Música

Quando os U2 encontraram aquilo que procuravam — 30 anos de “The Joshua Tree”

O quinto álbum dos U2 e aquele de onde mais êxitos saíram, faz 30 anos. O crítico de música da NiT olha para ele, tantos anos depois.

Vivem-se tempos estranhos no mundo dos U2. Longe parecem ir os anos da aclamação global e das multidões a dormir ao relento numa BP para agarrar um bilhete. Da última vez que deram à costa, os U2 pareceram aquela tia que leva um vestido inusitadamente arrojado para a sua idade à festa de Natal: quiseram ser radicais ao colocarem o álbum “Songs Of Innocence” no iTunes de todos os utilizadores do mundo, mas acabaram queimados com a jogada. E para piorar tudo, caíram no ridículo de pedir desculpa. Menos punk que isto era impossível. Mais noção precisava-se, Bono.

Talvez em resposta ao (despropositado) backlash global do caso iTunes, os U2 começaram finalmente a agir como uma banda da sua idade. Decidiram arrumar o álbum “Songs Of Experience” na gaveta (tal como tinham feito com “Songs Of Ascent”, o “Zooropa” de “No Line On The Horizon”) em detrimento de uma digressão nostálgica para comemorar os 30 anos de “The Joshua Tree”. O aniversário do álbum é precisamente hoje, um dia em que, mais que nunca, é uncool falar nos U2. Mas como ignorar um álbum que mudou a vida de tanta gente? A minha mudou. Por isso fuck the uncool, vamos falar em “The Joshua Tree”.

Há vários prismas por onde olhar para “The Joshua Tree”, sendo o mais óbvio o seu sucesso: vendeu 25 milhões de cópias; é o álbum mais vendido dos U2 e um dos mais vendidos de sempre; ganhou o Grammy de Álbum do Ano e é presença habitual nas listas dos melhores álbuns para as principais publicações. Não admira por isso que este tenha sido o álbum que consagrou os U2 como ‘a maior banda do planeta’, um título que os próprios inventaram para si e que mantiveram durante mais alguns anos, mesmo quando (e principalmente quando) decidiram desmanchar tudo para refazer de novo.

“The Joshua Tree” é o produto de maturação de uma década, foi a cristalização de um caminho que os U2 percorreram durante 10 anos e onde em breve se veriam encurralados. É o quinto álbum da banda e contém todos os elementos com que foi polvilhando a sua discografia ao longo dos anos 80.

Mal deixamos cair a agulha, somos submergidos pela solene introdução ambiente de “Where The Streets Have No Name”, uma marca-de-água de Brian Eno, que estende a passadeira para a entrada da marca-de-água de The Edge (e dos U2) — “o riff” que ecoa ao infinito. Já tínhamos ouvido variações d’”o riff” em temas tão longínquos como “The Electric Co.”, ou mais proximamente em “Pride (In The Name Of Love)”; mas é aqui que a imagem de marca da sonoridade dos U2 se cristaliza.

Este álbum é como uma declaração de amor ao imaginário americano

A introdução solene dá o mote para o traje polido e grandioso que os U2 pretendem dar ao álbum. Tudo em “The Joshua Tree” soa grande, grandioso, grandiloquente; é o gospel de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, são os prantos de “With Or Without You”, o sermão de “Mothers Of The Disappeared”, a fúria de “Exit”, a pregação (e a fúria) de “Bullet The Blue Sky”.

Aliás, os U2 construíram um séquito ao longo de toda a década de 80 (lembrem-se dos cartazes que enchiam o Wembley no Live Aid, dois anos antes) e passam “The Joshua Tree” a pregar às suas hostes. Bono aparece aqui como o pregador, completando assim a transformação do punk adolescente que apareceu em “Boy” 10 anos antes. A espontaneidade de “Boy” foi aniquilada em favor de uma abordagem mais metódica e formulaica mas, e este é um grande mas, com melhores canções. 30 anos volvidos, continuam um deleite para os ouvidos.