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“Gerações da Talha”: o projeto que está a certificar o seu vinho milenar

A tradição milenar da época dos romanos está a concorrer a Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Foto: Jerónimo Heitor Coelho.

Ao longo dos tempos, a técnica de produzir vinho em talhas, grandes vasilhas de barro, foi passada de geração em geração, de forma quase imutável. O processo existe há mais de dois mil anos, desde a época dos romanos, é encarado como uma herança do Alentejo e faz parte do dia a dia da população de Vila de Frades, localizada entre Évora e Beja.

A pequena aldeia situa-se a poucos quilómetros da vila romana de São Cucufate, datada do século I. Nesta zona agrícola, foram encontrados vestígios de talhas de barro e grainhas num lagar de uvas, durante escavações arqueológicas.

No século XVI, os frades Capuchos da Ordem de São Francisco cediam a exploração das vinhas à população local para que produzissem o vinho sangue de Cristo em talhas de barro. O saber empírico desta época continuou a ser transmitido ao longo dos anos, sempre baseado na ajuda familiar.

O projeto “Gerações da Talha” surgiu para dar forma a esta arte milenar, com a pretensão de valorizar e manter a produção genuína do vinho de talha, que tem neste momento uma candidatura a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

“Como o próprio nome indica, é um projeto entre as gerações da nossa família, que alia o grande conhecimento de vinhos e dos vinhos de talha do meu avô, Arlindo Ruivo, com o empreendedorismo da minha mãe, Graça Caeiro, e com a minha visão mais jovem e dinâmica. Apesar da produção de vinho de talha na nossa adega ser uma constante, só o meu bisavô, Francisco Nogueira Anacleto, que o produzia para vender nas lojas, tabernas e restaurantes. Desde o seu falecimento, apenas continuámos a produzir este néctar para consumo de casa, colaboradores da casa agrícola e amigos, mas este ano decidimos certificá-lo para começar a comercializar a bebida”, explica à NiT Teresa Caeiro, que estudou enologia na Universidade de Évora.

O grande diferencial deste vinho artesanal, além da produção ser em talhas de barro (onde a fermentação ocorre de forma espontânea entre 8 a 15 dias) é que a massa sólida depositada no fundo da vasilha, formada por grainhas, películas e engaços, vão mais tarde funcionar como filtro natural, quando se retirar a bebida da talha.

A tradicional talha.

“Demos ao nosso vinho o nome de ‘Farrapos’. É uma homenagem aos frades do século XVI, conhecidos como farrapeiros por causa das suas vestes simples e modestas. É um produto autêntico, feito com alma e coração e que carrega consigo muita história. A bebida é sempre bem recebida pelos clientes que nos elogiam bastante por mantermos a tradição”, conta Teresa.

Até o momento, a faixa de preço do vinho de talha que está a ser certificado pela família ainda não foi definido, mas é possível visitar a adega da “Gerações da Talha” sem qualquer custo associado, havendo sempre a possibilidade de provas os vinhos e alguns petiscos por 5€.

Além da adega, o projeto pretende fazer visitas guiadas para contar a história e a influência deste método de produção na Vila de Frades, nas vinhas do Gerações de Talha e também nas ruínas de São Cucufate. As reservas podem ser feitas através do email geracoesdatalha@nullgmail.com.