Restaurantes

O novo coreano do Porto serve um maravilhoso kimchi

O Ondo Korean Kitchen tem outra arma secreta que vai mudar a forma como olha para o frango frito.
Diga connosco: bi-bim-bap.

Esqueça tudo o que sabe sobre frango frito. Enterre todas as memórias do KFC e preste atenção ao segredo que os sul-coreanos guardam e que varre os norte-americanos do topo do ranking no que toca à famosa fried chicken.

Ainda não sonhava com a vida na Europa e Kelly Gyeongsuk Min já vivia no futuro. Na cidade onde nasceu, a capital Seul, o delivery é parte da vida dos locais há décadas — e nas mochilas os estafetas carregam quase sempre a mesma especialidade. A fama do frango frito explodiu na década de 70 e hoje é o petisco mais comum, sempre servida com cerveja bem gelada. Os pequenos prazeres são assim: universais.

Apesar da eficácia dos estafetas sul-coreanos — são conhecidos por entregarem comida em qualquer local —, ainda não são capazes de viajar até Portugal. Eis que entra em cena esta sul-coreana de 31 anos, a viver no Porto há cerca de ano e meio, orgulhosa dona daquele que é um restaurante pioneiro da cozinha coreana na cidade.

Tal como o célebre kimchi, o célebre prato nacional da Coreia do Sul que é fermentado durante meses, o Ondo Korean Kitchen esteve fechado até poder finalmente ser desvendado. A culpa foi da pandemia, que decidiu complicar a já ansiosa estreia de Kelly aos comandos de um restaurante.

“Aqui muitos portugueses terão a sua primeira experiência com a comida coreana. Mas esta também é uma experiência nova para mim”, explica à NiT por trás da máscara, num espanhol que apurou ao longo de quase uma década de vida na capital Madrid.

Apesar da inexperiência, toda a sua família conhece bem a arte de cozinhar e de servir. O pai, designer de interiores, é dono de um restaurante. A mãe, já reformada, também tem um. Os avós gerem um espaço na costa marítima da Coreia do Sul. E até tem uma tia que comanda uma cozinha coreana em Palma de Maiorca.

Foi precisamente numas férias na ilha espanhola que decidiu experimentar viver na Europa. Deixou Seul, onde se formou em hotelaria e trabalhou num hotel Ritz-Carlton, e estabeleceu-se em Madrid, onde trabalhou na área da fotografia. Já não voltou a casa.

“Numa viagem que fiz ao Porto apaixonei-me pelo tempo, pela boa comida. Decidi vir trabalhar para cá. Ao fim de um ano, como não havia comida coreana por cá, decidi abrir um restaurante”, conta.

Procurava um espaço cómodo, prático e pequeno, até porque os planos não contemplavam mais mãos na cozinha. Esse trabalho seria só seu e, para uma novata no negócio, convinha que não fosse demasiado intenso. Encontrou-o a dois passos das Fontaínhas, no Bonfim. Não se preocupou muito com a localização algo periférica, acreditava que quem estivesse interessado em experimentar a cozinha coreana, viria até si. “No início não pensei que viessem tantos portugueses, mas afinal vêm muito. Mais do que turistas”, avalia a própria, dois meses depois da inauguração.

O espaço no Bonfim não tem mais de 20 lugares.

Mais difícil é a tarefa de garantir os ingredientes para preparar as especialidades coreanas. Entre muitas encomendas de Espanha e da Alemanha, conta também com a ajuda de amigos que a visitam — e que trazem sempre uma mala para si a abarrotar de produtos.

A frango frito — feito apenas com a suculenta e tenra coxa — levemente cozinhado e coberto num molho picante e doce, com um travo incomum, é já um dos grandes sucessos da pequena ementa. O kimchi é, porém, o nome que todos reconhecem.

É o prato nacional do país. As receitas diferem mas seguem sempre a linha mestra: couve chinesa, sal, pimento vermelho coreano e um elemento salgado que pode ser molho de peixe a base de anchovas ou pasta de camarão. Tudo isto é envolvido em caixas grandes, deixado a temperatura ambiente entre três a quatro dias e depois reservado no frigorífico, onde irá fermentar. Depois, é comer na altura preferida.

