiu usar a moda como forma de expressão. Nesta nova linha, que o criador apresentou em formato See Now Buy Now, destacam-se as linhas e silhuetas próximas do corpo, que contrastam com proporção e volume. É, sem dúvida, uma linha bastante adaptada aos looks do dia a dia.

“Esta coleção é um bocadinho a repercussão daquilo que nós temos vindo a fazer, eu sou muito do universo do casaco. A parte formal tem uma importância muito grande na minha estrutura profissional. A evolução aqui passa, se calhar, por um vestuário um bocadinho mais casual, mais descontraído, é o tipo de coisas que vestimos na cidade no dia a dia para passear, para ir à praia, para comer um gelado, para ir tomar um café, por exemplo.”

Na passerelle, o tom que mais esteve em destaque foi o azul. “É o azul da Arrábida, que é único. Quando o céu se junta ao mar, não sabemos onde acaba um e começa outro [ri-se]. Lembro-me de quando era miúdo e íamos a subir a serra da Arrábida de carro, há uma curva antes do cruzamento da estrada antiga lá em cima. A sensação que tinha é que íamos cair todos no mar e eu pensava antes ‘será que hoje o azul está colado ao céu?’. Desde que me lembro que tenho essa imagem, esse azul forte. São as minhas memórias de infância. Não mas tirem. Tirarem-me isso é tirarem-me tudo“, diz à NiT.

Como sempre, Nuno Gama fez um espetáculo arrepiante. No final, com todos os manequins na passerelle, surgiu Virgul, que cantou uma versão surpreendente de “All We Need Is Love”. Toda a gente, sem exceção, aplaudiu de pé.

Como começou a carreira de Nuno Gama?

Nuno Gama nasceu a 22 de abril de 1966 e viveu até à adolescência em Azeitão. Nessa altura, mudou-se para o Porto com o objetivo de fazer o curso de moda no Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, mais conhecido por CITEX. Concluiu os estudos em 1991, data em que criou a própria marca: Nuno Gama Têxtil.

Ainda nesse ano, o criador apresentou a sua primeira coleção na ModaLisboa. Dois anos mais tarde, em 1993, ganhou o concurso para a criação das fardas dos funcionários dos museus portugueses — prémio que lhe deu algum nome. Seguiram-se as presenças em mais eventos nacionais (inclusive o Portugal Fashion) e em feiras pelo mundo, como a Nouvel Espace, em Paris, ou Gaudí, em Barcelona. 

Em 1996, abriu em Lisboa a primeira de nove lojas. Hoje, vende para todo o mundo: Estados Unidos, Japão, China e Angola, por exemplo. No mesmo ano ganhou um Globo de Ouro, na categoria de Personalidade do Ano, e a 9 de junho de 2015 foi reconhecido como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2016, completou 50 anos e assinalou a data com a 50.ª coleção. A NiT aproveitou a celebração para entrevistar o sobrinho do escritor Sebastião da Gama, que até nos confidenciou que, se não fosse estilista, teria sido cozinheiro.

Recorde a entrevista e carregue na imagem para ver o desfile de Nuno Gama.

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