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Gourmet e Vinhos

Como as bolas de Berlim vieram da Alemanha para mudar as vidas dos portugueses

A receita chegou ao País durante a Segunda Guerra Mundial pelas mãos dos refugiados judeus e tornou-se num sucesso imediato.
Existem em Portugal desde a Segunda Guerra Mundial.

“Olha a bolinha! Há com creme e sem creme”. Esta é uma das frases mais repetidas e ouvidas nas praias portuguesas de norte a sul do País há mais de 50 anos. A bola de Berlim, que como o nome indica tem origem alemã, é uma daquelas especialidades estrangeiras que encontraram uma nova casa em Portugal — outro bom exemplo poderia ser a chamuça, que tem lugar cativo nos snack-bars de todo o País.

No dia 13 de agosto, o jornal espanhol “El Mundo” contou a história de como a bola de Berlim se tornou no bolo mais popular (e típico) das nossas praias.

Ao longo dos anos em que durou a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, vários milhares de refugiados fugiram para Portugal — um país oficialmente neutro —, com o objetivo de viajarem para outros países e continentes através dos navios transatlânticos. Muitas famílias judias alemãs, por exemplo, encontraram no nosso País um abrigo temporário — antes de rumarem para uma nova vida, fosse nos EUA ou, depois, no recém-fundado estado de Israel. De qualquer forma, durante o período que viveram cá e enquanto esperavam pelos papéis necessários para partirem novamente, estes refugiados tiveram de trabalhar para sustentarem as famílias.

Muitos judeus tornaram-se funcionários de empresas nacionais, como pastelarias e cafés. Por isso, vários destes espaços, sobretudo em Lisboa e no Porto, começaram a vender doces típicos germânicos, incluindo a bola de Berlim.

Ao longo do tempo, os pasteleiros nacionais desenvolveram a própria versão — originalmente, a receita era feita com creme ou marmelada. Ou seja, passámos a fazer estes bolos com o recheio de doce de ovos que já era usado em tantas outras especialidades tradicionais. E pronto: foi assim que nasceu a bola de Berlim portuguesa.

Tendo em conta o tamanho e a forma redonda (ideal para agarrar só com uma mão), as bolas de Berlim começaram a ser vendidas na rua. Mais tarde, chegaram às praias, onde foram um sucesso tão grande que se transformaram num ritual típico do verão.  

Ainda assim, ao longo das décadas, os nutricionistas têm repetido que não é o bolo ideal para vender nas praias com temperaturas altas, por causa da fragilidade do doce de ovos — isto sem mencionar o facto de ser uma bomba de açúcar calórica. Há alguns anos até surgiu o rumor de que o governo queria proibir a venda de bolas de Berlim na praia por ser perigoso, mas a ASAE limitou-se a fiscalizar e legalizar todos os vendedores, de forma a existir um controlo de qualidade mais apertado.

Atualmente já se vendem várias bolas de Berlim alternativas, como é o caso das receitas fabricadas pela marca Berlineta. Existem opções com massa de beterraba, alfarroba ou até de espinafres, entre outros. Em 2017, esta empresa abriu a primeira loja em Portugal dedicada exclusivamente às bolas de Berlim, junto da Praia dos Pescadores, na Costa da Caparica.

O jornal “El Mundo” relembra que em Espanha também se vendem bolas de Berlim, apesar de se chamarem berlinesas e de não serem tão populares. Por outro lado, na maioria dos países europeus, as especialidades de praia costumam ser opções salgadas.