Restaurantes

As sandes mais famosas do Porto voltaram à mesa — mas poucos arriscaram comê-las

A Casa Guedes reabriu esta segunda-feira, 18 de maio. Ainda desconfiados, os portuenses que arriscaram já decidiram que preferem as esplanadas.
A concorrida esplanada da Casa Guedes está de volta.

“Sempre com a máscara posta”, atirou Vinicius Fraga para o funcionário que estava do outro lado do balcão da velhinha e famosa Casa Guedes, o berço da mais famosa sandes de pernil do Porto. O olhar (ainda) mais vigilante dos novos proprietários é perfeitamente justificado. Chegou o dia da ansiada reabertura, entre regras rígidas de desinfeção e uma enorme incógnita: será que os clientes regressam?

A partir desta segunda-feira, 18 de maio, os espaços de restauração estão finalmente autorizados pelo governo a reabrir ao público. Nem todos arriscaram, mas quem o fez, deparou-se com uma nova realidade. A NiT foi até aos dois espaços da Casa Guedes e acompanhou todos os minutos do primeiro serviço, dividido entre a antiga casa de esquina e o novo e moderno espaço, separados por um par de dezenas de metros.

Estava já tudo pronto alguns minutos antes da hora oficial de abertura e não tardou a que chegassem os primeiros clientes. Eram dois. Sentaram-se sem máscara e deram a ordem que permitiu estrear o primeiro pernil do dia — ainda o relógio não tinha chegado ao meio-dia. Era um bom primeiro indício para o negócio que se reinventou há cerca de oito meses.

Casa história da cidade, sentiu a ameaça provocada pelo frenesim imobiliário e acabou por ser resgatada numa altura em que soavam os alarmes com a possibilidade de venda do edifício original, na esquina do Jardim de São Lázaro.

Aos 37 anos, Vinicius Fraga é um dos três sócios que não só se certificaram que a Casa Guedes se manteria no mesmo local, como investiu para acelerar os planos dos antigos donos, os irmãos Correia, que já pretendiam abrir um espaço mais moderno e mais confortável para os clientes.

Na velhinha Casa Guedes ansiava-se por mais clientes.

“A expectativa era muito alta, especialmente para este verão”, conta à NiT o novo proprietário, enquanto vai espreitando, por cima da máscara, a movimentação das dezenas de funcionários, enquanto lamenta: “Agora não sei como vai ser, esperemos que dê para recuperar”.

Em pouco mais de duas horas, uma dúzia de clientes passou pelo novo espaço, outros tantos pela esplanada original. Não foi um serviço de almoço auspicioso, embora os clientes pareçam não mostrar medo — embora quase todos tenham evitado salas fechadas, apostando antes pelas esplanadas. O calor que se fez sentir durante o dia também ajudou.

“Não tenho receio, tenho que confiar”, explica Ivo Gonzaga, 36, enquanto aproveita a sombra da esplanada para esticar as pernas, antes de regressar ao trabalho. Conhecedor da casa desde pequeno, hesitou antes de se sentar, por não ver “nenhum dos antigos funcionários”. Acabou por se sentar “por necessidade”.

“Faço sempre os cinco almoços da semana fora de casa. Só vim porque tinha que ser, até porque não tenho hábito de trazer comida de casa”, diz ainda com a máscara pendurada nas orelhas mas aninhada por baixo do queixo. Cuidados com a pandemia, só mesmo uma desinfeção rápida das mãos antes de se sentar.

Refúgios ao ar livre

Uma esplanada no pós-confinamento é um ás de trunfo. Neste campo, a Casa Guedes está bem apetrechada. Tem quatro, no total, divididas pelas duas casas. E foi nelas que receberam todos os clientes do primeiro serviço.

Até por isso, a possibilidade de colocar uma nova esplanada no espaço aberto e desocupado da Praça dos Poveiros — Vinicius explica que é algo que está a ser tratado com a Câmara Municipal, para beneficiar os restaurantes da zona, e que pode avançar nos próximos dias — é recebida com alguma indiferença. “Pode retirar-nos a vantagem de termos dois espaços ao ar livre no edifício”, justifica.

Os poucos clientes optaram todos por comer ao ar livre.

Ainda assim, o regime especial aprovado pelo executivo municipal permite que as esplanadas se libertem de algumas regras mais estritas da colocação de esplanadas nos espaços públicos. E a Casa Guedes aproveitou para alargar a área ocupada, até para abrir uma área de recolha de pedidos de take-away.

