Decoração

Do ódio ao amor: a história da cadeira de plástico mais vendida no mundo

Design perfeito ou aberração? A opinião divide-se, mas ninguém nega que atingiu o invejável patamar dos objetos omnipresentes.
Onde você estiver, ela está lá.

Vá até à praia e elas estão por lá. Estão na esplanada do café do bairro. Empilhadas às dezenas de madrugada, cuidadosamente arrumadas ao longo das marginais ribeirinhas. Provavelmente tem uma em casa. Apanhe um avião para o outro lado do mundo e o cenário é exatamente o mesmo. A adivinha não é difícil de desvendar.

Não tem mais de meio século de história e, num tão curto espaço de tempo, conquistou o mundo — e nem sempre merece a devida consideração. É, aliás, ódio de estimação de muitos, apesar de ser também considerada como uma obra prima do design. De tal forma que a autaqruia de Basileira, na Suíça, baniu-as dos espaços públicos entre 2008 e 2017 por serem consideradas uma mancha na imaculada paisagem da cidade.

Em 2011, o professor do MIT Ethan Zuckerman, a propósito da cadeira, recordava as palavras do autor norte-americano Ian Frazier. “Na parte alta da praia uma cadeira de pátio de plástico branco comandava a vista. Alguém a terá lá posto para desfrutar de uma cerveja ou para um banho de sol de inverno. Pensando bem, podia ser apenas lixo do mar. Vi cadeiras idênticas nas fotos de Lagos, na Nigéria, em lixeiras de cidades no Times. Uma foto de um memorial em honra de um líder da Al Qaeda na Jordânia mostrava uma fila destas mesmas cadeiras dispostas numa tenda. Eu próprio tenho seis. Estas cadeiras de plástico moldado pertencem à crescente categoria de objetos omnipresentes”, escreveu em 2011 na revista “New Yorker”

Duas celebridades: a cadeira de plástico e o Muro das Lamentações

É provavelmente uma das cadeiras mais vendidas em todo o mundo e um exemplo perfeito da produção em massa e da globalização. Económica, utilitária, leve, barata, simples. Esta é a história da cadeira que tomou de assalto as nossas ruas, casas e também as nossas vidas.

O monobloco

Conhecemo-las simplesmente por cadeiras de plástico. Os entendidos apelidam-na de cadeira monobloco, isto porque é feita totalmente de um único bloco indivisível de plástico — concretizando o antigo sonho dos designers que remonta ao início do século XX. Para encontrar algo deste género é necessário recuar até 1946, ano em que o formato foi criado pela primeira vez pelo designer canadiano D.C. Simpson.

Inventado o formato, coube aos seus sucessores desenrascar todas as qualidades que a tornariam uma peça de design inatacável. Foi preciso esperar cerca de 20 anos para que o mundo estivesse preparado para acolher as cadeiras de plástico moldado. O dinamarquês Verner Panton agarrou no modo de fabrico e criou a primeira cadeira monobloco produzida em massa. O italiano Vico Magistretti repetiu o feito em 1961 com o seu modelo Selena.

A Fauteuil 300.

Foi preciso esperar até 1972 para que um engenheiro francês chamado Henry Massonnett combinasse a genialidade do design a um método de produção simples, eficaz e de baixo custo — para dar origem à que é considerada como o primeiro protótipo da barata cadeira de plástico, a Fauteuil 300. Os exemplares passarem, a partir desta data, a ser feitos em menos de dois minutos.

Com o trabalho quase todo feito, restou à Grosfillex apurar o desenho da cadeira, que no início dos anos 80 já se assemelhava ao que conhecemos hoje. Com mais ou menos variantes, rendilhados ou estrias, a cadeira de plástico é hoje mais ou menos igual em todo o mundo: igualmente barata, simples, fácil de limpar e de arrumar.

Como é feita

Tão ou mais importante do que o design no sucesso deste objeto, é o método de produção rápido e barato que realmente fez destas cadeiras uma escolha óbvia para a maioria dos consumidores.

Feitas maioritariamente em polipropileno, usam moldes de injeção nos quais é inserido o material aquecido a 220ºC, que depois de arrefecido resulta numa cadeira feita apenas de um único bloco. Daí o nome, cadeira monobloco.

Um poluente global

É o exemplo paradigmático do fenómeno que hoje une comunidades, países e continentes. Por outro lado, simboliza igualmente a omnipresença nociva dos plásticos, de objetos baratos de consumo rápido.

A maioria do mobiliário de plástico não é reciclável e a sua presença um pouco por todo o mundo coloca mais um entrave na ambição de ter um planeta menos poluído e uma sociedade menos dependente de materiais não sustentáveis.

Felizmente, começam a surgir soluções. Criativos como Kostantin Grcic voltaram ao ateliê e aceitaram o desafio de aperfeiçoar aquele que, até aqui, era considerado um design perfeito. O designer alemão criou a Magis, uma cadeira monobloco feita de polipropileno reciclado, leve e ecológica — e bonita.

 

No seu habitat natural.

“A cadeira de plástico monobloco vendeu milhões e milhões de exemplares, mas ao mesmo tempo está repleta de conotações negativas: é vista como barata e feita e todos concordam que o seu uso global está a poluir o planeta”, revela Grcic. 

A esperança reside precisamente nos materiais biodegradáveis que podem substituir os plásticos não-recicláveis usados durante décadas. Seja como for, o design mantém-se inatacável. Em 1997, o designer Verner Panton sublinhou os méritos do tão odiado objeto.

“Independentemente do que pensem sobre o seu design, a ideia por detrás da monobloco roça a genialidade: criar uma cadeira de jardim confortável, leve e barata, de material simples. Qualquer um encontra nela conforto, a sua leveza não a impede de ser estável. Pode ser infinitamente empilhada para que seja transportada ou arrumada. Limpa-se facilmente com pouco mais do que água e sabão. É à prova de mau tempo, não precisa de manutenção. Pode hibernar sem problemas e também poupa espaço. E com um preço de 10 marcos alemães, qualquer um pode comprar uma.”

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