Moda

Tem 20 anos e é uma modelo de sucesso da Chanel, mas tentou suicidar-se

A jovem Adut Akech revelou que está a atravessar uma profunda depressão.
Também desfila para Valentino.

Quem vê as fotografias do Instagram de Adut Akech não dirá, com certeza, que 2019 foi um ano duro para esta jovem de 20 anos. Manequim de grandes casas como Chanel, Givenchy, Miu Miu e Valentino, participou em várias Semanas da Moda e foi capa da “Vogue” japonesa e alemã.

Apesar de todo o sucesso profissional, Adut não se sente bem e usou as suas redes sociais para admiti-lo, sem medos. “A nível pessoal, 2019 foi o pior ano da minha vida”, começou por contar no domingo, 5 de janeiro, aos mais de 750 mil seguidores que tem no Instagram.

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On a personal level 2019 was the worst year of my life for me Adut the human and not Adut the model. I started off 2019 with a mindset that I was just going to put myself first and be happy. But that was not the case at all. After losing some family members I went into dark place, I got really depressed and I started losing myself. I started becoming numb to everything. It got really hard for me to express any emotion and the people around me started noticing. It became really hard to express my excitement and gratitude for all the amazing things happening with my career. When I noticed the change in myself due to my depression I knew I had to get professional help. I started seeing a therapist. I knew it was time to put mental health first, it was time to heal by allowing myself to feel pain and to grieve properly. It was time to start protecting my energy. I started getting rid of toxic habits and negative people in my life. But with everything that was happening in my personal life and with my career it was all too overwhelming and my anxiety got really bad. To a point where I was having panic attacks every night for months. I decided to take time off work. I took a two month break to be home with my family and deal with my mental health properly and not in hectic environment. I felt depressed to a point of wanting to end it, but for my family and myself I had to fight what I could say was the hardest battle of my life. Every day was a struggle but I did everything I could to get a better mental state of mind. I started feeling better and I started seeing things clearer. Biggest lesson I learned after all this, is the importance of letting go of all things toxic. Don’t hold on to toxic relationships because of comfort, or how long you’ve know the person or the type of relationship ya’ll have. Always put yourself, mental well-being, peace and sanity first. I’ve been growing and evolving everyday. I’m at a point in my life where if someone or something is not bringing positivity into my life it has to go. 2020 is very personal ! 🙏🏾 I share my journey because I know someone somewhere is going through the same thing I want them know they’re not alone.

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“Comecei 2019 com a mentalidade de que iria colocar-me em primeiro lugar e ser feliz. Mas não aconteceu isso. Depois de perder alguns membros da minha família, entrei num lugar escuro, fiquei muito deprimida e comecei a perder-me. (…) Cheguei a um ponto em que estava a ter ataques de pânico todas as noites. E isso aconteceu durante meses”, continuou.

A situação tornou-se tão grave que a manequim ponderou o suicídio. “Senti-me deprimida ao ponto de querer acabar com tudo, mas pela minha família e por mim resolvi lutar”, explicou. Depois de se resguardar dois meses, Adut acredita que 2020 vai trazer-lhe novas metas e, com a ajuda de um terapeuta, vai conseguir dar a volta. Afinal, há dezenas de maisons a quererem trabalhar com ela.

Mas para percebermos este sucesso é preciso contar a sua história e viajar até 25 de dezembro de 1999, data em que Adut Akech nasceu no Sudão do Sul. Segunda filha mais velha de seis irmãos, viveu até aos sete anos num campo de refugiados em Kakuma, no Quénia, altura em que se mudou para Adelaide, uma cidade costeira na Austrália.

“Por mais que não quisesse deixar para trás a vida que conhecia, sabia que o Quénia não tinha muito para me oferecer e à minha família”, disse numa carta que escreveu para a “Vogue” australiana. Na época, a jovem e uma tia foram juntar-se à mãe e irmã mais velha de Adut que já se tinham mudado dois anos antes. “Tiveram esse tempo todo a tratar dos vistos, um processo muito complicado”, confessou à mesma publicação.

Quando finalmente chegou o dia de se juntar à família, foi um misto de emoções para uma miúda tão nova. “Fiquei muito triste por deixar os meus amigos. Fiquei com medo de ter que começar uma nova vida, mas ao mesmo tempo empolgada ao perceber como seria na Austrália.”

Adut recorda que a primeira noite naquele país foi decisiva. “Lembro-me de dizer ao jantar: ‘Mãe, obrigada por me trazeres para a Austrália para uma vida melhor. Prometo que vou receber a minha educação e fazer com que te orgulhes de mim“, explicou.