Muitas mãos para poucas bocas

A mudança de hábitos e de processos não foi algo de completamente novo no dia a dia de Vinicius e Leonardo Bevilacqua. Tiveram que aperfeiçoar métodos e mudar a forma como as coisas se faziam sob a antiga gerência. “Já tínhamos implementado regras de uso de luvas e toucas”, explica o outro sócio de 39 anos.

Mais espaço obrigou à contratação de mais funcionários, embora nem todos tenham sobrevivido aos dois meses de confinamento geral. Os contratos em período experimental foram terminados. Mesmo assim, no dia da grande reabertura, estavam a trabalhar perto de 30 pessoas, espalhadas pelas duas casas.

Com uma dose de otimismo e cautela, Vinicius começara o serviço a notar que estava tudo “preparado para uma casa cheia”, embora frisasse que “metade já seria bem bom”. A realidade ficou bastante aquém.

É que a capacidade total do novo edifício caiu de 190 para 90 lugares. No espaço original a situação é ainda mais dramática: a sala que já era pequena passou de cerca de seis lugares para dois. Aos balcões, ninguém se pode sentar. Vale a esplanada, capaz de sentar 30 clientes.

Devidamente equipados, os funcionários tentavam manter-se ocupados, entre conversas e desinfeções, mesmo sem clientes. Aos poucos, eles foram surgindo, obrigando à revisão dos novos métodos.

Vigilante, no terraço do último piso que abre a vista para a Praça, Ariane espalha desinfetante nas cartas que, por agora, continuam a ser usadas — pelo menos enquanto não chegam os individuais de papel que as irão substituir. “É chato estar de máscara e sempre a desinfetar tudo, as mesas, as cartas… E ter que pedir aos clientes para esperarem, antes de se sentarem”, desabafa a empregada de mesa.

As garrafas de desinfetante já fazem parte da decoração.

Apenas com duas mesas ocupadas, imaginava um cenário de lotação esgotada. “Seria um inferno, mas são as regras e temos que cumprir, até porque todos queremos manter os números [de infetados] em baixo”.

Trocar a sala pelo sofá

“Hoje, que estamos todos aqui a trabalhar, nem a Uber toca”, ouve-se junto ao balcão da sala de entrada da nova Casa Guedes. São sete, ao todo, que correm para trás e para a frente, a combater o tédio.

A verdade é que esta segunda-feira também ficou marcada por uma quebra nos pedidos de delivery, a grande aposta dos últimos dois meses. Antes da pandemia já era possível receber as sandes de pernil em casa. Assim que tudo encerrou, Vinicius alargou o serviço, inicialmente apenas na Uber, a outras duas plataformas. Os resultados foram os esperados: os pedidos que, até então, representavam 2 por cento do negócio, dispararam para os 15 por cento.

Reabertos os restaurantes, o terminal do delivery abrandou. “Os pedidos caíram cerca de 50 por cento relativamente à segunda-feira passada. Assim não compensa”, nota Vinicius, que se mantém tranquilo e otimista. “Temos espaços abertos e diferenciadores que as outras casas não têm. E no fim de semana já vai ser melhor”.

Sairam pouco mais de uma dúzia de sandes de pernil.

A verdade é que a falta de clientes não será o único desafio que terão que enfrentar. Numa casa que recebe, segundo dados dos proprietários, uma maioria de clientes estrangeiros — com cerca de 40 por cento de visitantes nacionais —, o encerramento das fronteiras é outra dor de cabeça. “Agora esperamos que a clientela seja 100 por cento local”, afirmam.

As duas primeiras horas do resto da vida deste restaurante ficou “abaixo das expectativas”. Terá sido assim para a Casa Guedes e para muitos outros. Nos espaços vizinhos, funcionários e proprietários aguardavam vigilantes às portas dos negócios, ansiosos por reconquistarem a confiança dos clientes.

A primeira amostra pode ser reveladora ou enganadora. São, afinal, apenas duas horas de um serviço de almoço de segunda-feira. “Vamos ver à noite”, diz Vinicius com confiança. “Mais importante do que atingir expectativas, é ter um discurso otimista. Vamos ver à noite. Estamos a trabalhar as redes para chamar as pessoas e, no próximo fim de semana, com o bom tempo, esperamos que elas voltem”.

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