Lojas e marcas

Passei 24 horas sem dinheiro na carteira — só com um cartão de pagamento

Durante quatro dias, quatro colaboradores da NiT deixaram as notas e as moedas em casa para aderirem ao movimento #CashlessLife. 

Numa era em que tudo à nossa volta é digital, faz sentido continuarmos a usar moedas e notas para comprar o que nos apetece? É possível viver apenas com um cartão? Isso é mais ou menos seguro? Consigo poupar dinheiro dessa forma ou acabo por comprar coisas mais caras por não estar a olhar efetivamente para o dinheiro? Foi precisamente para responder a estas e outras perguntas que quatro colaboradores da NiT decidiram viver apenas com um cartão durante um dia inteiro. No fundo, decidiram ter uma #CashlessLife. Esta foi a experiência da Filomena Nascimento.

Vou começar com uma declaração de interesses: não gosto muito da ideia de só ter cartões na carteira. Sei que são uma das formas mais seguras e práticas de pagamento mas já tive algumas más experiências por não ter dinheiro a sério (é assim que lhe chamo) no porta-moedas. Por isso, o meu sábado foi um dia de profunda ansiedade: será que conseguiria viver cashless?

Ela, a ansiedade, começou logo às 9 horas, quando saí de casa em Campolide, Lisboa, apenas e só com o cartão — não queria correr o risco de sucumbir à súbita vontade de agarrar nas moedas à primeira dificuldade. A minha rotina de sábado é sempre igual. Vou a pé até ao quiosque do jardim do Príncipe Real para comprar o jornal “Expresso”. Quando estou a três passos de chegar à fila, lembro-me de que não posso pagar com moedas. Teria a vida tão mais facilitada se aqueles tipos aceitassem cartão. “Calma, Filomena, vai haver uma alternativa”. Como já perceberam, eu não gosto de nada que fuja à minha agenda mental do dia.

Felizmente, mesmo do outro lado da rua, existe uma Padaria Portuguesa. E, felizmente também, está um “Expresso” abandonado em cima da mesa — por um cliente ou pela própria Padaria. A verdade é que não sei, nem me interessa. É meu e vai acompanhar aquele belíssimo chocolate quente e pão de Deus com manteiga e queijo. Pago tudo com cartão e sem qualquer problema. Parece que o jogo ficou empatado: cartão 1, moedas 1.

Cerca de uma hora depois, parto em nova aventura naquela zona de Lisboa. Missão: comprar um presente para a minha melhor amiga, que faz anos no dia seguinte. Passo por várias lojas até encontrar o fato de banho perfeito. Entrego o cartão para pagar e depois de alguns segundos em silêncio, entro num misterioso diálogo com a empregada. Afinal, não posso comprar aquele fato de banho porque o valor é inferior a 20€ — e aquela loja só aceita cartões a partir dali. Chateada, fui buscar outra coisa e voltei à caixa.

— Ouça, isto está a demorar algum tempo, não? É erro?

— Não, é normal demorar mais tempo. Há muita gente a fazer compras por esta altura do dia.

— Como assim? Mas qual é a ligação entre o sistema desta loja e o das outras?

— Pois, isso já não sei. Só sei que aos fins de semana é muito pior.

Acabei por não comprar o que queria, mas o que consegui. Pior para eles, que perdem negócio. 

Apanho o autocarro 58 na paragem do Miradouro de São Pedro de Alcântara e uso o meu passe (que é carregado todos os meses por cartão) para seguir até ao Cais do Sodré. Segue-se um almoço na pizzaria Casanova, ali ao lado do Lux, com a Cláudia, aquela minha amiga que faz anos no dia seguinte e que fica demasiado entusiasmada quando lhe conto que estou a fazer esta reportagem. “Ai, isso vai ser um grande teste para ti”, volta a lembrar-me.

A minha fama de não gostar de cartões já tem alguns anos e é o resultado de vários embaraços. Como aquela noite em que fiquei pendurada num restaurante na praia porque não levei notas e só me disseram que não aceitavam cartões quando chegou a conta — claro que tive de ligar a um amigo para vir ter comigo e pagar a dívida. Ou todas as dezenas de vezes que não pude simplesmente beber um café porque o valor era demasiado baixo para esta forma de pagamento. Tudo isso me irrita. 

Mas devo confessar que desta vez, no Casanova, as coisas até correram bem. Depois daquelas célebres discussões com a Cláudia sobre quem é que iria pagar o almoço, apliquei o célebre truque do “já volto”. Ou seja, fui ao balcão e paguei tudo rapidamente em cartão, sem necessidade de estar a fazer contas. Ela ia fazer anos dali a umas horas, que amiga seria eu se tivesse aceitado dividir a conta?

Em troca, recebi uma boleia para casa, onde passei o resto da tarde. Eu imaginava que ela iria ser calma, mas depois fui tomada de assalto por outro pensamento. “Logo à noite tenho um jantar em casa de uns amigos no Campo Pequeno. E agora, como é que eu vou para lá?”

Nesta altura, vou explicar-vos que existem dois problemas na minha vida que provocam vários outros problemas. Primeiro: não tenho carta de condução — o que, aos 39 anos, não é apenas um problema. É também ridículo. Segundo: o meu telemóvel está avariado e não faz o download de apps — sim, eu sei, também é ridículo. Se juntarem os dois dramas e lhe puserem esta experiência em cima, vão chegar à minha dúvida existencial. Solução evidente: chamar um táxi. Bolas, e como é que lhe pago? Solução do tempo de adolescente: pedir ajuda à minha mãe. Ai, como a vida é um círculo vicioso.

“Mãe, podes por favor chamar-me um Uber para as 19 horas para minha casa e pedir-lhe para me levar ao Campo Pequeno?” Meu Deus, eu fiz realmente isto…

Este artigo foi escrito em parceria com a Mastercard.

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