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@chanelofficial fall2018 haute couture bride closing the show!!! 👰🏾😩 Wow where do I even begin. After opening the last Chanel cruise show, I honestly didn’t think it could get any better but I was wrong because I just closed this one. There is no amount of words that can express what this moment means to me. The beauty of having a dream, is watching it come to life. Cannot believe I just made history by being Chanel’s second black couture bride, this is one of my most proudest achievement!!! @karllagerfeld @amandaharlech @aurelieduclos and the whole Chanel team thank you so much from the deepest bottom of my heart for once again believing in me. It was a life time honour being the chosen bride to close your beautiful show in the MOST breathtaking dress I have ever seen in my life. This was just a special moment that I will always remember and cherish for as long as I live. Thank you to everyone who has stuck by my side and continuously always supporting me. You guys really motivate me to thriving for my towards my dreams everyday. Knowing that I am an inspiration to someone is of the best feeling you could endure as a humanbeing. To the young girls and boys who look up to me I want you guys to know no matter who you are, where you come from or what you have, as long as you have a dream it is achievable as long as you put in hard work, give it your all, stay dedicated, determined and most importantly never give up because you will make that dream a reality at some point. Makeup by @tompecheux Hair by @sammcknight1 This is for the dream chasers! ❤️🙏🏾✊🏾😘

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Uns dias depois, a agora manequim foi para uma escola primária aprender inglês. Como os professores não conseguiam soletrar o nome dela, passou a ser conhecida simplesmente por “Mary”. “Na altura odiava os fins de semana porque só queria estar a aprender todos os dias”, disse à “Vogue”.

Com o passar dos anos, Adut começou a ocupar os tempos livres a ver televisão. “Assistia ao programa da ‘Victoria’s Secret’ e comecei a admirar pessoas como Alek Wek, Naomi Campbell ou Tyra Banks. Lembro-me de dizer que queria ser como elas, que queria estar nas passerelles”.

O sonho acabou por realizar-se aos 13 anos quando desfilou alguns looks feitos pela tia. “No minuto em que subi ao palco apaixonei-me automaticamente e decidi que era mesmo aquilo que queria fazer”, explicou à publicação. Na altura, a mãe não achou muita piada, mas acabou por aceitar — desde que a jovem continuasse a estudar.

Quando fez 16 anos, Adut resolveu ir bater à porta da Chadwick Models, uma agência de modelos sediada em Sidney, com quem acabou por assinar contrato. Desfilou pela primeira vez na Melbourne Fashion Week num dia que ficará para sempre na sua memória.

“Cheguei a casa nessa quarta-feira e recebi uma chamada do Joseph Tenni, booker da agência. Disse-me que eu ia para Paris na sexta como manequim exclusiva de Saint Laurent. Eu nem mala tinha, tive de ir comprar”, contou numa entrevista à revista “I-D“.

Quando chegou a França tudo começou por correr mal. Adut teve uma lesão e teve quase para não desfilar. “O meu pé estava três vezes maior do que o normal. Comecei a preparar-me para não entrar no desfile, mas eles foram super compreensivos”, contou à mesma publicação.

A partir daí, a manequim nunca mais parou. Tornou-se exclusiva da casa francesa durante três temporadas e próxima do diretor criativo. “Estou envolvida em quase todas as campanhas desde que ele se tornou diretor criativo [em 2016]. Fiquei tão perto dele e da equipa. Eles são como se fossem da minha família“, disse.

Assim que pôde desfilar para outras casas assinou contrato com a Chanel, Miu Miu, Valentino e Givenchy, marcas com quem trabalha em todas as Semanas da Moda, duas vezes por ano. À parte disso, Adut já foi oito vezes capa da “Vogue”. A última, fotografada em 2019 quando iniciou a depressão, é a edição australiana de janeiro deste ano. Adut foi também distinguida pela “Time” como uma das 100 manequins mais promissoras desta década.

Agradece todo o sucesso à mãe, com quem diz ter uma relação muito especial. “Quando era mais jovem dizia que queria ser exatamente igual à minha mãe. Queria fazer tudo o que ela fez. Gostava que as minhas futuras filhas olhassem para mim da mesma maneira que eu sempre olhei para a minha mãe quando era criança”, disse.

Embora esteja em processo de recuperação, Mary, como é conhecida na Austrália, está confiante num futuro feliz. “Estou num ponto em que se alguém ou algo não estiver a trazer positividade para a minha vida eu não quero tê-lo perto de mim. Partilho convosco a minha jornada pois sei que alguém em algum lugar está a passar pelo mesmo. E quero que saiba que não está sozinho”, concluiu na publicação de 5 de janeiro no Instagram.

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