No Ondo, Kelly usa a receita da avó e tem sempre kimchi com um, três e seis meses de fermentação. Quanto mais tempo passa, mais azedo se torna. Depois, depende do gosto de cada um. Pode ser comido simples, salteado em arroz ou até misturado em pequenas panquecas. Na verdade, não há limites à forma como se come — até porque os sul-coreanos teimam em comê-lo em quase todas as refeições.

A ementa tem apenas mais três entradas, composta de pratos tradicionais. É o caso do bibimbap, um prato que como o nome indica — bibim significa misturar, bap é arroz —, é para envolver todos os ingredientes. Tem uma base de arroz à qual é acrescentado um sem número de vegetais, mas também carne ou um tofu que Kelly prepara na cozinha, é temperado, reservado e finalmente fermentado, antes de servir. Também pode ser servido com kimchi.

Kelly mora há um ano e meio no Porto.

O elenco fecha-se com o japchae, um prato com noodles de batata doce, acompanhado também com vegetais, pimentos, cogumelos e pequenas tiras de gema de ovo. O joker está escondido no menu executivo, que muda todas as semanas e serve de tubo de ensaio para novos pratos que Kelly pondera acrescentar à carta.

E doces? Contrariamente ao que esperava, os portugueses são fãs do gelado de feijão vermelho, tão comum para os sul-coreanos, mas estranho para os estrangeiros.

“Da minha experiência, nunca gostavam muito dos doces com feijão vermelho, mas curiosamente os portugueses adoram”, conta. A escolha de sobremesa alterna semanalmente e tanto pode ser um gelado de matcha, como um gelado de sésamo preto.

Para que não falte nada, Kelly sugere uma de três bebidas: a soju, uma bebida destilada de arroz com um teor alcoólico um pouco acima do da cerveja; a cerveja sul-coreana, bebida simples ou misturada com soju; e o makgeolli, o vinho de arroz esbranquiçado e ligeiramente adocicado — e que é servido num bule e bebido em taças.

A explicação da tradição de beber makgeolli é interrompida pelos primeiros clientes, portugueses, poucos minutos depois do meio-dia. Kelly põe-se em sentido e lança-se ao trabalho com a ajuda de uma ajudante portuguesa. O Ondo não tem capacidade para mais de 20 clientes em simultâneo, número suficiente para pôr em polvorosa a cozinha minimalista.

O frango frito é obrigatório.

Embora o seu português esteja ainda a dar os primeiros passos, a sul-coreana desfaz-se em simpatia: “Quero que as pessoas experimentem a comida, mas não só. Quero que também vivam a cultura coreana. É uma outra forma de viajar”.

Também por isso não se limita a servir refeições e opta por receber os portugueses para um workshop valiosíssimo onde desvenda os segredos do kimchi — os eventos são sempre anunciados no Instagram do Ondo. Cada participante é recebido com petiscos e entra na cozinha para fazer a sua própria dose que depois pode levar para casa. E se não sair bem, não se preocupe: a caixa de Kelly tem mais do que suficiente para vender — cada frasco desta preciosa couve fermentada custa 10€.

Só que ao contrário do que acontece em Seul, o bombástico frango frito não vai até si às costas de um estafeta. Por cá, é o português que vai até ao frango — e não é, de todo, um trabalho árduo. Quando estiver a lamber os dedos vai perceber porquê.

Quem manda nisto tudo?

Nome: Kelly Gyeongsuk Min
Idade: 31 anos
Prato favorito: frango frito com arroz branco
Maior guilty pleasure: donuts
Convença-nos a visitar este espaço: “Agora que não podemos viajar, experimentar comida nova é outra forma de fazer uma viagem”.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua de S. Victor 148, 4000-512 Porto
    40000-512 Porto
  • HORÁRIO
  • De terça a quinta-feira, das 12h às 16h.
  • Sexta e sábado, das 12h às 16h e das 19h30 às 22h30.
  • Fecha ao domingo e segunda.
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Asiática

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