Restaurantes

Thailander: o novo tailandês do Porto é à prova de fronteiras fechadas

Os ingredientes secretos e essenciais para as receitas do novo espaço na Baixa chegam dos jardins de duas tailandesas.
A sobremesa inconfundível: o arroz glutinoso com manga

Pergunta para spring roll: em que ano chegaram os primeiros portugueses à Tailândia? A resposta é 1511. Há mais de 500 anos, os nossos antepassados chegavam a Autaia e passavam aos locais uma arte bem portuguesa: fazer sobremesas com ovos. Dos fios de ovos nasceu o Foi Thong e das castanhas de ovos surgiu o Thong Yot. Infelizmente, alguns dos ingredientes secretos que hoje abrilhantam a culinária tailandesa não fizeram o caminho inverso.

É sobre esses produtos que assenta a cozinha autêntica do Thailander, o novo restaurante tailandês do Porto que promete que “desta vez é a sério”. A autenticidade é a chave e ela só existe com a ajuda dos sabores tradicionais: o pungente sabor cítrico da erva-príncipe e da lima kaffir; ou a acidez da galanga, um primo afastado do gengibre. Algumas destas armas secretas chegam diretamente dos jardins das mentoras do novo espaço da Baixa.

Apesar do inglês perfeito que esconde um português enferrujado, Pattareeya Guimarães fez do Porto casa há 12 anos, depois de casar com um português. Nattawan Ek-in chegou mais tarde, apenas em 2018. Conheceram-se por acaso, nas caixas de comentários do Facebook, e em pouco tempo estavam a manobrar pop-ups pelos bares da cidade.

Aos 40 anos, as tailandesas tinham outros afazeres no currículo. Pattareeya estudou engenharia informática, tirou um MBA no Reino Unido e ainda hoje ocupa o tempo como designer de carteiras. Nattawan explorou o outro lado da comida, formou-se em engenharia alimentar, trabalhou em higiene e segurança até se render finalmente aos caris tailandeses.

A sopa Tom Kha é uma festa de cores e aromas

De pop-up em pop-up, duas questões surgiram de forma mais ou menos recorrente. Enquanto uns questionavam onde é que se poderia comer mais especialidades, outros reclamavam por causa do picante. Se a primeira foi respondida no início do mês com a inauguração do Thailander, a segunda obrigou a uma adaptação.

Os palatos menos tolerantes ao picante dos portugueses obrigaram Nattawan carregar no travão, tendência que mantém nos pratos da ementa do restaurante. “O picante foi o único elemento que tivemos que ajustar. É o elemento em que podemos fazer cedências sem perder no sabor”, explica à NiT Pattareeya. “Chegámos a ter pessoas a provarem e a dizerem que não era comida tailandesa autêntica porque não era picante. Isso não é verdade, até porque na Tailândia nem tudo é picante”, acrescenta Nattawan, a responsável pela cozinha.

Estrearam-se com o mundialmente famoso Pad Thai, o prato de noodles de arroz salteados em ovo e num molho tradicional, e rapidamente perceberam que o caminho só poderia ser o de desenhar uma ementa em jeito de best of.

É mesmo preciso dizer o nome do prato?

O festim começa com os crepes primavera (5€), fritos com recheio de noodles e vegetais, para fazer deslizar no molho agridoce. A versão mais veraneante é feita com crepe de arroz, vegetais crus, camarão e um toque de menta.

A entrada traz logo outro dois nomes famosos, as eternas sopas de sabores fortes, que aqui podem ser provadas em formato de entrada ou em dose mais pujante e acompanhada de arroz jasmim. Falamos, claro, da célebre Tom Yum (10€ a 16€) — um caldo rico de camarão com sabores cítricos da lima kaffir e erva príncipe, com um toque picante — e da Tom Kha (10€ a 15€) — um caldo de coco com cogumelos, galanga e os aromas de coentros e erva príncipe.

O desfile de caras conhecidas prossegue com um elenco bem composto de receitas de arroz salteado e de dois típicos caris tailandeses: o verde (10€ a 14€), de coco com manjericão tailandês, vegetais, arroz jasmim; e o vermelho ou Massaman (10€ a 14€), de sabores mais pesados, uma carne à escolha, e aromas de anis, canela e amendoim.

Depois é só regar bem a refeição com uma cerveja Singha ou com um dos cocktails caseiros — em caso de dúvida, peça o que é feito com vodka em infusao de erva-príncipe. Cada um dos pratos tem direito a uma versão vegetariana ou à escolha do tipo de proteína, que pode ser frango, vaca ou porco, que fazem variar os respetivos preços.

“Esta é só metade da carta. Temos muitos outros pratos que testámos em casa com amigos e que não conseguimos colocar, mas que vamos tentar ir acrescentando”, nota Pattareeya, antes de confessar que está a ser planeada uma fusão de sabores portugueses e tailandeses. Pista: envolve bacalhau.

O espaço tem dois pisos e capacidade para 52 lugares — agora reduzida a metade

Testes feitos, pandemia ultrapassada e restaurante aberto. Agora é a vez de enfrentar os clientes e esperar que venham à procura das receitas tailandesas que, segundo as próprias, escasseavam na cidade.

É certo que o domínio do português ainda é inversamente proporcional à destreza com que manejam os produtos tailandeses. Também não se renderam aos cozinhados portugueses — se tivessem que escolher um prato para comer até ao fim dos dias, seriam ambos especialidades de casa. E são precisamente esses pratos que elas nos querem servir.

“No Porto ainda não havia sabores autênticos da Tailândia. E posso garantir que ninguém cozinha melhor a comida tailandesa do que nós, os tailandeses”, conclui Pattareeya.

Quem manda nisto tudo?

Nomes: Pattareeya Guimarães e Nattawan Ek-in
Idade: ambas têm 40 anos
Pratos favoritos: Som Tum (uma salada originária do norte da Tailândia) e Tom Yam (sim, a sopa que está na ementa)
Convença-nos a visitar este espaço: “Queremos levar as pessoas à Tailândia sem saírem do Porto, para que sintam a atmosfera, a comida cozinhada por chefs tailandeses e os ingredientes frescos e mais autênticos que se podem encontrar na cidade”.

Pattareeya Guimarães e Nattawan Ek-in

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua das Oliveiras, 45, Porto
    PortoBaixa

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