NiTfm live

cafés e bares

Fica no Algarve e dizem que é dos melhores bares de praia da Europa — só que não

Os leitores do “The Guardian” não passaram uma vida de férias na Ilha da Armona. O repórter da NiT, sim, e tem outra opinião.
Será este o melhor bar de praia do Algarve?

Na lista dos dez melhores bares de praia da Europa tinha de estar um espaço português. Claro, estamos na moda e seria imperdoável que não estivesse um exemplar nacional representado. A seleção foi feita pelos leitores do jornal britânico “The Guardian” e as escolhas foram publicadas na sexta-feira, 7 de março. O Camaleão Beach Bar, na Ilha da Armona, em Olhão, é a sugestão vencedora. De certeza que estes senhores não passaram ali uma vida de férias como este senhor que vos escreve.

A Armona tem os seus encantos, mas o Camaleão Beach Bar não é um deles. Todos os verões da minha infância e adolescência foram passados nesta ilha da Ria Formosa. Acordar, comer, praia, comer e dormir. A rotina repetiu-se verão atrás de verão ainda não existia qualquer bar na Costa, como é conhecida aquela praia.

O primeiro espaço que ali esteve foi o Bar Batana — não vingou. Há cerca de cinco anos abriu o Camaleão. Tentou trazer alguma novidade à praia, o que, de facto, não era difícil. Tudo era melhor do que o projeto anterior. Encheu o areal de poltronas de plástico da IKEA, uns chapéus de sol de palhinhas e duas colunas para passar música de todos os estilos e mais alguns.

Nada de criativo, leitores do “The Guardian”. Como é que isto é o melhor da Europa? A única coisa que pode fazer deste bar o melhor é mesmo o cenário à volta. Nada mais. Assim bastava eu espetar naquela areia uma das minhas estacas com espanta-espíritos, que vendia nos meus tempos áureos de empreendedor, para ser classificado como o melhor do mundo até.

Tostas, alguns bolos e as bebidas banais que vemos em todo o lado — não, não há “cocktails incríveis” como explica o artigo. Para os leitores do “The Guardian” , passei uma vida ao lado do melhor bar da Europa e não sabia. A ilha é que é incrível, não os projetos que por lá se encontram, que nunca tiveram o investimento necessário para que fossem espetaculares.

Segundo o jornal inglês, por lá ouve-se “jazz/reggae/house”. Essa é a expectativa. Agora vamos à realidade: ali passa em modo repeat as canções da moda desse ano como se estivéssemos a ouvir o “Now 31”. Fazia sentido que um bar na praia numa ilha de onde não se pode sair — o último barco parte às 20h30 — estivesse aberto à noite, para se beber um copo e ouvir uma música. Não está, encerra ao final da tarde. Percebo que as mesmas pessoas não possam estar o dia todo a trabalhar, mas podiam empregar mais.

Nos últimos anos, acrescentaram palmeiras.

Para quem chega e parte no mesmo dia, parece maravilhoso: um bar no extenso areal na Costa, um autêntico oásis. Já quem passa férias por lá percebe que qualquer coisa funcionava naquele lugar e que qualquer coisa seria a melhor do mundo ali.

Ainda assim, há algumas verdades no artigo. Vale a pena ir à Armona pelo passeio de barco que é obrigado — e ainda bem — a fazer pela Ria Formosa a partir de Olhão. E todo o por do sol é digno de fotografia para o Instagram em qualquer ponto da ilha. Até no bar que não é o melhor da Europa.

Este verão conto passar por lá, mais um verão como têm sido os últimos. Posso dar uma nova oportunidade ao Camaleão Beach Bar, mas de certeza que não será dali que me vão ficar memórias.

Será, sim, pelas conquilhas apanhadas na maré baixa que depois fazemos em casa com azeite em abundância e alho, pelos almoços e jantares de peixe grelhado no carvão, pelos grilos que se ouvem todas as noites, pelas estrelas que se vêem como em nenhum outro lugar, pelo chinelar das pessoas na passadeira e, sim, por aquele verão em que ganhei 75€ a vender conchas pintadas e espanta-espíritos a quem passava.